Protecao radiologica
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Protecao radiologica


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PROTEÇÃO RADIOLÓGICA 
Almy Anacleto Rodrigues Da Silva1 
Walter Siqueira Paes2 
 
1. História 
 
No final do século XIX o físico Alemão Wilhelm Conrad Röentgen descobriu os raios 
X, quando estudava as emissões de tubos de raios catódicos. Na mesma época, 
Marie e Pierre Curie, paralelamente ao pesquisador francês Henri Becquerel, 
descobriram as substâncias radioativas. 
 
Nesta época, a descoberta de que, através do uso dos \u201cmisteriosos\u201d raios de 
Roentgen, era possível obter uma imagem fotográfica do interior do corpo humano, 
sem a necessidade de um procedimento cirúrgico invasivo, revolucionou a medicina. 
Como consequência desta notável descoberta, passou-se a fazer uso desenfreado 
da nova tecnologia. 
 
A imagem a seguir é a primeira radiografia da história. A primeira imagem não 
invasiva do interior do corpo humano. Em uma se suas experiências, Röentgen 
colocou a mão de sua esposa, Bertha, na frente do filme e obteve a primeira 
radiografia da história, mostrando os ossos de Dona Bertha e até seu anel de 
casamento. 
 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
1	
  Físico	
  de	
  Proteção	
  Radiológica	
  do	
  SESMT	
  da	
  Universidade	
  de	
  São	
  Paulo.	
  Doutor	
  em	
  Física	
  (Instituto	
  de	
  Física	
  da	
  USP),	
  Mestre	
  em	
  Ciências	
  (Instituto	
  de	
  Física	
  da	
  USP),,	
  Especialista	
  em	
  Vigilância	
  Sanitária	
  \u2013	
  área	
  Radiações	
  Ionizantes	
  	
  (Faculdade	
  de	
  Saúde	
  Pública	
  da	
  USP)	
  2	
   Físico	
   de	
   Proteção	
   Radiológica	
   do	
   SESMT	
   da	
   Universidade	
   de	
   São	
   Paulo.	
   Especialista	
   em	
   Radiologia	
  Diagnóstica	
  e	
  Medicina	
  Nuclear(Associação	
  Brasileira	
  de	
  Física	
  Médica)	
  
	
  
 
Figura 1: Primeira radiografia da história1 
 
Uma das aplicações à época era a utilização em sapatarias de luxo. Uma radiografia 
do cliente calçando o sapato revelava a necessidade de eventuais ajustes na 
confecção do calçado, tornando-o mais confortável. A imagem a seguir ilustra essa 
aplicação. 
 
 
Figura 2: Aplicações dos raios X do início do século XX 
 
Àquela época não se sabia que a radiação ionizante é capaz de levar à indução de 
efeitos biológicos indesejáveis. Ocorre que o ser humano não dispõe de sensores 
próprios para a detecção da radiação ionizante. A radiação ionizante é invisível, 
inaudível, inodora e não perceptível ao tato. Se somarmos a esses fatos o uso 
desenfreado desencadeado pela descoberta revolucionária, não será difícil imaginar 
que em pouco tempo diversos efeitos biológicos indesejáveis iriam se manifestar. De 
fato a esposa de Roentgen teve severas consequências em sua mão. Da mesma 
forma os primeiros médicos radiologistas sofreram consequências. Madame Curie 
morreu por consequência de efeitos biológicos devidos à radiação ionizante. A 
sucessão destes eventos gerou o surgimento de iniciativas para entender o 
fenômeno e, pouco menos de trinta anos após a descoberta de Roentgen, foi criada 
a Comissão Internacional de Proteção Radiológica (ICRP na sigla em língua 
inglesa). 
 
A esta altura já havia uma coleção de casos demonstrando os malefícios associados 
ao uso das radiações ionizantes e o desafio inicial que se colocava era o de eliminar 
ou minimizar esses malefícios. Uma das alternativas seria simplesmente abandonar 
o uso da radiação ionizante. Essa alternativa garantiria a eliminação dos malefícios, 
mas junto ela traria algo extremamente indesejável: eliminaria os benefícios. 
 
