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Começar Pelos Fins   A nova questão comunista

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como
partilhava a sua crítica metodológica, assim como a sua reivindicação de um debate fundamental, pelo
que decidi tomar por mim mesmo, nesse sentido, as iniciativas que estivessem ao meu alcance. Em fins de
Abril de 1976, aquando da "Venda do livro marxista", programei um debate público com ele por ocasião
da saída ,do seu livro Positions, nas Éditions Sociales - debate posto em causa no último instante por
membros da Direcção do Partido presentes na venda, e salvo in extremis pela luz verde que obtive de
Georges Marchais quando este chegou. Pouco depois, numa conferência feita no CERM, sobre «Lenine e
a passagem pacífica para o socialismo» (depois convertida em artigo publicado pelos Cahiers du
communisme), num contexto de novo bastante electrizado, procurei demostrar como era infundado, a
despeito dos clichés, invocar Lenine contra a busca de uma via revolucionária que poupasse a violência
ditatorial. Quis ir ainda mais longe nesse sentido trabalhando numa publicação mais vasta, mas um
secretário do Comité Central travou claramente os meus esforços aplicando-lhes o mais redibitório dos
qualificativos que o léxico da direcção possui: eu estava a ser «defensivo»... Quem se preocupa em
produzir as justificações teóricas de uma postura política; não estará já, com efeito a admitir a
possibilidade de dúvida quanto à sua justeza? 
Aquele «defensivo» soou-me um pouco como o «ainda acreditas na filosofia», mas em versão agravada:
decididamente, esta direcção, ciosa de fazer verdadeira política viva libertando-se, e com razão, do velho
doutrinarismo "marxista-leninista", nada enxergava do núcleo racional arqui-precioso que distraidamente
lançava fora juntamente com este. Não, a minha preocupação nada tinha de «defensiva», embora a sua
realização fosse ainda muito deficiente, uma vez que pela força das coisas era produzida numa grande
solidão de pensamento. E iria ter ainda mais consciência desta imaturidade, quando no ano seguinte
escrevi, com François Hincker e Jean Fabre, Les Communistes et l'État, um livro que não foi decretado
como defensivo, mas que também não foi recebido lá muito ofensivamente. O XXIII Congresso, em 1979,
Congresso de real invenção estratégica diferentemente dos que se lhe seguiram, relançava duplamente a
reflexão de alguém como eu, através desse mesmo contraste entre riqueza política e indigência teórica:
por um lado, retomando à conta do PCF a sugestiva noção de «socialismo autogestionário» que entretanto,
por defeito crónico de aprofundamento, rapidamente iria descambar em fórmula inoperante; por outro,
purgando os novos estatutos, com alguma razão, da referência tradicional ao marxismo em geral, para
apenas pôr em relevo o «socialismo científico», mas abstendo-se impavidamente de explicitar, por pouco
que fosse, o conteúdo de pensamento que sob esta denominação se colocava doravante, no entanto, em
destaque - sendo membro da comissão de redacção destes novos estatutos, estava bem colocado para
apreciar esta façanha. Alargando então o meu campo de reflexão pessoal ao conjunto deste novo objecto,
comecei a entrever, pela minha parte, para que rumo se devia orientar sem dúvida um comunismo do
nosso país e do nosso tempo, coisa de que há traços num artigo escrito nos finais de 1982 e publicado na
Primavera seguinte por La Pensée: «Em que ponto estamos relativamente ao socialismo científico?». 
