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Começar Pelos Fins   A nova questão comunista

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final. E aqui está a miraculosa
solução encontrada para o problema: através de um discreto mas decisivo piparote no texto da Crítica do
Programa de Gotha, chamar doravante socialismo ao que aí é denominado «fase inferior da sociedade
comunista», reduzida assim às proporções sociais-democratas, remetendo para as brumas do horizonte o
comunismo sub-repticiamente metamorfoseado em "fase superior" do socialismo, e com a aparência de
citar o próprio Marx: em primeiro lugar, o socialismo "real" e nada mais; mais tarde, o comunismo
"ideal", talvez! Este é o segredo do socialismo científico, segredo que a negligência teórica não tinha,
evidentemente, qualquer hipótese de desvendar: um grosseiro malabarismo teórico-textual que, em
proveito do primeiro, mascara como fases sucessivas dois desígnios que são antes alternativos, fazendo
por esse meio caucionar por Marx o sacrifício de facto do comunismo a uma versão ao fim e ao cabo não
marxiana da transformação social que não só já não corre o risco de conduzir ao comunismo mas até lhe
volta mesmo as costas em questões tão cruciais como a do Estado. Com esta impenitente manipulação
ideológico-política fica consideravelmente selado o destino do século XX revolucionário. Já que depois
de Lenine - o único que entreviu a mistificação, apesar da sua muito longa reverência face a Kautsky, e
que teve o inestimável mérito de revivificar tanto a palavra como a ideia de comunismo - é mesmo, com
Estaline, este socialismo dito científico, e na verdade falsificado, que vai presidir à edificação da
sociedade soviética: compreende-se então verdadeiramente como, sob à sempiterna e fraseológica
invocação do comunismo, pôde aquela sociedade desenvolver-se a contrario de quase tudo o que a
palavra significava para Marx - «Em frente rumo ao comunismo!», proclamavam ainda nos anos oitenta
nas fachadas de alguns grandes edifícios moscovitas alguns slogans que se tornaram para todos
estritamente invisíveis. De onde uma conclusão capital, tanto para o futuro como para o passado, e nos
próprios antípodas daquela com que não pararam de nos matraquear: o que a Leste sofreu uma derrota
historicamente redibitória não foi justamente o comunismo que nunca aí esteve, nem pouco mais ou
menos, na efectiva ordem do dia, mas antes o socialismo, essa desprivatização confiscatória dos meios de
produção e de troca, de que a própria social-democracia durante muito tempo fez bandeira ao seu modo
muito diferente. O fracasso desta última, de certa maneira simétrico ao do estalinismo, confirmando
taxativamente, sem sombra de dúvida, o que se pode considerar como a mais importante lição do século
xx.
1.05 - Reaprender O comunismo
Revalorizar com convicção o comunismo no seu pleno sentido, revalorizá-lo tanto como desígnio prático
como visão teórica: eis, ao fim e ao cabo, o que se me revelou no decorrer dos anos oitenta como chave
do problema na sua dupla dimensão retrospectiva - como compreender o ontem? -, e prospectiva - que
fazer hoje? Aliás, a ligação entre estas duas interrogações é mais directa do que parece à primeira vista, já
que o formidável fracasso de que é necessário tirar lições não é só o dos outros, a Leste. Menos estridente,
certamente, mas não menos fundamental do que a implosão do "socialismo real" é a completa
incapacidade do movimento comunista a Oeste, nos países capitalistas desenvolvidos - a despeito de
tantas lutas marcantes - para dar início, nem que fosse apenas num deles, à transformação revolucionária.
