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A história do Testamento

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A história do Testamento
Seu significado e um breve resumo histórico
O que é o Testamento?
Acerca do significado de Testamento (do latim Testamentum, de Testor = atestação da mente ou da vontade; ou de testis = testemunho) o Dicionário Jurídico Referenciado o define como “Ato personalíssimo, unilateral, solene e revogável, pelo qual alguém, segundo as prescrições da lei, dispõe total ou parcialmente de seu patrimônio para depois de sua morte, ou nomeia tutores para os seus filhos, ou reconhece filhos naturais, ou faz declarações de última vontade. Das definições clássicas, encontram-se a de MODESTINO (Legítima manifestação de nossa vontade, para vigorar depois de nossa morte, a de ULPIANO (Testamento é a justa manifestação de nossa mente, feita de modo solene e vale depois de nossa morte. Também faz-se notável a definição do autor PONTES DE MIRANDA (Testamento é o ato pelo qual a vontade de alguém, declarada para o caso de morte, cria, transmite ou extingue direitos.
O Testamento através das eras
Tempos primitivos
Segundo GOUVÊA PINTO, “a origem dos Testamentos se perde na escuridão dos tempO”, afirmando ainda que a prática da sucessão de bens começou com os hebreus, egípcios (contestada) e gregos. A mais antiga manifestação de Testamento se encontra no ato de Noé, que, por ordem de Deus, divide o Universo entre seus três filhos, Jafé, Sem e Cam. Por ser considerada apócrifa, esta versão não é encontrada nas Sagradas Escrituras. Mas encontram-se outros atos testamentários na Bíblia, como o caso em que o Patriarca Abraão constitui Eliézer, seu servo, herdeiro; e depois, disso, seu filho Isaque e, aos filhos de suas concubinas, apenas presentes (legados particulares). Também no livro de Gênesis, encontra-se o caso em que Jacó altera a ordem de sucessão, dando ao seu filho mais novo, José, a parte dobrada em relação aos outros irmãos, galardoando os seus netos[6]. Na Grécia, o Testamento somente apareceu depois das reformas de Sólon (para a cidade de Atenas) e da Guerra do Peloponeso (para a cidade de Esparta).
O Testamento apoia-se na instituição da propriedade privada, já que, se um bem for de comum uso a todos, não há o que se falar em sucessão.
Testamento Romano
Em Roma, o Testamento medrou, adquiriu corpo definido através de múltiplos aperfeiçoamentos, com os quais adquiriu as características que se conhecem hoje. Pode-se dizer, com convicção, que o Testamento é uma invenção dos Romanos. No Direito Clássico, eram conhecidas duas formas de Testamento: o Calatis comitiis (ou Testamento Comicial) e o deProcintu. O primeiro era aquele de cunho aristocrático e se fazia perante assembleias convocadas – ou comitia curati – e tinham caráter pacifico. Era exclusiva aos nobres e não acessível a plebeus. Apenas posteriormente surgiu o testamento para o “povo” (Plebeus), chamado de per aes et libram, que ocorria através da venda ficta (ou MANCIPAÇÃO) ao “comprador” da herança (familiae emptor).
Nesses modos iniciais, não havia as divisões das características basilares dos Testamentos, vindo a misturar aspectos contratuais (per aes et libram) - ou importavam em derrogação de leis (calatis comitiis) -, demandando a intercessão do legislador. Deviam abranger instituição de Herdeiro e comportar todos os bens do Testador, qualidades estas que perduram, no Testamento Romano, a despeito de alterações ulteriores.
Através de Pretores (Pretor era o magistrado encarregado da administração de Justiça) e Justiniano, as formas supracitadas se simplificaram, restringido o Testamento a simples escrito, do qual participavam sete testemunhas (daí o Testamento Pretoriano), que assinavam o mesmo, acrescentando suas chancelas ou sinetes. Segundo asInstitutas, tal testamento tem tergémina origem: Direito Civil, Editos de Pretores e Constituições Imperiais (testamento tripertitum).
