A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
86 pág.
Começar Pelos Fins   A nova questão comunista

Pré-visualização | Página 40 de 50

confronto público
entre orientações estruturadas ia mesmo tão longe, pondo em perigo a coerência de direcção num
momento muito difícil, que, em 1921 - só em 1921! - o X Congresso decidiu proibir a organização em
tendências. Uma medida muitas vezes apresentada como pré-estalinista. Mas será que se tem em conta
que, mesmo nessa altura e nomeadamente por impulso de Lenine, foi conservado o direito de, em caso de
discordância grave numa questão importante, submeter ao Congresso vários textos concorrentes, ao
mesmo tempo que era tomada a decisão de publicar com regularidade uma folha de discussão que
permitisse prolongar o debate sobre princípios mesmo para além do Congresso? Será que aqueles que
querem ver no centralismo leniniano o esquisso já identificável dos métodos estalinistas têm em
consideração o que dele dizia uma testemunha tão capital como Boukharine quando, na sua mensagem
póstuma «A futura geração dos dirigentes do partido» (cf. Oeuvres choisies, Librairie du Globe, Paris-
Moscou 1990, p. 518), nas vésperas da sua execução, fala da época leniniana nos seguintes termos: «Eram
outros tempos, em que reinavam outros costumes. O Pravda publicava uma tribuna de discussão, todos
debatiam, todos procuravam caminhos, desentendiam-se e reconciliavam-se, e juntos avançavam.» 
3.02 - A forma-partido estalinista
Que se não presuma apressadamente onde levará esta análise. Não, não se vai concluir que o centralismo
democrático original seria, ao fim e ao cabo, um princípio de organização muito conveniente para uma
força comunista do século XXI. É impossível deixar de ver o quanto contrariam, tanto a tarefa política
como a janela histórica actuais, os seus dois axiomas: o papel de vanguarda do partido, a subordinação da
sua base à cúpula. E isto porque foram pensados em função de uma estratégia que se nos tornou estranha.
Para Lenine, o objectivo era a conquista, sem dúvida insurreccional, do poder, que desembocaria na
ditadura do proletariado. Era pois necessário para isso um partido capaz de agir eficazmente pela
violência; para nós o objectivo é o de construir pacificamente uma ampla hegemonia que permita a
superação progressiva do capitalismo por iniciativa do maior número. O que requer pois uma força
política totalmente concebida para funcionar pela convicção. Eis o que torna caduco o traço mais
característico da organização leniniana: a sua construção vertical -cúpula/base, autoridade das direcções,
disciplina... - inspiradora de um vocabulário de ascendência militar - vanguarda, estratégia, militantes
(tendo este último termo perdido desde há muito a sua ressonância guerreira). Característica que, aos
olhos de Lenine, decorria aliás não só de uma visão geral dos objectivos mas também de um estado
específico das forças que havia que pôr em movimento numa Rússia ao mais alto ponto marcada pelo
subdesenvolvimento da instrução pública, da experiência democrática, da própria autonomia individual,
uma Rússia marcada por essa incultura de massas que ele não hesitava em qualificar de «semi-asiática».
Daí tantas incompreensões, alemãs e francesas por exemplo, em relação ao bolchevismo. Daí também o
«grave erro» - cedo reconhecido por Lenine, mas bem pouco corrigido - de ter querido submeter todos os
partidos da III Internacional a condições «demasiado russas», de que o próprio PCF só começou a libertar-
se na época da Frente Popular. Aquilo que hoje devemos inventar é um modo de organização adaptado a
um mundo incrivelmente diferente, outro, em que mesmo os aspectos mais democráticos do partido
leniniano correm doravante o risco de o não serem tanto como isso. Do mesmo modo, o Congresso, forma
por excelência de deliberação aberta e decisão colectiva no tempo do POSDR, mas que, mesmo numa
versão inteiramente desestalinizada, não pode nos nossos dias representar senão uma modalidade de
democracia, sem dúvida ainda necessária, mas demasiado ocasional e delegatária, quando os actores
exigem e as técnicas permitem que ela tenda a tornar-se permanente e directa. Do mesmo modo ainda, o
princípio maioritário, mal menor que se mantém inevitável para certas escolhas, mas que depressa cai no
princípio autoritário se não houver uma elaboração suficientemente rica dos direitos da minoria - em cujas
posições raramente deixa de haver uma qualquer verdade a aproveitar, isto quando não leva sobre a
maioria uma análise correcta de avanço - e que, sobretudo, corre o risco de servir de capa à desastrosa
resignação, ao simplismo tantas vezes mistificador do «ou isto ou aquilo» político. 
