A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
219 pág.
A UNESCO e o mundo da cultura -  Ely Guimarães

Pré-visualização | Página 18 de 50

entre a liberdade da cultura e sua organização planificada –,
65
expressam a necessidade de “empreender a síntese dos contrários”.
(Pompei, 1972, p. 20)
Namesma ocasião, a análise dos primeiros dez anos da UNES-
CO empreendida por René Maheu é sugestiva para a compreensão
de como e por que se intentou a busca dessa síntese, no solo contur-
bado em que essa instituição deveria enraizar-se. Em sua análise,
Maheu, então no exercício de seu segundo mandato como o quinto
diretor-geral, após ter ocupado outros postos e funções, beneficia-se
de uma longa vivência na UNESCO. Beneficiou-se ainda da distân-
cia, que lhe permite ver esses primeiros anos à luz dos acontecimen-
tos da década de 1960 e do início da seguinte, quando ocorrem mu-
danças significativas na composição da organização, assim como na
estruturação das forças mundiais, e, conseqüentemente, nas
prioridades políticas da UNESCO e em seu quadro conceitual.
Nessa altura da história da sociedade mundial, Maheu sente-
se seguro em definir a paz, alvo prioritário das ações da UNESCO,
como sendo não “a ilusória segurança ou a possibilidade passageira
de uma potência dominante, ou mesmo de um equilíbrio de forças
obstinado em prosseguir a corrida armamentista”, mas como “a justiça
reconhecida, que só poderá ser atingida por meio de mudanças radi-
cais na estrutura das sociedades e na organização do mundo”. E,
numa perspectiva “exclusiva do estatismo”, ele vislumbra, naquele
contexto, o “advento de uma civilização universal”, para a qual paz e
progresso devem convergir e concorrer. (1972, p. 316)
A realização pacífica e harmoniosa do progresso da humani-
dade emdireção ao universal, pode-se dizer, é o objetivomaior, embora
não isento de contradições e de ambigüidades, a ser mediado pela
UNESCO. Tarefa de fato complexa para uma organização intergo-
vernamental, num momento em que se reescreve o mapa do mundo
e se processa uma nova divisão do mercado mundial. Momento, por-
tanto, de acomodações, disputas, afirmação e reconstrução dos es-
paços nacionais e culturais. Momento, ainda, de surgimento do anta-
gonismo entre modos diversos de organização da vida social, e de
busca dos possíveis no confronto de civilizações diversas, assim como
de ressignificações da ocidentalidade expressivamente exemplifica-
das em memorando produzido numa reunião da Comissão Nacional
indiana para a UNESCO realizada no início da década de 1950, com
66
a participação de países asiáticos. Nele encontra-se a observação
segundo a qual “ao mesmo tempo que a UNESCO ajuda a trazer
para o Oriente os avanços do Ocidente em educação e ciências na-
turais, os valores permanentes da cultura oriental são proveitosos
para o Ocidente”.4
Predominantemente ocidental nos seus primeiros dez anos,
como admite René Maheu, a UNESCO depara-se, ainda, com a dis-
cussão sobre sua própria natureza – se técnica ou política, ideológica
ou ética –, assim como sobre a natureza de seu Conselho Executivo
– se intelectual e cultural, ou se político. Uma solução pragmática
para a primeira questão direciona a realização de projetos específicos,
entre os quais aqueles relativos à educação fundamental, atendendo
às necessidades expressas pelos Estados-membros. Esses projetos
satisfaziam aos objetivos de construção da hegemonia dos EUA, num
mundo bipolar, e, ao mesmo tempo, não deixaram de despertar os
receios de países europeus ocidentais preocupados com a possibili-
dade de a organização servir a objetivos políticos e de propaganda
político-ideológica, em detrimento da cooperação intelectual perce-
bida como relativamente desinteressada.