Já a modalidade Procintu era o Testamento que se fazia nas guerras ou batalhas iminentes, nos campos de batalha, sobretudo pelos feridos em combate. Dele vieram os Testamentos Militares, amparados nas legislações modernas. Segundo as Institutas do Imperador Justiniano, era uma forma especial e privilegiada de Testamento. Assim transcreveu tais apontamentos o autor MANOEL UBALDINO DE AZEVEDO:
“As constituições imperiais somente concederam esse privilégio aos soldados, enquanto militam nos arraiais. Os veteranos, que obtiveram baixa e os militares de serviço, mas fora dos arraiais, devem fazer testamento de acordo com as regras de direito, comuns a todos os cidadãos” e dispensavam formalidades, “pela sua muita imperícia dessa estrita observância, na confecção dos testamentos"
Poderia ser realizado por soldados ou qualquer outra pessoa que se encontrava em iminência de receber uma batalha, mesmo não sendo um guerreiro.
Também encontram-se expressas nas supracitadas Institutas a admissão do Testamento Oral (ou Nuncupativo). Novamente, faz-se notável e necessário o precioso entendimento do já citado autor MANOEL UBALDINO DE AZEVEDO:
“Se alguém quiser fazer testamento não escrito, segundo o direito civil, poderá faze-lo, perfeita e validamente, na presença de sete testemunhas, declarando, perante elas, a sua vontade".
Ainda sob o escopo do Direito Romano, o Testamento poderia ser solene, menos solene, ou privilegiado; também poderia ser público (chamado deCoram Principi, ao passo que fosse aprovado pelo Imperador ou Príncipe) e Apud Acta, que era aquele aprovado por autoridade judiciária.
Pode-se seguramente dizer que o Testamento moderno possui os traços do Direito Romano, ainda mais no Direito Brasileiro, que bebeu diretamente dessa magnifica fonte de inspiração.
O Testamento na idade Média e nos tempos modernos
Ao chegar a Idade Média, o Testamento caiu em desuso. Segundo o autor Orosimbo Nonato, isso ocorreu, sobretudo, porque “os bárbaros não admitiam outra sucessão fora da legítima e que, entre eles, dominava, invencida, a ideia endogênica da transmissão de bens”.
Após a descoberta das Pandectas e a reascensão do Direito Romano, o Testamento readquiriu o status de importância que antes possuía. A Igreja deu-lhe força e importância, ao conferir religiosidade e santidade ao ato do Testamento. Introduziu-o no Direito Canônico e o Testamento ad pias causas, que se baseava em uma “Graça da Igreja” e virou obrigatório entre os crentes. O Cristão que viesse a morrer sem fazer o Testamento cometera algo grave, um verdadeiro “Pecado mortal”, tanto que, em certos casos, os herdeiros buscavam cumprir o ato em que o morto foi “omisso”, fazendo heranças a Instituições Religiosas.
A Igreja se encarregou de difundir na antiga Lusitânia a disposição de ultima vontade, por intermédio do Testamento ad pias causas, que beneficiava a mesma. Essas praticas se incidiram nas Ordenações Afonsinas, que transverteram para seu corpo as normas tradicionais do Direito Romano. E nesse ambiente carregado de uma religiosidade supersticiosa os Testamentos começaram a aumentar, visando sempre a permuta de bens “físicos, terrenos” por promessas de graças “sobrenaturais e celestiais”.
A reação iniciada por Mello Freire contra o Direito Romano, articulado com o anticatolicismo do Marquês de Pombal ocasionaram reformas legislativas para reprimir os abusos que essas praticas acarretavam. Arguia-se que o clero se aproveitava de seu status de “fiscal e diretor de consciências” para desapossar e extorquir os enfermos, a quem acudia, valiosas heranças, para si próprios ou para corporações, com grave prejuízo, face a preterição aos parentes dos Testadores.
Através dessas reformas, determinou-se a nulidade dos legados em favor dos próprios escritores, diretores, ou mesmo sugestores dos Testamentos e das corporações a que pertencessem e seus parentes, assim como dos Testamentos feitos pelos doentes, em estado grave de enfermidade. E a sucessão legitima se viu favorecido pela lei, quando considerou-se a sucessão do Testamento “tendente a aniquilar a sucessão dos propínquos, que é a conforme a natureza e a caridade cristã”.
Com a queda