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Começar Pelos Fins   A nova questão comunista

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fazer figurar «concepções doutrinárias» nem «reafirmações de princípios» que devessem
balizar o futuro - «nada está prescrito nem garantido, a não ser o efectivo desenvolvimento das iniciativas
humanas». Da imprecisão teórica que daí resulta emerge contudo, neste preâmbulo, uma indicação
precisa: o PCF age para transformar a sociedade «construindo um socialismo democrático e
autogestionário». Tudo está pois caduco na velha abordagem teorizante, excepto a asserção central do
socialismo científico, versão XXII e XXIII Congressos, quer dizer, se aquilo que acima amplamente
expusemos tem alguma pertinência, o mais caduco da antiga visão das coisas. De igual modo em relação
ao princípio organizador último: em palavras é um nunca mais acabar de valorizações da inteira
«soberania dos aderentes» sobre o partido; fazem-se rapapés a formulações espontaneístas: o partido seria
tão-só aquilo que «constróem em conjunto» os comunistas, as instâncias do partido «estruturam-se a partir
do papel vital da célula», a secção «agrupa» as células e a federação as secções (artigo 7.°). Por pouco não
se dizia, contra Lenine, que o partido se constrói de baixo para cima... Mas, na realidade, as estruturas
impõem-se com inteira autoridade estatutária aos aderentes, a começar pela célula, «quadro vital da
organização comunista» (artigo 10.°). E se acontecesse os comunistas quererem «soberanamente» pôr em
causa a célula? Seria necessário pôr em causa os estatutos! Cá estamos no mais clássico esquema vertical
do centralismo democrático leniniano, embora nos garantam o contrário. 
E isto não é ainda o essencial. O essencial é que, em muitos pontos decisivos, os estatutos adoptados no
XXVIII Congresso, ao mesmo tempo que pretendem superar o centralismo democrático num sentido mais
democrático, mantêm impavidamente o espírito, quando não a letra, do centralismo autocrático. É o caso,
da maior importância, no que respeita às direcções. Não estará o próprio conceito de direcção
irremediavelmente infectado pelo vírus estalinista do poder sobre o partido? Objecção rapidamente
arrumada pelo relatório que, neste caso, denuncia «qualquer demagogia "basista"»... O artigo 20.° dos
estatutos expõe detalhadamente que «a todos os níveis» o papel das direcções é «fundamental»,
«indispensável», «decisivo», por toda uma série de razões onde facilmente podem ir buscar um álibi as
mais tradicionais práticas delegatárias, paternalistas, ou mesmo confiscatórias da democracia de partido.
O Comité Nacional, claro está, dispõe por seu turno de «plena capacidade de iniciativa política, na base
das decisões do Congresso» (artigo 26.°), mas deve eleger «a sua Mesa, o seu Secretariado e o Secretário
ou Secretária Nacional do Partido». Assim, os estatutos que pretendem superar o centralismo democrático
perenizam sem o mínimo debate a instituição "Primeiro-Secretário" de que todos conhecemos o papel
determinante na auto-reprodução do centralismo autocrático... Um outro ponto capital: os refundadores
comunistas puseram em causa, desde o XXVI Congresso, em 1988, o dogma estalinista segundo o qual,
em quaisquer circunstâncias e seja qual for a sua gravidade, só a maioria do Comité Central tem o direito
de submeter à discussão do Congresso um texto de orientação política - disposição altamente reveladora
do facto de o centralismo autocrático não ser, de modo algum, um sistema sem tendências mas sim um
sistema monotendencial, sendo nele proscrita qualquer outra tendência que não seja a da direcção. Sobre
esta questão tão emblemática como nevrálgica a Direcção do Partido, ao fazer adoptar pelo XXVIII
Congresso a noção de «base comum de discussão» (artigo 17.0 b), escolheu sem equívoco, embora numa
formulação hábil, prorrogar a obrigatoriedade do texto único: era manter, também aqui, a tradição
autocrática contra a de Lenine que, no mesmo momento em que o X Congresso do PC(b) proibia a
organização em tendências, defendeu com êxito o direito de submeter ao Congresso várias plataformas
em caso de divergências profundas. A uma análise não convencionada, os estatutos que regem o PCF em
vésperas do ano 2000 revelam, sob uma inflação formal de democraticismo pós-centralista, um recurso a
abordagens leninianas tradicionais, e, por debaixo desse próprio recurso, a manutenção, negada mas
flagrante, das mais decisivas disposições da tradição estalinista; graças à última vigilância de uma alta
direcção, desta vez efectivamente cessante... 
