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A UNESCO e o mundo da cultura -  Ely Guimarães

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já citados e o poder de influência ainda
mantido pela UNESCO permitem pensar numa nova rearticulação
dessa organização, após os episódios das duas décadas anteriores, assim
como na sua atualização diante da realidade dos anos 90.
A despeito da preeminência dosmeiosmodernos de informação
na configuração da sociedade mundial, e também da UNESCO, é
necessário considerar, na busca de uma compreensão do caminhar
dessa organização, que sua atuação na área da comunicação não se
reduz a esses meios, abarcando outras formas de expressão
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sociocultural, no âmbito da filosofia, da ciência e da arte, elementos
dinâmicos na reconstrução, intentada, desde o pós-guerra, de uma
“morada segura para a humanidade” (Vaz, 1993). E, nesse
empreendimento, coube à UNESCO um papel fundamental.
Desde a Conferência de Londres, em 1945, quando essa
agência especializada da ONU foi criada, expressam-se com clare-
za as expectativas em relação a ela, num mundo em que a guerra
não acabara, prosseguindo nos conflitos locais.1 Naquela conferên-
cia, o primeiro-ministro britânico, Clement Attlee, assim enuncia o
âmbito e o sentido da atuação da nova organização: “hoje os povos
do mundo são ilhas que lançam apelos por cima de oceanos de mal
entendidos. ‘Conhece-te a ti mesmo’, dizia o velho provérbio. ‘Co-
nhece teu vizinho’, dizemos a partir de agora, pois nosso vizinho é o
mundo inteiro”. (citado por Lacoste 1994, p. 4)
Esta porém é apenas uma das expressões reveladoras das
esperanças na tarefa de ocidentalização do mundo, delegada pelas
Nações Unidas, no imediato pós-guerra, à UNESCO. Em Lacoste
(1994, p. 5) consta ainda que, em 1946, quando se realiza a primeira
Conferência Geral (1a CG) da organização, o romancista e ensaísta
francês André Gide anotou em seu diário: “envio a Huxley, como
epígrafe ao programa da UNESCO, o último verso do Canto II da
Eneida carregando-o de uma significação simbólica: ‘... e assumindo
todo o peso de meu patrimônio, esforço-me em ganhar as alturas’ ”.
Críticas, porém, não faltaram. Em 1950, quando controvérsias
já alimentavamodebate, naConferênciaGeral,motivado tambémpelas
diferentes concepções acerca da cooperação intelectual e cultural entre
os povos, o filósofo italiano Benedetto Croce referiu-se à UNESCO
como uma “empresa equivocada”: uma instituição intergovernamental
1 Pode-se mencionar, a título de exemplo, a guerra civil tendo lugar então na Grécia
e na China, países onde os partidos comunistas lutam contra o poder constituído;
a luta pela independência travada com apoio da URSS na Indonésia, de onde os
holandeses só se retiraram em 1949; a guerra civil na Índia, cujos resultados
foram a partilha do território indiano em dois Estados, Paquistão e Índia, e a
antecipação de sua independência prevista pelos ingleses para 1948; a presença
de tropas anglo-francesas até 1946 na Síria e no Líbano, independentes desde
1943; o início de revolta na Argélia e o bombardeio de Setif como represália da
França, em luta também no Marrocos para a manutenção da situação colonial.
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comumideal ético-moral, de tendênciauniversalista, fadada,nummundo
tensionado por ideologias diversas, a ceder espaço ou sucumbir ao
poder do Estado. (Bekri, 1993, p. 14)
Cinco anos antes, T. S. Eliot, objetivando definir a palavra
cultura, necessidade imposta, segundo ele, pela má utilização que
dela então se fazia, escreve o ensaio Notas para uma definição de
cultura.2Aí encontram-se referências às palavras de Clement Attlee,
bem como às finalidades da UNESCO divulgadas em documento de
agosto de 1945. Esses e outros exemplos justificam seu ensaio, do
qual dois capítulos são dedicados a “desembaraçar a cultura da política
e da educação” (1988, p. 27), associação indevida, redutora e perigosa
para a sobrevivência, o florescimento e o enriquecimento das culturas.
