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A UNESCO e o mundo da cultura -  Ely Guimarães

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lógicos desde a segunda metade dos anos 50 anunciam um novo
momento nas relações mundiais e configuram um contexto em que
se ampliam os recursos financeiros da UNESCO, tanto em relação
ao orçamento ordinário como aos recursos extra-orçamentários pro-
venientes de outras fontes, incluindo os organismos privados.
Assim, na 11a CG-1960, pela primeira vez, é aprovado um
orçamento superior ao valor estimado pelo diretor-geral.37 Além desses,
novos recursos extra-orçamentários provenientes do Fundo das Nações
Unidas para o Congo (Onuc),38 do Fundo das Nações Unidas para a
Infância (Unicef), da cooperação com o Banco Mundial e sua filial,
Agência Internacional para oDesenvolvimento (IDA), criada nesse ano,
são obtidos para serviços de consultoria a ser prestados pela UNESCO
37 Desde 1950, a contenção do orçamento ordinário da UNESCO se vê compensada
pelos recursos do Programa Ampliado de Assistência Técnica (Peat), réplica do
Plano Marshall para as demais regiões do mundo, proposto em 1949 por Truman
à ONU e adotado, no ano seguinte, pela UNESCO. O plano compreende projetos
multilaterais a cargo daONU e suas agências e projetos bilaterais a cargo dos EUA
e de outros países que contribuíssem com recursos além de suas cotas devidas à
organização.VerARCHIBALDI, 1993, p. 129-144. O autor analisa as implicações
da adoção do Peat para a identidade da UNESCO, argumentando que, por remeter
imediatamente ao sentimento de gratidão dos assistidos, as ações desse programa
terminampor reforçar, entre os Estados-membros, um tipo de relações que deveria,
mediante a atuação daUNESCO, ser desestimulado. Recursos extra-orçamentários
foram, entretanto, tornando-se proporcionalmente maiores do que o orçamento
ordinário daUNESCO, representando a possibilidade de as decisões escaparem ao
seu controle. Não por acaso, portanto, a equipe do presidente Kennedy, aomesmo
tempo que prossegue a política de limitar o orçamento ordinário da UNESCO,
defendia uma forma de apresentação dos orçamentos e programas demodo que os
Estados-membros pudessem visualizá-los em sua totalidade, “sem diferenciação
entre orçamento ordinário e fundos extra-orçamentários”. Ibidem, p. 303.
38 Criado em 1960, o Onuc fornece o suporte financeiro às ações das diversas
agências especializadas da ONU na guerra civil do Congo, que conta com a
participação da URSS e dos EUA. Sobre as ações civis desenvolvidas no Congo,
que nesse ano se torna membro da UNESCO, ver FULLERTON, Garry.
L’UNESCO au Congo. Paris: UNESCO,1961.
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à então potencialmente explosiva América Latina, assim como para
serviços de assessoria na definição de prioridades emoutros continentes.
Novos recursos, destinados até então exclusivamente a projetos
de infra-estruturamaterial, possibilitamumaampliaçãoda capacidadede
atuação da UNESCO nesse período, em que o Banco Mundial se volta
para as reformasdas estruturas educacionais, a fimde sintonizá-las quan-
titativa e qualitativamente comodesenvolvimento econômico.39
A inclusão da educação como fator de desenvolvimento nos
objetivos do banco intensifica a busca de racionalização das estruturas
educacionais, conforme as diretrizes acordadas em reuniões dos mi-
nistros da Educação africanos, asiáticos e latino-americanos, realiza-
das desde o final da década de 1950, e seguidas das reuniões desses
ministros com os da área econômica. Cria-se, em 1963, o Instituto
Internacional de Planejamento Educacional (IIPE), um dos primeiros
resultados da cooperação entre a UNESCO e o Banco Mundial, em-
preendimento do qual também participa a Fundação Ford. A sede do
instituto é oferecida pelo governo francês, mas seu primeiro diretor é
Philip Coombs, que fora antes secretário de Estado adjunto para as-
suntos educativos e culturais no Departamento de Estado dos EUA.
Registra-se, nesse período, sobretudo nos anos Kennedy, uma
retomada de interesse dos EUA pela UNESCO. Oportunidades não
faltaram, porém, para a reafirmação das duas versões de ocidentalidade,
em contraposição e pretendendo-se exclusivas, presentes na missão
civilizatória da organização. Em1963, por ocasião das visitas do diretor-
geral, René Maheu, aos EUA, registra-se um exemplo nesse sentido.