4 Citado por LAVES, W. H. C. e THOMSON, C. A. UNESCO: purpose, progress
prospects.Bloomington: Indiana University Press, 1957, p. 58. Nessememorando
encontram-se reivindicações relativas aos meios necessários ao desenvolvimento
cultural dos povos africanos e asiáticos, assim como a afirmação de sua contribuição
ao desenvolvimento cultural geral. Reivindicam-se a preservação e divulgação de
monumentos históricos, a constituição de bibliotecas públicas e museus, o
estabelecimento de editoras, a produção de livros a custo acessível à população
escolar e a adultos recém-alfabetizados, o desenvolvimento do cinema nacional, a
fim de possibilitar uma contraposição à violência presente nos filmes importados
do Ocidente. Propõe-se ainda a diferenciação, no programa da UNESCO, entre as
atividades permanentes destinadas a finalidades universais e aquelas limitadas no
tempo e no espaço, segundo as necessidades específicas dos Estados-membros.
Essas sugestões e críticas, revelando a insatisfação daqueles que percebiam suas
necessidades como inadequadamente consideradas pelos organismos internacionais,
serão consideradas pelo Conselho Executivo e repercutirão no programa da
UNESCO para o biênio 1955-1956 e na Conferência Geral do último ano, quando
tomarão corpo nos Projetos Principais então aprovados pela primeira vez na
UNESCO. Entre estes estão o Projeto de Pesquisas sobre as Terras Áridas e o
Projeto de Apreciação Mútua dos Valores do Ocidente e do Oriente.
67
Razões diversas fundamentam os argumentos, reiteradamen-
te apresentados pelos países do Leste Europeu, contra o caráter
propagandista desde o início presente nos projetos de educação e
difusão cultural, nos quais os meios de informação se constituíam
como elementos e técnicas sociais fundamentais. Desde as primeiras
reuniões daConferênciaGeral, os delegados da Iugoslávia e da Polônia
denunciam a ausência de condenação, pela UNESCO, da forma pela
qual o princípio da livre circulação das idéias estava sendo utilizado
para produzir a desinformação, em vez da informação, e sustentar a
criação e o agravamento de tensões em vários locais do mundo.5
Por ocasião da Guerra da Coréia, o governo dos EUA julgará
insatisfatório o tardio trabalho referente à informação das massas
realizado pela UNESCO. Conforme registram Laves e Thomson
(1957, p. 274-276), a UNESCO teria evitado então o uso do termo
5 Os interesses políticos e econômicos que unem e opõem a Inglaterra, a França e
os EUA nummundo bipolarizado evidenciam-se na visualização geopolítica das
“missões” enviadas pela UNESCO para assessorar as reformas de ensino e na
configuração dos projetos piloto de educação de base compreendidos no objetivo
de educação para compreensão internacional aprovados e realizados, ou não, nos
três primeiros anos de sua atuação. A partir de 1948, grupos de especialistas em
educação são enviados: para as Filipinas, onde os EUA, em 1946, garantem a
manutenção de suas bases navais por um período de 99 anos e concedem a esse
país uma independência negociada entre os dois países; para o Afeganistão,
território de disputa anglo-russa desde as últimas décadas do século XIX e de
valor estratégico para a URSS; para a Tailândia, aliado estratégico dos EUAno
Sudeste Asiático, membro daOrganização do Tratado do Sudeste Asiático (Otase)
a partir de 1952; para a Síria, membro da Liga Árabe, uma tentativa mal-sucedida
de a Inglaterra conter, sob a liderança do Egito, o pan-arabismo que se manifesta
nos nacionalismos diversos no Oriente Médio. O projeto de re-educação dos
países ex-inimigos, Alemanha e Japão, é aprovado na 1a CG-1946 e sua execução,
iniciada no ano seguinte, suscita críticas da imprensa, por seu caráter autoritário.
Dos quatro projetos de educação de base e de educação das comunidades
aprovados, apenas o do Haiti foi executado, não sem dificuldades. Foram
suspensos: o da China, após a vitória de Mao Tse Tung; o do Peru, onde o Gal.
Manuel Odria, no poder, combatia as forças sociais que se expressavam no
aprismo de Haya de la Torre; o de Tanganica (Tanzânia) e Niassalândia (Malauí).
O último fará parte, junto com a Rodésia Meridional (Zanzibar) e Rodésia
Setentrional (Zâmbia), da Federação Centro-Africana, criada pela Inglaterra no
início da década de 1950. A independência de ambos ocorrerá na primeira