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A UNESCO e o mundo da cultura -  Ely Guimarães

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nesse ato pela Inglaterra, ela
recebe como novos membros São Cristóvão e Nevis, São Vicente de
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Granadinas, países insulares das Antilhas associados à Commonwe-
alth, e Fidji, arquipélago do sudoeste do Pacífico, colônia britânica
desde 1874 e independente, nos quadros da Commonwealth, desde
1970. No ano anterior, Belize, na América Central, e Antígua e Bar-
buda, no Caribe, ambos Estados independentes ligados à Commonwe-
alth, haviam se tornado membros da UNESCO, o que pode repre-
sentar um lucro obtido por aqueles dois países na troca de seus dois
votos por cinco de seus aliados, na Conferência Geral.
A discussão acerca do estatuto dos membros do Conselho
Executivo, da qual resultam resoluções sucessivas, para acomodar,
no arcabouço teórico que regulamenta o caminhar da UNESCO, a
realidade social e histórica, rebelde por natureza, prolonga-se de 1947
até a década de 1990. Assim, o Japão que, em 1972, pronunciara-se
contrário à proposta sueca, propõe uma emenda, aprovada na
Conferência Geral de 1991, segundo a qual os 51 Estados-membros,
eleitos pela Conferência Geral, indicariam, a partir de então, os seus
representantes para compor o Conselho Executivo. Essa mudança
não será a última, e nem chega a reproduzir, na UNESCO, uma
estrutura semelhante à do Conselho de Segurança da ONU, como
sugeriam os questionamentos do delegado dos EUA, em 1947.52
Os questionamentos sobre a composição do Conselho Execu-
tivo, único órgão da estrutura básica da UNESCO passível de ser
modificado e cuja posição entre a Conferência Geral e o Secretaria-
do é de fundamental importantância, assim como as mudanças nele
processadas, desde a década de 1950 até a de 1990, têm sido
justificados pela necessária ampliação e pelo atendimento dos critérios
de distribuição geográfica e de representação da diversidade cultural
dos assentos para incluir os novos Estados-membros. Essa ampliação
se justificava ainda pela necessidade de racionalizar as relações entre
esse órgão e o diretor-geral e seu secretariado. Não se pode descartar,
entretanto, o objetivo de possibilitar um controle sobre a instituição
como um todo.
52 Acerca dos questionamentos apresentados, em 1947, pela delegação americana,
há registro de que, na prática, havia desde o início dos trabalhos da UNESCO um
acordo tácito segundo o qual aqueles Estados, membros permanentes do Conselho
de Segurança da ONU, estivessem sempre representados no Conselho Executivo.
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Além disso, as mudanças procedidas no Conselho Executi-
vo, desde a década de 1950, revelam, no seu conjunto, momentos
diversos da realidade, em seus aspectos econômico-políticos, e por-
tanto socioculturais, e sua repercussão na UNESCO, instituição
que, desde os seus primeiros passos, tem sido mantida sob rígido
controle dos Estados-membros entre os quais, não sem razão, pai-
rava o receio de utilização, por alguns deles, do potencial da orga-
nização, cujos campos de atuação incidem de modo substantivo na
dinâmica da sociedade mundial.
Referindo-se às potencialidades dos organismos internacionais,
e às eventuais resistências interpostas pelas nações e suas elites ao
crescimento de sua força, Deutsch (1982, p. 238) apresenta a se-
guinte conclusão:
até agora, o principal problema de cada organismo
internacional destinado à manutenção da paz e da segurança
tem sido sua fragilidade e não sua força. Em cada caso, o
organismo se mostrou fraco exatamente porque a maioria de
seus membros temia sua força e também receava a
possibilidade de essa organização internacional ou federal
transformar-se em mero instrumento do exercício de poder e
da hegemonia de um ou de alguns de seus membros mais
poderosos – de certa forma, da mesma maneira como uma
holding quase sempre serve de instrumento para ampliar e
multiplicar o poder de uma minoria bem organizada de
acionistas contra os demais. No caso de organismos
internacionais que pretendem que todos os países deles façam
parte, as diferenças entre os membros tendem a ser enormes,
o mesmo ocorrendo com seus receios recíprocos.
