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A UNESCO e o mundo da cultura -  Ely Guimarães

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três ensaios: “Raça e psicologia”, deOttoKlineberg, “Raça
e biologia”, de L. C. Dunn, e “Raça e civilização”, de Michel Leiris.
Já publicados em 1951 como brochuras individuais, esses en-
saios farão parte da coletânea Le racisme devant la science, publi-
cada em 1956, que incluirá o ensaio de Claude Lévi-Strauss, “Race
et histoire”, cuja primeira publicação ocorre em1952.26
A reedição dos ensaios evidencia a persistência, também como
forças sociais, das idéias que buscamcombater, defender e/ou clarificar.
Idéiasou temasquecontinuamdividindoasopiniõesnosmeioscientíficos
e políticos, impondo à UNESCO e aos sábios e cientistas de diversos
campos de estudo, por ela convocados, um trabalho cujos objetivos
incluem: estabelecer a impossibilidade de deduzir da noção de raça
qualquer conclusão sobreo caráter e capacidadesmentais dos indivíduos;
26 Essa edição de 1956 de Le racisme devant la science é traduzida no Brasil em dois
volumes. Cf. COMAS, Juan et alii.Raça e ciência I. São Paulo: Perspectiva, 1970
eDUNN, L.C. et alii. Raça e ciência II. São Paulo: Perspectiva, 1972. O volume II
apresenta em apêndice os textos das declarações de 1950, 1951 e 1967, assim
como aquele relativo às proposições sobre os aspectos biológicos da questão racial
de 1964, versões aqui utilizadas. Em 1973, a UNESCO apresentará nova edição de
Le racisme devant la science, mantendo da edição anterior os três ensaios referidos,
assim como o de autoria de Claude Lévi-Strauss, antropólogo que fizera parte do
grupo que redigiu a declaração de 1950, que, obviamente, não figura na relação dos
cientistas consultados por ocasião da elaboração da declaração de 1951.
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prosseguir com as classificações raciais com base nas diferenças entre
os grupos humanos e ao mesmo tempo difundir e fixar a noção da
inexistência de raças puras; combater a crença a respeito da superioridade
do homem branco, ocidental e cristão sobre os demais povos habitantes
do globo terrestre; eliminar a confusão entre fatos naturais, herança
genética dos indivíduos e cultura, herança social freqüentemente
confundida comaprimeira e atribuída à raça; derrubar omito relativo às
conseqüênciasnegativasoudesastrosasdamiscigenação; afirmar, quando
os aspectos biológicos se impõem nas interpretações sobre as raças e as
diferenças raciais, a igual aptidão dos diferentes grupos humanos de se
desenvolverem tecnicamente.27Explicitar, enfim, asdimensõeshistóricas,
geográficas e socioculturais daoriginalidadedaparticipaçãodosdiversos
gruposhumanosnaconstruçãodeumacivilizaçãomundial, cujavitalidade
e riqueza dependemda preservação da diversidade cultural, assim como
do desenvolvimento da tolerância como uma atitude dinâmica, isto é,
não-contemplativa.
Como indicam seu título e subtítulo Le concept de race: des
savants répondent, a segunda publicação apresenta as apreciações
de antropólogos e geneticistas consultados sobre o texto da declara-
ção de 1951. Desde sua introdução, o leitor é preparado para com-
preender as divergências ou controvérsias sobre a questão, como
decorrentes da subsistência de elementos de dúvida no espírito de
muitos dos consultados. É ainda persuadido de que, ao apresentar os
comentários suscitados pela declaração de 1951, “a UNESCO dá ao
público os meios de conhecer as flutuações do pensamento científico
diante do problema da raça” (p. 9). Aí também, ao equiparar-se a
publicação então apresentada a um “laboratório da ciência”, o leitor
é alertado para o fato de que, se nesse laboratório “se encontra algu-
ma desordem (...), precisamente destas oposições, e mesmo de ás-
peros ataques,28 nasce o que chamamos de verdade” (p. 10).
27 Este último aspecto, presente na pauta da UNESCO desde a década de 1950, só
ganhará expressão naDeclaração sobre a Raça e os Preconceitos Raciais, aprovada
em 1967, em deferentes condições políticas, como veremos adiante.