Como explicar semelhante carência, a nossa? À medida que ia chegando às ideias que acabei de resumir,
achava cada vez mais sufocante que a direcção do PCF nunca considerasse a questão nestes termos
irrecusáveis. Ora, na minha opinião, as considerações precedentes têm a ver com aquela impotência
crónica, e isto, pelo menos por duas razões maiores. A primeira é de estratégia: reduzida no essencial à
estatização dos meios de produção e de troca, a transformação social aparece como realizável de uma só
vez, a partir de cima, graças à conquista revolucionária do poder de Estado pela classe operária, e só
assim, aliás, pois que a burguesia capitalista tem neste caso demasiados meios para que se possa sonhar
em vencê-la de outra maneira que não seja de um só golpe, numa dessas conjunturas temporariamente
favoráveis como propiciam, por exemplo, as guerras. O socialismo, a não ser que se atascasse no
oportunismo e na colaboração de classe, apresentava-se, pois, necessariamente solidário com a revolução
violenta e a ditadura do proletariado. Nos países capitalistas de democracia burguesa, esta estratégia
perdeu progressivamente no século XX, principalmente na sua segunda metade, qualquer credibilidade, ao
ponto de fazer papel de espantalho para uma larga franja da própria classe operária. Um partido comunista
que não a repudiasse expressamente autocondenava-se a não passar de uma força subalterna. 
Acabando lentamente por compreender este facto, não fizemos mais do que reconhecer em 1976 a
obsolescência da ditadura do proletariado. Mas renunciar a um aspecto tão essencial da antiga coerência
estratégica exigia, como é óbvio, reconcebê-la e remodelá-la na sua totalidade. Se a chave de uma
estratégia revolucionária alternativa é que a maioria do povo assuma como coisa sua transformações
sociais democráticas, a cada momento limitadas, mas mexendo com o fundo, e formando desde já
processo, então deixa de haver qualquer razão para limitar o objectivo central destas transformações
progressivas ao modo de propriedade dos meios de produção e de troca, tornando-se vital, pelo contrário,
incluir à partida, na sua formidável diversidade e extensão, todas as abolições e metamorfoses, todas as
inovações e conquistas susceptíveis de fazer sonhar e agir as mais amplas forças sociais que aspiram a
uma outra vida e a um outro mundo - portanto, o próprio conteúdo de um comunismo do nosso tempo que
na sua plenitude não será certamente para amanhã, mas cujo desígnio prático deve ainda mais, por isso
mesmo, começar hoje. Abandonar a ditadura do proletariado e ficar-se pelo objectivo estreito do
«socialismo», mesmo que «à francesa», que inconsequência! E, ao mesmo tempo, que prenda dada pelo
partido comunista ao seu concorrente socialista! Por isso mesmo, o XXIII Congresso do PCF iria
acrescentar, em 1979, uma novidade potencialmente importante: esse socialismo seria «autogestionário»,
demarcando-se assim do estatismo burocrático com o qual se identificava nos países do "campo
socialista", como, de resto, em países de social-democracia. Mas como não ver então até onde nos deve
conduzir a ideia de auto gestão sob pena de ficar letra morta? Poderá haver autogestão, não a retalho e
subsidiária, mas de conjunto e plena, sem se encetar uma multidão de transformações conexas, orientadas
para a superação do trabalho assalariado capitalista, para o desenvolvimento múltiplo dos indivíduos, para
o enfraquecimento do Estado de classe?.. «Socialismo autogestionário» é a típica proposta comunista que
não consegue dizer o seu verdadeiro nome porque não ousa pensar o seu verdadeiro conteúdo. Assim, o
Partido Comunista Francês, mesmo querendo distanciar-se dos regimes de Leste, nunca chegou a
pronunciar-se claramente pelo comunismo, antes do estrondoso desmoronamento de um socialismo de
que, numa completa ambiguidade teórica e política, se reclamou até ao fim. Pagou-o caro. E aqui vemos
aflorar uma segunda razão, mais forte ainda, pela qual progressivamente se desvaneceram, num país
capitalista desenvolvido, as hipóteses de um projecto revolucionário de objectivos infracomunistas: a crise
de pertinência histórica que depreciou a própria ideia de socialismo. Se esta ideia tinha irresistivelmente
vencido