Se, a meu ver, é de enorme importância reavaliar com justeza o que foi no seu tempo o centralismo
democrático leniniano, não o é pois certamente para ir procurar um século atrás o modo de organização de
que necessitamos hoje. O bolchevismo está completamente caduco. Não é sequer, essencialmente, para
cumprir um dever de equidade histórica - bem rara nesta matéria; embora, o lugar de Lenine na história
geral do comunismo sendo o que é, a apreciação de que é objecto, nada tenha perdido da sua importância
político-cultural. Não, a razão é muito mais fundamental: trata-se de saber se, no âmbito da organização, o
leninismo é realmente, como muitos o pensam, a matriz do estalinismo. 
Porque, se porventura não fosse esse inteiramente o caso, estaríamos enganados ao pensar que basta
romper com os princípios leninianos para escaparmos de vez aos erros estalinistas. Questão crucial
portanto. O estalinismo organizacional será, na sua base, um avatar caricatural do leninismo? Que tenha
começado por o ser, acentuando os seus traços centralistas em prejuízo das suas dimensões democráticas,
não há dúvida. Mas uma caricatura mais não faz do que exagerar, nem que seja ao extremo, os traços reais
do original, sem o que não seria uma caricatura. Ora, pelo menos em matéria de organização, a relação
entre estalinismo e leninismo afigura-se-me completamente diferente, quer na ordem teórica quer na
ordem prática. É verdade que, no capítulo 8 dos Princípios do Leninismo, os princípios que Estaline
enuncia provêm efectivamente de Lenine. Mas o que há primeiro que notar é a enormidade do que lá falta.
Falta toda a dialéctica leniniana das relações de duplo sentido tanto entre a vanguarda e as massas como
entre a cúpula e a base, em proveito de uma relação unilateral de estado-maior a simples soldados; falta
toda a preocupação quer com a liberdade do debate quer com os direitos da minoria. Pior ainda, ao
valorizar o «princípio da direcção do trabalho do Partido por um organismo central», nem uma só vez
Estaline menciona o papel fundamental do Congresso, nem uma vez também o perigo burocrático que foi
uma obsessão para Lenine até aos seus últimos dias. «Resumo» tão grosseiramente selectivo que se torna
já não leniniano. E o discurso teorizante de 1924 fica muito aquém da prática sem discurso da década
seguinte. Compare-se, entre outros, o modo - exemplar - como Lenine conduz em 1920-1921 o vivo
debate sobre o papel dos sindicatos e o modo - revoltante - como Estaline, oito anos mais tarde, procede à
execução civil de Boukharine, acusado de «desvios de direita» (cf Communisme, quel second souffle?,
pp. 228-41): assistimos aqui à verdadeira inversão dum modo de fazer no seu contrário. Mas nada é mais
eloquente do que a atitude em relação àquilo que é, para Lenine, a pedra angular de toda a democracia de
partido: os congressos, que eram anuais até 1924. Uma vez morto Lenine, Estaline não vai parar de os
espaçar cada vez mais: dois anos e meio entre o XV e o XVI, em 1930; cinco anos entre o XVII e o XVIII,
em 1939; o XIX treze anos depois... Cada vez menos congresso democrático, cada vez mais poder
burocrático: muito mais do que uma caricatura do leninismo, não se tratará aqui da sua antítese? 
Se todavia o estalinismo organizacional