Este parece ser bem o caso da UNESCO. Ao longo de sua
existência, essa instituição viveu momentos expressivos de força e
de fraqueza, qualidades que ora se alternam, ora se imbricam. Isso
nos permite compreender a UNESCO como um processo: ao mes-
mo tempo instituída pela sociedade ocidental, ela é também instituin-
te de seus caminhos, de sua dinâmica própria.
O que não significa, entretanto, a perda de sua ocidentalidade.
Produto de ummomento específico da sociedade ocidental, aUNESCO
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se estrutura na dinâmica contraditória de um processo de
ocidentalização, realizando-se num jogo de forças que une e opõe
nações, povos, gentes; formas de organização social; Estado,
empresas privadas e organizações não-governamentais.
Nesse processo, a UNESCO se re-constrói, pelas determi-
nações socialmente produzidas, como instituição com responsabili-
dades em áreas fundamentais para a vida social. Determinações
que não cessam de se reproduzir, gerando mudanças qualitativas
nas estruturas, processos e relações. Gerando também novas con-
figurações e demandas antes insuspeitadas, desafiando e pondo
em questão os ideais e os limites propostos e impostos à UNESCO
por seus fundadores, exigindo dela novas rearticulações.
Apelos em direções variadas e sentidos contraditórios che-
gam à UNESCO, impulsionados pelas forças presentes nas múlti-
plas disputas envolvidas na construção da história mundial. A com-
plexidade desse contexto impõe obstáculos à compreensão imedia-
ta da UNESCO. Seus campos de atuação, diversificados em múl-
tiplas temáticas, oferecem e sugerem vários temas e questões. O
exame desses temas e questões, em seus desdobramentos nessa
instituição e na realidade em que são produzidos, pode permitir uma
compreensão da UNESCO e de sua inserção no “vasto processo
de transculturação (...) em curso desde os primórdios do capitalis-
mo”. (Ianni,1996, p. 219)
O exame desses temas e questões, nesta perspectiva, pode
permitir ainda a compreensão do modo pelo qual a UNESCO en-
frenta as questões-problema emergentes nesse processo de mun-
dialização. Algumas delas são privilegiadas, por sua abrangência e
recorrência no percurso da instituição, o que significa a sua perma-
nência como problema na realidade social na qual se produzem. A
esperança na educação como meio de construir a paz entre na-
ções, povos e gentes, e sua potencialização pela revolução das co-
municações são desafiadas pelas manifestações de intolerância às
diferenças e de exclusão do “outro”, que se expressam na violên-
cia de nacionalismos, fundamentalismos, guerras, revoluções. Com-
preender a ação teórico-prática da UNESCO no encaminhamento
dessas temáticas constitui um desafio que merece ser enfrentado.
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AUNESCOe a comunicação
entre as culturas
(...) desenvolver e multiplicar as relações
entre os povos, a fim de que melhor se com-
preendam e adquiram conhecimento mais
preciso e verdadeiro de seus respectivos
costumes.
(Ato Constitutivo da UNESCO)
A intensificação do processo de descolonização na segunda me-
tade da década de 1950 e o posterior desenvolvimento das tecnologi-
as da comunicação abrem novas perspectivas à ação da UNESCO
e tornam mais complexos os problemas e desafios com os quais ela
se defronta, situando-a em momentos qualitativamente diversos de
sua atuação. Nos anos 60, às três áreas inscritas em sua denomina-
ção soma-se uma quarta: a comunicação – área que motivou críticas
dos meios de informação dos países industrializados, assim como
gerou impasses nas sessões da Conferência Geral, com adiamento
de decisões nesse foro. O pomo da discórdia reside, sobretudo, nas
ações desenvolvidas nas décadas de 1970 e 1980, em busca de uma
nova ordemmundial da informação, culminando na decisão de os EUA
e a Inglaterra se retirarem da UNESCO. O retorno da Inglaterra, em
junho de 1997, os impasses