Numa primeira oportunidade, Maheu se expressa a respeito
da evolução em curso na UNESCO. Esta, segundo ele, transformara-
se numa organização operacional, cuja preocupação essencial, muito
mais do que a cooperação intelectual, centrava-se na melhoria de
vida dos povos domundo em desenvolvimento.Maheu ressalta ainda
a boa acolhida da UNESCO entre esses povos, atribuindo-a a uma
maior preocupação da organização com as tradições culturais e a
dignidade humana deles do que com amelhoria das condições físicas.
39 Cf. POMPEI, Gian Franco, 1972, p. 3. Ver também TOMMASI, Livia de,
WARDE, Mirian Jorge e HADDAD, Sérgio (Orgs.). O Banco Mundial e as
políticas educacionais, São Paulo: Cortez, 1996.
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De outra feita, por ocasião da 9a Conferência da Comissão
Nacional dos EUApara aUNESCO, a resposta deMaheu ao conteúdo
da mensagem do presidente Kennedy, lida na sessão de abertura,
posiciona a UNESCO no jogo das forças presentes. À Europa forte e
unida, como parceira eficaz dos EUA em sua tarefa de preservar o
“mundo livre”, o diretor-geral contrapõe a Europa como “uma entidade
cultural”, ressaltando, portanto, os valores culturais, em oposição ao
armamento, como o “caminho de os americanos ganharem os corações
dos europeus”. E, reafirmando as novas relações da Europa com suas
ex-colônias, Maheu adverte: “não haverá nem o monopólio, nem a
bipolarizaçãono futuro domundoemvias dedesenvolvimento”. (Citado
porArchibaldi, 1993, p. 299-301)
A posição enunciada por René Maheu pode ser lida como a
afirmação da universalidade, sempre buscada pela UNESCO que,
vivendo a experiência do contraponto de uma ocidentalidade de origem
européia, da sua tradução norte-americana e de sua ressignificação
pelas múltiplas culturas agora nela representadas, e fundamentada
sobretudo no seu Programa de Estudos sobre os Estados de Tensão,
compreende essa universalidade como processo construído na
interdependência, e tambémpela integridade e diversidade das culturas.
Essa perspectiva, fundamental ao Projeto Principal de
Apreciação Mútua dos Valores Culturais do Oriente e do Ocidente 40
40 Cf. FRADIER, Georges. Orient et Occident. Peuvent-ils se comprendre? Paris:
UNESCO, 1958. Respondendo à questão incluída no título e tendo comomotivação
o Projeto Principal sobre aApreciaçãoMútua dosValores doOriente e doOcidente,
o autor questiona a fragilidade dos critérios – a geografia, as raças, as línguas, as
formas sociais, a idéia de progresso social como progresso industrial, “que lisonjeia
a consciência de um Ocidente confiante de seu avanço técnico, de seus gostos e
sentimentos que administram com freqüência os romances e o cinema” –, a partir
dos quais o Ocidente inventa o Oriente pelo folclórico, o bizarro, ou o misterioso,
ou, ainda, como “vasto domínio de nações subindustrializadas, compredominância
de civilizações agrárias e sociedades do tipo feudal ou patriarcal” (p. 13). Dessa
perspectiva crítica, ele denuncia a ignorância européia, a intolerância, o desprezo e
a pressa com que a Europa, parece, esquecera-se do Oriente em cujas fontes ela
bebeu e se enriqueceu, preparando-se, assim, para tranformar o planeta (p. 20).
Enfatizando essa origem comum , sustenta, então, a possibilidade de compreensão
Ocidente–Oriente para o que se faz necessário, porém, a aquisição, por parte do
Ocidente, de virtudes como a modéstia e a tolerância.
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aprovado em 1956, já se anunciara, em 1953, quando se cria a coleção
Unidade e diversidade cultural; reafirma-se em 1965, quando é
aprovado o Projeto Principal sobre a História Geral da África; traduz,
enfim, a reorientação exigida pela nova composição da UNESCO.
Essa reorientação ocorre num contexto em que a vontade ex-
pressa na mensagem do presidente