WINNICOTT  FAMÍLIA E O DESENVOLVIMENTO INDIVIDUAL
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WINNICOTT FAMÍLIA E O DESENVOLVIMENTO INDIVIDUAL

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Donald W. Winnicott

A FAMÍLIA E
DESENVOLVIMENTO

INDIVIDUAL

PREFÁCIO

Este livro é uma coletânea de palestras proferidas ao longo dos últimos dez anos, dirigidas em sua maioria a

grupos de assistentes sociais. Seu tema central é a família e o desenvolvimento de grupos sociais a partir desse

primeiro grupo natural. Repetidas vezes procurei afirmar e reafirmar a teoria do crescimento emocional da

criança, crendo que a estrutura familiar deriva em grande parte das tendências para a organização presentes na

personalidade individual.

A família possui lugar claramente definido naquele ponto em que a criança em desenvolvimento trava contato

com as forças que operam na sociedade. O protótipo desta interação é encontrado na relação original entre

criança e mãe, relação essa em que, por vias extremamente complexas, o mundo representado pela mãe pode vir a

auxiliar ou impedir a tendência inata da criança ao crescimento. Esta é a idéia central desenvolvida no decorrer

desta coletânea de artigos, muito embora estes tenham sido elaborados independente mente, com o intuito

primeiro de atender às necessidades específicas dos grupos para os quais foram proferidos.

AGRADECIMENTOS

Gostaria de agradecer novamente à minha secretária, sra. Joyce Coles, por seu trabalho paciente e cuidadoso.

Grato estou ao sr. M. Masud Khan, por seus conselhos.

Pela permissão de republicar artigos já uma vez submetidos ao prelo, reconheço também minha gratidão para

com os seguintes editores e instituições: o editor de New Era in Home and School; o editor de Nursing Ti,nes; o

editor de New Society; o editor do British Journal of Psychiatric Social Work; o editor da Medical Press; o editor

de Human Relations; o editor do Canadian Medical Association Journal; a Editora Butterworth & Co. Ltd.; a Bri

tish Broadcasting Corporation.

Fornece-se a seguir uma lista das fontes originais.

D. W. WINNICOTT, F.R.C.P.

1. Publicado na Medical Press, março de 1958.

2. Palestra proferida à Association of Workers for Maladjusted Chil dren, abril de 1960 (reescrita em 1964).

3. Programa de rádio da BBC, março de 1960.

4. Programa de rádio da BBC, junho de 1962.

5. Palestra proferida no Goldsmith’s Coilege, outubro de 1957; à As sociation of Child Gare Officers, maio de

1958; e na Universidade McGill, outubro de 1960; subseqüentemente publicada no Canadian Medical

Association Journal, abril de 1961.

XI A FAMÍLIA E O DESENVOLVIMENTO INDIVIDUAL

6. Palestra proferida durante o Family Service lJnits Caseworkers’ Study Weekend, outubro de 1958.

7. Palestra proferida à Association of Child Gare Officers, fevereiro de 1960.

8. Palestra à Association of Psychiatric Social Workers, novembro de

1959; subseqüentemente publicada no British JournalofPsychiatric PARTE 1

Social Work, vol. 6, n 1, 1961.

9. Baseado numa palestra proferida ao Pessoal Graduado do London Gounty Council Ghildren’s Department,

fevereiro de 1961; subseqüentemente publicada em New Era in Home and School, outubro de 1962; e, de forma

alterada e sob o título de “Struggling through the Doldrums” (“Transpondo a Zona de Calmarias”), em New So

ciety, 25 de abril de 1963.

10. Palestra à Society for Psychosomatic Research, novembro de 1960.

11. Parte do Capítulo 14 de Modern Trends in Paediatrics (Second Se ries), editado por A. Hoizel ei. P. M. Tizard

(Londres: Butterworth,

1958).

12. Palestra proferida num curso organizado pela Association of Super visors of Midwives; subseqüentemente

publicada em Nursing Times,

17 e 24 de maio de 1957.