Assim, a proteção radiológica nasceu de um grande desafio: como fazer para não 
precisar abrir mão do uso da radiação ionizante? A alternativa seria estudar e 
pesquisar, para entender a natureza e os mecanismos de interação destas 
radiações. Desta forma, ao contrário do que muitas pessoas acreditam, a proteção 
radiológica é favorável ao uso da radiação ionizante. Não o uso indiscriminado, mas 
o uso racional, que parte dos conhecimentos adquiridos. 
 
Partindo então do objetivo de viabilizar os usos da radiação ionizante, a proteção 
radiológica empenhou-se em conhecer seus mecanismos de ação. Esses 
conhecimentos são dinâmicos a medida que os estudos se aprofundam mais e 
geram novos conceitos e entendimentos. Há uma grande quantidade de 
pesquisadores, das mais diversas áreas, dedicando-se a enriquecer os 
conhecimentos a cerca da radiação ionizante e é possível afirmar que a radiação 
ionizante é um dos agentes de risco mais bem conhecidos e estudados. 
2. PRINCÍPIOS BÁSICOS 
	
  
Considerando que a filosofia da proteção radiológica toma como base estudar e 
pesquisar a natureza e os mecanismos de interação da radiação ionizante, com 
vistas a viabilizar o uso das técnicas que a empregam, foram definidos três 
conceitos que representam o tripé de sustentação filosófica da proteção radiológica. 
Estes conceitos foram denominados Princípios Básicos de Proteção Radiológica. 
Embora estes conceitos sejam distintos, sua eficácia como base filosófica está na 
sua utilização de forma associada. Não se pratica proteção radiológica com 
qualidade sem que se faça uso destes três princípios concomitantemente. Os 
princípios são conhecidos como Princípio da Justificação, Princípio da Otimização e 
Princípio da Limitação de Doses (Figura 3). 
 
Otimização Limitaçãode Doses
Justificação
ProteProteççãoão
RadiolRadiolóógicagica
Otimização Limitaçãode Doses
Justificação
ProteProteççãoão
RadiolRadiolóógicagica
 
Figura 3: Princípios Básicos de Proteção Radiológica 
 
2.1. Princípio da Justificação 
O Princípio da Justificação é enunciado da seguinte maneira pela Comissão 
Nacional de Energia Nuclear (CNEN): 
Nenhuma prática ou fonte associada a essa prática será aceita pela CNEN, a não 
ser que a prática produza benefícios, para os indivíduos expostos ou para a 
sociedade, suficientes para compensar o detrimento correspondente, tendo-se em 
conta fatores sociais e econômicos, assim como outros fatores pertinentes. 
 
Essencialmente o que está por trás deste princípio é que os usos devem ser 
justificados. Todo uso da radiação ionizante pressupõe que traga benefícios. Porém, 
há malefícios associados a todo uso. Assim, para que um determinado uso seja 
justificável, os benefícios devem superar os malefícios. É uma balança de prós e 
contras. 
 
Tomemos alguns exemplos para analisar: 
 
\u2022 Considere a utilização de materiais radioativos luminescentes aplicados em 
brinquedos. 
 
Neste caso fica evidente que os benefícios são muito poucos e seguramente 
menores que os malefícios associados. Esta é, portanto uma utilização não 
justificável. Fere o Princípio da Justificação e deve ser, portanto, considerada 
proibida. 
 
\u2022 Considere agora uma situação hipotética em que um determinado paciente 
seja encaminhado por um médico para a realização de um exame 
diagnóstico. Vamos supor que neste caso hipotético o médico possa solicitar 
um exame de ressonância magnética, que não faz uso de radiação ionizante, 
ou um exame de tomografia computadorizada que faz uso de raios X, para 
obter a mesma informação. Neste caso, qual dos dois exames ele deve 
indicar? Segundo o Princípio da Justificação ele deve indicar o exame de 
ressonância magnética, por não utilizar radiação ionizante. 
 
Imagine agora, neste mesmo cenário, que o plano de saúde do paciente não 
contemple o exame de ressonância