Mas o obstáculo a qualquer avanço parecia-me cada vez mais residir numa concepção, num
funcionamento, num modo de vida do Partido, manifestamente retardatários. Sendo em 1981 o redactor
do pequeno colectivo que tinha a seu cargo a redacção do projecto de resolução do XXIV Congresso, senti
com vivacidade uma exigência de inovar com ousadia na questão do partido e ao mesmo tempo uma
impreparação profunda para o fazer. A maneira como a Direcção ao mais alto nível se acomodava com
este estado de coisas surgiu-me pouco a pouco como uma confissão. E o seu tácito «não» a qualquer
verdadeiro questionamento neste domínio teve para mim, sem barulho, um efeito decisivo. Não fechava
só o círculo de uma indiferença teórica que abrangia, constatava eu, todo o campo das questões
fundamentais do famoso, socialismo científico, incluindo a concepção do partido, coisa que já me parecia
extravagante. Fazia-me, sobretudo, tomar consciência de que o meu litígio com a direcção ia bem mais
longe do que eu supunha. Já que aquela recusa não visava só a minha preocupação teórica em clarificar a
situação em que nos encontrávamos do ponto de vista de princípios relativamente ao leninismo em
matéria de organização; nessa recusa jogava-se a mais prática e política de todas as paradas: o próprio
Partido. Aquele «não» queria dizer que se não queria mudar nele nada de importante. Encontrava-me,
deste modo, em relação a uma questão tão nevrálgica, em oposição política à Direcção do Partido. Para
mim, era um marco. Até ali, estava tão certo da minha razão no meu contencioso teórico com ela, como
continuava interiormente aberto à sua contracrítica. Sendo cada qual contra si próprio o mais bem
informado e o mais penetrante dos acusadores, encontrava dez motivos para me dizer: eles é que têm
razão, estás a ser picuinhas com os conceitos, não fazes suficientemente "poolítica". Porque, na linguagem
oral das altas esferas do Partido há duas palavras "política": só com um "o" para dizer política no sentido
corrente, e com dois "oo" para puxar as orelhas a quem se mostrar ingenuamente político a mais -«é
preciso fazer poolítica, camarada!». Demasiada teoria filosofante, pouca poolítica a sério: não seria esse
exactamente o meu retrato? Durante muito tempo batalhei no partido, albergando no meu íntimo aquela
parte de crítico que me impedia de ajuizar negativamente, de modo global, a direcção. Mas com aquela
recusa, em minha opinião indefensável, de mexer na questão crucial do Partido - como se se pudesse
implementar uma estratégia verdadeiramente nova com um partido à moda antiga -, chegava a minha vez
de dar um puxão de orelhas: já não simplesmente por carência nas ideias, mas por imobilismo poolítico...
precisamente, e devastador de que maneira! Assim sendo, aquele «não» precipitou em mim uma
verdadeira reconversão do meu olhar sobre a direcção: esta fazia pior do que pensar pouquinho, dirigia
mal. Portanto, como considerá-la inocente no processo do começo de afundamento histórico do
comunismo francês? 
Foi este abrir de olhos que, com alguma pugnacidade, a minha intervenção mostrou no Comité Central em
Junho de 1984 (cf Anexo III) - e foi a vez da direcção ficar siderada. A minha passagem a uma atitude
contestatária de um tipo inédito em que a dissidência de pensamento de modo algum caminhava para uma
conspiração oportunista - a única lógica em que a direcção entretanto quis acreditar para a diabolizar -
mas, bem pelo contrário, dirigindo-se para a ambição afirmada de tornar inevitável, a prazo, uma grande
mudança do partido para melhor, libertava de uma só vez todo o espaço necessário para as necessárias
reconsiderações. Era toda a perspectiva do combate comunista que se tornava necessário repensar
ousadamente. Neste sentido dei início à preparação e depois à redacção de um livro que tive de abandonar
em 1986, não só por falta de tempo, mas também por excesso de dificuldades. A abundância de temas não
perdoa, e a incompetência era de molde a desmoralizar o mais resoluto. O crescimento da contestação
comunista em sentidos à partida diferentes multiplicava as opções decisivas de orientação. O
desenvolvimento espectacular do gorbatchevismo avivava a vontade refundadora, mas agudizava todos os
problemas ao mais alto nível. Não seria necessária uma completa inconsciência para se auto-instituir,
mesmo que a título exploratório, como determinador de rumos? Contudo, como andava a pensar nisto há
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