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Começar Pelos Fins   A nova questão comunista

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indivíduos, o definhamento do Estado de classe, a desalienação da consciência social, o apagar da
hostilidade entre as nações, a universalização das trocas e da própria humanidade, e em consequência o
ponto final na exploração do homem pelo homem, a eliminação das desigualdades e opressões de classe,
de sexo, de "raça" e outras, a passagem da contingência à liberdade real, o fim da pré-história humana. 
É impossível encarar tal explicitação sem se ficar transido pela audácia visionária da ideia comunista
marxiana, e para logo ser assaltado pela dúvida quanto à sua credibilidade histórica, ou pelo menos pedir
explicações sobre quase cada palavra destes enunciados definitórios. Os capítulos seguintes darão
largamente lugar a esta preocupação. Mas no ponto em que estamos é, em primeiro lugar, uma outra
consideração que se impõe: a da estrita interdependência de todas estas dimensões do comunismo, de
modo algum como soma mais ou menos contingente de traços disjuntos, mas conjunto orgânico de
caracteres obrigatórios. Assim, retiremos-lhe em pensamento o desenvolvimento universal das forças
produtivas - que não é apenas o intenso surto por todo o lado de todas as forças produtivas, mas mais
essencialmente ainda a universalização da força produtiva que incorpora a ciência, de que a melhor
ilustração é a actual informatização generalizada - e todos os outros aspectos do comunismo deixarão de
poder ser abordados: aqui, tocamos já no drama da União Soviética e do "socialismo real" em geral.
Assim, ainda - e aqui está um ponto decisivo no meu presente propósito - a apropriação dos grandes
meios sociais de produção e troca, pelo menos se tomarmos tal medida no seu pleno alcance emancipador,
é absolutamente impossível sem a superação do mercado e do trabalho assalariado capitalista, sem o
desenvolvimento integral dos indivíduos, sem o definhamento do Estado... com esta impossibilidade
começa a surgir o que tem de derisória a redução do comunismo à fórmula simplista: propriedade social
dos meios de produção + «a cada um segundo as suas necessidades»; e é ainda mais destruidor reduzir o
socialismo, em princípio fase inicial do comunismo, só à sacramental propriedade social dos meios de
produção e de troca - destruidor, não só em teoria, mas também na prática. 
Porque este é o facto capital: esta redução tão descaracterizante não se operou apenas no registo das ideias
- onde ela não pouco contribui para uma degenerescência conceptual de efeitos já consideráveis - mas
também na própria edificação concreta do socialismo na época estalinista, ao caucionar escolhas
estratégicas com as mais graves consequências. Falando rapidamente, pode-se dizer que a revolução foi
dada como acabada a partir do momento em que, nos meados dos anos trinta, está implementada tanto no
campo como na cidade, a pretensa propriedade social dos meios de produção e de troca, de modo que são
retiradas oficialmente ou sub-repticiamente de perspectiva, transformações tão fundamentais como o
definhamento do Estado - já no XVIII Congresso do Partido, em 1939, Estaline teoriza mesmo o seu
adiamento sine die, argumentando com o cerco capitalista ao país - como o desenvolvimento integral de
todos os indivíduos (nem pensar, por exemplo, caminhar na prática para a superação da divisão social
entre funções de direcção e de execução) ou ainda como a desalienação das consciências (nunca como até
ali, sem dúvida alguma, o Estado tinha posto, como na União Soviética, a ideologia ao serviço da sua
pesada dominação). Vemos aqui claramente o sentido tragicamente concreto que há em reduzir a
concepção do socialismo apenas à propriedade social dos meios de produção, tendo-se-lhe retirado todos
os outros conteúdos da ideia comunista. Pior ainda: chegando a este ponto de empobrecimento, as coisas
convertem-se no seu contrário. Já que esta propriedade dita social nunca mais poderá ser, evidentemente,
em tais condições - persistência de um Estado omnipotente, de uma individualidade repartida, de uma
consciência pública mistificada... - o que Marx tinha em vista quando falava de apropriação pelos
produtores associados dos seus meios de produção e, muito mais abrangentemente, dos seus poderes
sociais; por outras palavras: quando falava da tomada em mãos e domínio efectivo da sociedade
trabalhadora, por si mesma, de todas as condições objectivas da sua actividade. No socialismo
pretensamente "real", aquele tipo de propriedade chegou, pelo contrário, de forma inédita, a abranger um
desapossamento dos produtores por um Estado-partido, pela sua burocracia, pelas suas camadas
privilegiadas. Amputado do comunismo, aquele socialismo estava destinado a derivar para uma
modalidade reforçada de alienação social, como viram e disseram, cedo ou tarde, tantos militantes anti-
estalinistas, ou mesmo simples críticos lúcidos. 
Claro que na cultura tradicional de um partido como o PCF, «o socialismo» não se limitava a esta famosa
apropriação social dos meios de produção e de troca, considerada, contudo, essencial entre tudo o resto,
para o definir. Pelo contrário, o discurso dentro das regras enfeitava-o com todas as virtudes
emancipadoras do comunismo: em si, era já o «fim da pré-história». Mas um olhar mais atento apercebia-
se de que estas supostas virtudes estavam directamente relacionadas apenas com a socialização dos meios
de produção: bastava acabar com a sua posse privada para que desabassem de uma assentada o peso do
Estado com a lei do mercado, as opressões sexistas e racistas simultaneamente com as atitudes egoístas ou
belicosas, e assim sucessivamente. De modo que dirigir todos os esforços para a conquista do poder que
esta socialização determinante supostamente permitiria era considerado como a única batalha que
verdadeiramente valia a pena. E o que transparecia para além desta inquietante redução primordial era
que, de facto, na maneira de os pensar, os objectivos emancipadores do socialismo estavam decisivamente
ratados em relação ao desígnio comunista. Assim, o princípio socialista «a cada um segundo o seu
trabalho» não só remetia à condição de utopia a satisfação socialmente ilimitada das necessidades de cada
um, como consagrava de maneira tácita a aceitação das eventualmente maiores desigualdades sociais.
Desigualdades de que, aliás, não se via o fim, uma vez que era também abandonada a exigência comunista
de um desenvolvimento integral de todos os indivíduos. Por exemplo, pensava-se que se fazia o suficiente
pela "justiça social" ao pronunciar-se por uma escola de "igualdade de oportunidades", quando esta
palavra de ordem de pura democracia burguesa é o mesmo que contentar-se com um sistema educativo
que regista como dado natural a desigualdade intrinsecamente sociocultural do desenvolvimento precoce
dos indivíduos. Aliás, o silêncio crucial sobre o definhamento do Estado confirmava bem que se estava a
fechar-se numa concepção implicitamente burguesa da democracia, em que o cidadão devia acomodar-se
sine die com a delegação de poderes, com a autoridade dos dirigentes, com as prerrogativas do partido -
em resumo, com tudo o que lhe atribui o estatuto de menoridade política. Assim, a ideologia na qual o
socialismo se apresentava de alguma maneira como um equivalente mais plausível do comunismo
dissimulava uma discordância tão fundamental dos seus conteúdos respectivos que o seu próprio
parentesco se tomava altamente problemático.
1.04 - Uma manipulação crucial do pensamento de Marx
Eis o que já esclarece bastante a questão atrás mencionada: como compreender o facto inconcebível de o
socialismo, transitivo na sua essência, se recusar obstinadamente a transitar para o comunismo? A
resposta que aflora é que precisamente, o «socialismo», na sua teoria e