28 Um exemplo notável desses ásperos ataques pode ser visto em artigos publicados
nos primeiros anos da década de 1950, na discussão provocada pelo determinismo
biológico defendido então pelo biologista Darlington. Cf. DARLINGTON, C.
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L. C. Dunn, professor do Departamento de Zoologia da
Universidade de Colúmbia, participou do grupo de cujas sugestões o
professor Ashley Montagu se valeu na revisão final do texto da
declaração de 1950 e é o relator do grupo chamado para redigir a
declaração de 1951. Em seu relatório, duas razões são enunciadas
para a ocorrência dessa segunda reunião para a qual a UNESCO
convocou um grupo de 12 antropólogos físicos e biólogos do campo
da genética humana, com o objetivo de redigir uma declaração que
“refletisse de maneira mais precisa o ponto de vista dos meios
científicos” sobre o conceito de raça, assim como o estado do
conhecimento sobre as diferenças raciais.
Reconhecendo a igual propriedade do interesse dos sociólo-
gos, antropólogos e biólogos pelas questões raciais, L. C. Dunn afir-
D. La conception génétique de la race dans l’espèce humaine. In: Bulletin
International des Sciences Sociales. Vol. II, n. 4, Hiver 1950d, p. 501-511. O
biologista Mirsky, do Rockefeller Institute for Medical Research, de NovaYork,
vê na exposição de Darlington não os princípios da genética, mas hipóteses e
preconceitos como fundamentos do conceito de raça. Cf. UNESCO. Le concept
de race. Résultats d’une enquête. Col. La question raciale devant la science
moderne. Paris: UNESCO, 1953a, p. 21. Também para Montagu, relator do
grupo que elaborou a declaração de 1950, Darlington, como “sobrevivente
obstinado de um grupo dissidente, está fatalmente voltado a se encontrar em
desacordo com a massa daqueles cuja opinião conta” . Cf. MONTAGU,Ashley.
O conceito de raça e o mecanismo da formação das raças humanas. In:
MUSSOLINI, Gioconda (Seleção, org. e notas).Evolução, raça e cultura: leituras
de antropologia física. 3. ed. São Paulo: Editora Nacional, 1978. Críticas como
estas merecem de Darlington, em resposta à solicitação para escrever artigo
sobre a questão racial para publicação no Bulletin International des Sciences
Sociales, o seguinte pronunciamento: “não explicarei numa simples carta, por
que eu disse que os genes determinam os caracteres; por que eu não partilho da
opinião do professor Thorndike sobre a ‘verdadeira tarefa do homem’; por que
eu não me inclino diante do professor Klineberg como diante de um oráculo da
“ciência”; por que eu me separo da maior parte dos psicólogos, mas não de
todos; (...) por que eu não aceito a interpretação dada pelo professor Montagu
sobre o despovoamento (...)”. Após essa enumeração remete o leitor interessado
em seus argumentos ou fatos novos que descobrira a seus escritos em outras
fontes, que não oBulletin Internationale des Sciences Sociales, ou a seu livro The
facts of live, prestes a ser publicado. Cf. DARLINGTON, C. D.La conception
génétique de la race dans l’espèce humaine. In:Bulletin Internationale des Sciences
Sociales. Vol. IV, n. 1, Printemps, 1952f, p. 237-8.
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ma, como uma das razões da reunião, o particular interesse dos cien-
tistas representantes da antropologia física e da genética humana
nessas questões. A predominância dos sociólogos na primeira reu-
nião29 e a conseqüente característica essencialmente sociológica do
texto da declaração de 1950 constituem a segunda razão a justificar
a elaboração de uma outra declaração, uma vez que a primeira “ca-
rece da autoridade que somente os especialistas da antropologia físi-
ca e da genética humana, particularmente competentes no que con-
cerne ao aspecto biológico da raça podem lhe conferir”.30
L. C. Dunn acusa ainda a existência, no texto da declaração
de 1950, de uma confusão entre raça, fato biológico, e raça, fenôme-
no social, razão pela qual o grupo se manifesta contrário à aborda-
gem do tema sob o ângulo dos problemas sociais e pedagógicos,
alegando serem eles relacionados às conjunturas locais às quais de-
veriam ser associados.