Quanto mais reflicto nesta vasta questão da forma-partido comunista, mais me custa compreender a
tendência tão espalhada para ver nos princípios e nas realidades da organização leniniana a matriz daquilo
que designo por centralismo autocrático - todo o problema posto aqui sendo o de identificar bem o que o
engendra, para conceber um tipo de força comunista que não corra o risco de o reproduzir. É verdade que
o partido leniniano, todo ele concebido em função de uma estratégia revolucionária à antiga, se
caracterizava por uma verticalidade centralista perfeitamente obsoleta para uma organização comunista
dos nossos dias. Mas era ao mesmo tempo um partido de democracia autêntica, porquanto tudo nele
estava suspenso de congressos não falsificados, que debatiam sem constrangimentos, de um Comité
Central não monolítico que se não dava como tarefa instrumentalizar, em todos os aspectos e à maneira de
um poder absoluto, a vida do partido. Podem sem dúvida argumentar que o POSDR era um pequeno
partido (algumas dezenas de milhares de membros antes de 1917) que vivia nas mais precárias condições,
quase sem aparelho central, sem funcionários, sem eleitos, e que foi por isso, sugerem, que o seu
centralismo se manteve com efeito em grande medida democrático. Mas logo que, tornando-se o PC(b), se
instala no poder e se transforma numa vasta máquina de um milhão e tal de aderentes, de imediato se vê
desenvolverem-se nele os traços do que irá ser o estalinismo. Em suma, se o leninismo original não
desenvolveu antes dos anos vinte as suas supostas virtualidades autocráticas, isso dever-se-ia só às
circunstâncias que lhe não proporcionaram os meios. Mas como é que se explica, raciocinando deste
modo estritamente organizacional, que pequeníssimos partidos comunistas a lutar na oposição e sem
nenhum poder nem por isso tenham deixado de ser, depois, dos mais estalinistas? Não será claro que este
tipo de análise deixa escapar algo de essencial? E há ainda uma outra prova muito mais decisiva da
necessidade de abordar a questão de modo completamente diferente: Lenine não tinha ainda escrito o Que
fazer?, nem sequer tinha ainda entrado na vida política, e já a maior parte dos traços característicos do
centralismo autocrático marcavam o mais poderoso e invejado partido operário, o Partido Social-
Democrata alemão. 
3.05 - Nas fontes sociais-democratas do autocratismo
Para ter uma ideia concreta da coisa, leia-se por exemplo a compilação de cartas feita por Victor Fay em
torno do incrível caso a que deu lugar, em 1909, a publicação de um dos livros mais importantes de
Kautsky, Le chemin du pouvoir (Anthropos, 1969) [O Caminho do Poder]. Nele, a análise do
imperialismo desemboca no anúncio de uma época de intensas lutas de classes, em que vai ser posta na
ordem do dia a conquista revolucionária do poder. Amedrontado com o risco de um processo por alta
traição, o Comité Director do SPD, a conselho dos seus advogados, tudo faz para impedir a publicação do
livro. Tendo Kautsky recorrido para a Comissão de Controlo, esta dá contudo luz verde, mas o Comité
Director faz como se nada fosse. Daí uma série de desonrosas negociações em que Kautsky claramente
percebe «a esclerose burocrática que campeia no partido», o «nível de pensamento político de uma
debilidade