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Livro Texto Serviço Social Integrado II

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Serviço Social integrado
Unidade II
5 Realidade BRasileiRa, expRessões da Questão social, diReitos 
sociais 
Retomando brevemente as análises sobre pobreza, seu dimensionamento envolve também as 
capacidades humanas, entendidas como uma série de combinações que permitem às pessoas realizações. 
Segundo Sen (1999, p. 16), “a capacidade é um tipo de liberdade: a liberdade substantiva de realizar 
combinações alternativas de funcionamentos ou a liberdade para ter estilos de vida diversos”. 
As capacidades envolvem funções que estão associadas a como uma pessoa atribui valor ao fazer 
e ao ter. Essas funções, por sua vez, podem se diferenciar nas formas como as pessoas atribuem a si os 
valores, como adotar cuidados para manterem-se saudáveis ou escolher como participarão da vida da 
comunidade, ter respeito próprio etc. 
Para Sen (1999), algumas dessas capacidades são fundamentais para a preservação da vida e sua 
promoção ou privação pode conduzir até mesmo à morte. Exemplifica com estados de subnutrição que 
causam mortes prematuras, analfabetismo, que no mundo contemporâneo desencadeia uma série de 
privações e outras incapacidades. A pobreza também pode ser caracterizada por ausência de renda ou 
pela evidência de que as pessoas se encontram em patamares inferiores aos parâmetros que asseguram 
a vida e também pela ausência do acesso justo, resultante do trabalho e da efetiva participação social.
As capacidades humanas são desenvolvidas segundo condições genéticas, sociais, culturais, 
econômicas, de gênero, fatores climáticos e ecológicos. Na cena contemporânea, essas capacidades são 
também afetadas pelo processo de acumulação capitalista, pelas más condições da vida urbana, que 
incluem a insegurança e violência em alguns bairros pobres e muito populosos e outras variações sobre 
as quais uma pessoa pode não ter controle ou apenas controle limitado. 
É evidente que não ter capacidades ou ser limitado no uso dessas causa desvantagens, reduz o 
potencial de participação das pessoas na lógica de pertencimento familiar e comunitário e no acesso a 
bens e serviços, recursos fundamentais para a existência humana. 
Esclarecendo, a distribuição de renda dentro da família acarreta complicações quando usada 
desproporcionalmente no interesse de alguns membros da família em detrimento de outros, quando 
há, por exemplo, uma incapacidade no equilíbrio de gênero, favorecimento de acesso aos meninos em 
detrimento, por razões diversas, às meninas. 
Essa análise de articular o entendimento de pobreza por meio das capacidades humanas melhora 
a compreensão da natureza e das causas da pobreza e da privação focadas somente em questões 
econômicas, porque fundamenta que as pessoas têm razão para buscar liberdades a fim de alcançar 
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certos fins e que há fatores básicos das capacidades que intensificam necessidades de desenvolvimento 
multidimensionais quando se trata de seres humanos.
A ausência de liberdade e a pobreza encerram os dois sentidos, tanto de capacidades humanas 
insuficientemente contempladas quanto de acesso à renda reduzida ante as necessidades humanas. 
A renda é um dos meios de potencializar as capacidades humanas e, quanto maiores forem essas 
capacidades, maior será o potencial produtivo de uma pessoa, consequentemente maior a chance de 
obter uma renda mais elevada, evidenciando que essa relação é muito importante.
Contudo, não é somente a renda que proporciona o aumento das capacidades, outros elementos 
são igualmente significativos, como, por exemplo, a educação, a saúde, o ambiente saudável, 
entre outros. 
Segundo Sen (1999, p. 108): 
[...] é importante ter em mente que a redução da pobreza de renda não 
pode ser o único objetivo de políticas de combate à pobreza. É perigoso ver 
a pobreza segundo a perspectiva limitada da privação de renda e a partir 
daí justificar investimentos em educação, serviços de saúde etc., com o 
argumento de que são bons meios para a redução da pobreza. Isso seria 
confundir os fins com os meios. 
Essa noção ampliada de analisar a pobreza leva a compreender que pobreza diz respeito à privação 
da vida que afeta as pessoas e das liberdades que de fato exercitem. 
Ao se ampliar os fatores que motivam a expansão das capacidades humanas, direta e indiretamente, 
promovem-se as chances de enriquecimento da vida humana. Portanto, as ações para combater a 
pobreza nas sociedades deverão eliminar as fontes de privações.
Eliminar os fatores que levam as pessoas às situações de pobreza também significa defender direitos e 
aprofundar conhecimentos sobre bloqueios e imposições da estrutura socioeconômica, particularmente 
os que possam impedir o direito das pessoas de participar das decisões que afetam suas vidas cotidianas. 
 lembrete
As capacidades humanas são desenvolvidas segundo condições 
genéticas, sociais, culturais, econômicas, de gênero, fatores climáticos, 
ecológicos e, na cena contemporânea, pelos efeitos da acumulação 
capitalista. 
É necessário entender os direitos, nessa perspectiva do debate contemporâneo, sobre os impactos 
das transformações econômicas no movimento de globalização e na reestruturação produtiva nas 
cidades. 
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Na perspectiva ampliada, trata-se de um conjunto de reconhecimentos e garantias, resultado de 
uma aposta institucionalizada, universalista e includente, outorgados pela sociedade através do seu 
sistema legal a todos os indivíduos, e que determinam a cidadania civil, política e social atribuída pelo 
mesmo sistema legal (DAGNINO, 2002).
Como esses direitos se expressam na nova ordem socioespacial, na qual a cidade revela uma estrutura 
social dividida entre classes e interesses, entre cidadãos e não cidadãos, o espaço é fragmentado por 
uma sociedade dominada pelas elites. 
Nesse espaço onde se pretende fortalecer direitos impera a desigualdade no acesso a bens e serviços 
e coloca-se na cidade a discussão sobre a natureza e a qualidade do conflito social, que está relacionado 
diretamente à capacidade de os grupos sociais se constituírem enquanto sujeitos sociais. 
Assegurar direitos implica formas de organização social, hoje com determinadas feições, reconhecidas 
como espaços privilegiados de debates e fomento à participação popular. 
Destacam-se, nessas formas organizadas, atores sociais representados em fóruns e redes nacionais, 
bem como suas respostas frente aos desafios urbanos. Estruturam-se por esse caminho estratégias de 
intervenção voltadas para a redução das desigualdades sociais e dos níveis de segregação e exclusão 
social que marcam a sociedade brasileira, na perspectiva da construção de um novo modelo de cidades, 
mais justo e democrático (DAGNINO, 2002).
Esse processo de organização reivindicativa de direitos não está livre de tensões e embates. No Brasil, 
essas lutas, desde a década de 1980, são visíveis na esfera da defesa do acesso às políticas públicas, que 
embora tenham papel importante para assegurar condições de bem-estar, no entanto, estão longe de 
facilitar a ampliação dos espaços onde o público se sobrepõe às apropriações privadas. O que se observa, 
por exemplo, é que serviços de educação e saúde são cada vez mais privatizados. 
Alguns dos reflexos dessas apropriações privadas da terra, na década de 1990, são revelados pelo 
aumento dos assentamentos irregulares, em número, em densidade, em precariedade, em violência, e 
pelas ocupações espaciais urbanas, que se expandiram por áreas impróprias para a habitação, segundo 
as recomendações