13. Palestra proferida num curso para obstetras organizado pelo Royal Goliege of Midwives, novembro de 1957.

14. Palestra à Association of London County Gouncil Child Welfare Of ficers, outubro de 1959.

15. Palestra à Nursery School Association, julho de 1950.

16. Palestra à Association of Workers for Maldjusted Ghildren, abril de 1955.

17. Publicado em Human Relations, vol. 3, n? 2, junho de 1950.

CAPITULO 1 - O PRIMEIRO ANO DE VIDA

Concepções Modernas do Desenvolvimento Emocional

Introdução

Muita coisa acontece no primeiro ano de vida da criança: o desenvolvimento emocional tem lugar desde o

princípio; num estudo da evolução da personalidade e do caráter é impossível ignorar as ocorrências dos

primeiros dias e horas de vida (e mesmo do último estágio da vida pré-natal, no caso de crianças pós- maturas); e

até a experiência do nascimento pode ser significativa.

O mundo não parou de girar a despeito de nossa ignorância no que toca a estes assuntos, pois há algo na mãe de

um bebê que a torna particularmente qualificada para proteger seu filho nesta fase de vulnerabilidade, e que a

torna capaz de contribuir positivamente com as claras necessidades da criança. A mãe é capaz de desempenhar

esse papel se se sentir segura; se se sentir ama da em sua relação com o pai da criança e com a própria família; e

ao sentir-se aceita nos círculos cada vez mais amplos que circundam a família e constituem a sociedade.

Se quisermos, podemos continuar a deixar o cuidado das crianças por conta das mães, cuja capacidade não se

baseia no conhecimento formal, mas provém de uma atitude sensível adquirida na medida em que a gravidez

avança, e depois perdida à proporção que a criança se desenvolve e se afasta. Há, porém,

uma série de razões para que empreendamos um estudo do que ocorre nos primeiros estágios de desenvolvimento

da personalidade da criança. Por exemplo: enquanto médicos ou enfermeiras, podemos nos ver forçados a

interferir no relacionamento entre mãe e criança para lidar com certas anormalidades físicas da criança, e

devemos conhecer a realidade na qual estamos interferindo. Ademais, o estudo físico da infância tem

proporcionado substanciais recompensas no decorrer dos últimos cinqüenta anos, e é possível que um interesse

análogo pelo desenvolvimento emocional produza resultados ainda mais ricos. Como terceira razão, poder-se-ia

evocar o fato de que uma boa proporção de mães e país, em virtude de doenças sociais, familiares e pessoais, não

consegue fornecer à criança condições suficientemente boas à época de seu nascimento; nesses casos, espera-se

de médicos e enfermeiras que tenham a capacidade de entender, tratar ou mesmo prevenir esses distúrbios, assim

como freqüentemente o fazem em casos de enfermidades físicas. Cada vez mais deverá o pediatra ter uma

formação tão boa no tocante ao aspecto emocional quanto a que hoje possui relativa ao aspecto físico do

crescimento da criança.

Há ainda uma quarta razão que justifica o estudo do desenvolvimento emocional em suas primeiras fases: é

muitas vezes possível detectar e diagnosticar distúrbios emocionais ainda na infância, até mesmo durante o

primeiro ano de vida. É evidente que a época certa para o tratamento de um tal distúrbio é a época mesma de seu

início, ou um momento tão próximo desta quanto possível. Mas, por hora, não insistirei mais sobre este aspecto

da questão.

Tampouco farei referência às deficiências de saúde ou anormalidades físicas, bem como ao crescimento mental

considerado em termos de uma tendência de desenvolvimento afetada por fatores hereditários. Neste artigo, para

todos os efeitos, podemos supor que a criança seja sadia de corpo e potencialmente sadia na mente; o que desejo

discutir é o significado mesmo desta potencialidade. Qual é o potencial existente no nascimento? Deste, o que

chega a realizar-se em ato ao final do primeiro ano de vida?

pressuponho, também, a existência de uma mãe que seja sadia suficiente para comportar-se naturalmente como

mãe. Devido à extrema dependência emocional da criança, seu desenvolvimento ou sua vida