A preocupação do poeta norte-americano é com o mundo
ocidental, comaEuropa, e, sobretudo, coma Inglaterra, onde se radicara
desde 1915. Eliot focaliza a visível desintegração cultural sob a égide
das teorias política, sociológica e antropológica, na sociedademoderna,
cuja raiz religiosa-cristã se perdera. Numa cultura “unida e dividida”,
Eliot toma distância em relação ao reconhecimento da cultura como
instrumento de política para trazer à memória “o fato de que, em ou-
tros períodos, a política foi uma atividade praticada dentro de uma
cultura e entre representantes de culturas diferentes”. (1988, p. 106)
Deixando de lado o eurocentrismo subjacente à reflexão de T.
S. Eliot, importa destacar seu ceticismo em relação à planificação
mundial da cultura.3 Pensa nos riscos de desumanização da
humanidade como um resultado do que poderia vir a ser um pesadelo.
2 ELIOT, T. S. Notas para uma definição de cultura. São Paulo: Perspectiva,
1988. (Coleção Debates)
3 A planificação para a liberdade é teorizada por Mannheim a quem Eliot toma
como interlocutor em seu ensaio, no que respeita à definição e ao papel da elite
na cultura em Man and society. Eliot argumenta que, em comparação com seu
entendimento da cultura e sua relação com a sociedade em todos os seus grupos,
o conceito de cultura em Mannheim é mais limitado. O papel dos organismos
internacionais, entre os quais a UNESCO, a educação como técnica social
fundamental, assim como o controle e a coordenação dos meios técnicos de
difusão na planificação democrática, são considerados por Mannheim. Ver:
MANNHEIM, Karl. Liberdade, poder e planificação democrática. São Paulo:
Mestre Jou, 1972; O homem e a sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 1962.
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Percebe, então, uma cultura mundial não mais do que como um ideal
inimaginável, porém, um “termo lógico de relações entre culturas”.
Recusando-a como objeto de planificação, não a descarta, pois, como
ideal, e admite: “devemos aspirar a uma cultura comum, que ainda
assim não diminuirá as particularidades das partes constituintes” (Eliot,
1988, p. 81-82). Analisando como “forças de atração e repulsão” as
relações enriquecedoras entre culturas, Eliot aponta, em sua leitura
do tratamento oficial à questão cultural, no imediato pós-guerra, não
apenas os riscos, mas também problemas e dificuldades para a
realização prática de uma cultura mundial, alguns dos quais estão na
base de questões que se imporão à UNESCO, como mediadora das
relações culturais Ocidente–Oriente, no novo capítulo do processo
de ocidentalização do mundo que então se inicia. (Ianni, 1995)
A consciência desses problemas não está ausente desde a
idealização da UNESCO, nas discussões da Conferência dos Minis-
tros Aliados da Educação (CMAE) e se expressa de várias formas:
primeiro, na intenção explicitada no seu Ato Constitutivo de respeito
à “fecunda diversidade das culturas”; em seguida, por exemplo, no
programa da UNESCO, atendendo à solicitação feita pela ONU, em
1946, de tradução e divulgação de obras-primas da literatura de dife-
rentes povos, quando foram selecionados trabalhos de literatura ára-
be e persa, da Índia, do Extremo Oriente, da Itália e da América
Latina; ou ainda nas críticas, apontando negligência relativa ao
intercâmbio de informações e a outras atividades, suscitadas pelo
programa similar da UNESCO na área da música, cuja ênfase, se-
gundo a crítica, privilegiava a gravação em discos e concertos volta-
dos para uma elite. Expressa-se, sobretudo, na observação feita, em
1947, pela representação indiana na UNESCO de que “os estudiosos
da Índia olham para a história a fim de corrigir a miopia dos sábios
ocidentais, alguns dos quais, incapazes de verem além da Grécia,
têm recusado ao Oriente, e especialmente à Índia, o crédito devido à
prioridade cultural”. (Citado por Laves e Thomson, 1957, p. 400)
Interpretadas 25 anos após como “antinomias inerentes à
concepção da UNESCO e à natureza das coisas”, as dificuldades
concretamente enfrentadas pela organização, entre as quais Pompei
destaca como fundamental aquela ressaltada por Eliot – a oposição