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Anestesia a Vitória sobre a Dor   Airton Bagatini

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o paciente estiver sob efeito de seda-
ção ou anestesia geral, não poderá comunicar o que
estiver sentindo.
Por outro lado, se imaginar acordado durante uma
cirurgia pode ser muito assustador. Se não puder me co-
municar, o anestesiologista estará atento ao meu lado e
terá meios para perceber o que está se passando comigo?
Em primeiro lugar, não se inicia uma cirurgia sem
que seja devidamente avaliada a ausência de sensibilida-
de, necessária para a realização do procedimento cirúrgi-
co. Nas anestesias com bloqueio essa informação é for-
necida pelo próprio paciente, através de testes realizados
pelo anestesiologista, pois o tipo de sedação utilizada não
incapacita o paciente de se comunicar
quando isso for necessário.
A monitorização permanente dos
sinais vitais permite que, mesmo sob
sedação ou anestesia geral, se possa
acompanhar, e perceber com tempo su-
ficiente, qualquer alteração nos níveis da anestesia.
Não existe, dessa forma, a possibilidade que termi-
ne a anestesia antes de se concluir a cirurgia, sendo que
somente ao seu término tornam-se mais brandos os ní-
veis de sedação do paciente com bloqueio, quando en-
tão se promove o despertar.
O ALÍVIO DO ACORDAR
É outro momento em que, paradoxalmente, o acor-
dar também pode ser vivido com alguns medos. Acordar
tem não apenas o significado de despertar de um sono
Não existe a possibilidade
que termine a anestesia
antes de se concluir
a cirurgia.
 ANESTESIA 73
ou de um sonho, mas também, no sentido da metáfora,
o de reviver, ressuscitar.
O acordar da anestesia pode trazer o alívio do retor-
no à vida. Não morremos, enfim. Porém, traz de volta a
realidade de que não estamos despertando nem de um
sono nem de um sonho. A percepção de algum incômo-
do que a situação gerada pelo procedimento cirúrgico-
anestésico estabelece torna presente essa realidade.
O MEDO DA DOR APÓS A ANESTESIA
A maioria dos pacientes refere o medo de sentir dor
após o término da anestesia. Concluída a cirurgia, entre
os efeitos imediatos do processo cura-
tivo se inclui, num primeiro momento, a
possibilidade de dor e desconforto.
Mesmo havendo o esclarecimen-
to de que logo após a cirurgia a perma-
nência em uma sala especializada em
recuperação pós-operatória, com uma equipe bem trei-
nada, tem por objetivo atender esses cuidados, a preocu-
pação maior é a de que o anestesiologista não estará mais
à sua cabeceira de forma permanente como antes, para
poder dar-lhe o alívio desejado. Aparece o temor de não
ser bem cuidado, de não entenderem ou não valoriza-
rem as queixas de dor e a necessidade de busca de bem-
estar.
Se a figura do anestesiologista é a última com quem
o paciente tem contato antes de adormecer, é também a
primeira com a qual se depara ao acordar. E, muitas ve-
zes, devido à continuidade do atendimento, a que per-
manece por mais algum tempo ao seu lado, visto que a
A maioria dos pacientes
refere o medo de sentir
dor após o término da
anestesia.
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recuperação da anestesia e a acomodação na Sala de Re-
cuperação ultrapassam o tempo dos cuidados cirúrgicos
no pós-operatório imediato.
É comum, na fase da recuperação da consciência,
reaparecerem os temores sobre os efeitos e os resultados
dos procedimentos relacionados à cirurgia e à anestesia.
E, justamente pela proximidade dessa continuidade, é
com o anestesiologista que o paciente vai buscar tran-
qüilizar-se. Com freqüência, surge o temor de que o anes-
tesiologista possa não estar ao lado do paciente quando
este acordar.
Dessa forma, as expectativas dos pacientes relacio-
nadas aos cuidados que esperam receber do seu aneste-
siologista ultrapassam a tarefa de apenas tornar ausente
a dor, para possibilitar o ato operatório. E um dos me-
dos presentes é o de que o anestesiologista não possa sentir
o paciente como um todo e com isso não estar atento
para as angústias, que vão um pouco além do trabalho
de anestesiar a dor física.
O MEDO DE PERDER O
OBJETO CUIDADOR
Podemos tentar entender um pouco mais a respeito
de todos esses medos a partir de outra instância. Confor-
me Sigmund Freud, a dor física vem
sempre acompanhada de dor mental.
Também foi ele quem escreveu sobre o
sentimento de desamparo da criança
muito pequena quando afastada da
mãe. Disse ele que, ao ser separada da
mãe e deparando-se com alguém estranho, o sentimento
Conforme Sigmund
Freud, a dor física vem
sempre acompanhada
de dor mental.
 ANESTESIA 75
observado era de ansiedade e de dor. Dor pela separação
dessa pessoa conhecida, seu objeto cuidador, e ansiedade
como reação ao perigo da perda de quem transmite se-
gurança.
Em outras palavras, ao nascer, a criança se encontra
em situação de extremo desamparo. A partir da percep-
ção gradual disso é que acaba adquirindo o reconheci-
mento da sua dependência e da necessidade do objeto
cuidador. Assim, como reação a uma situação de perigo,
por um deslocamento ulterior ao longo da vida, o senti-
mento de ansiedade reapareceria.
Dessa maneira, uma situação nova a ser enfrentada,
que possa ser vivida como de risco, acrescida da impossi-
bilidade de resolução pelo próprio indivíduo, certamen-
te, de uma forma ou de outra, dará origem à ansiedade.
Não apenas isso, mas também propiciará, através dos
meandros do inconsciente, uma ligação direta e contí-
nua com o sentimento de desamparo infantil, gerando a
necessidade de mais uma vez poder contar com alguém
para o seu cuidado e proteção.
A RELAÇÃO PACIENTE/ANESTESIOLOGISTA
Deixamos para acrescentar por último, não por ser
de menor importância, que um dos medos relatados com
muita freqüência é o de não poder estabelecer uma boa
relação com o anestesiologista. E que imaginar essa pos-
sibilidade é capaz de gerar pânico e sensação de desam-
paro.
Se pensarmos no tipo de cuidado que o paciente
espera receber, além do alívio da dor física, vamos en-
contrar a necessidade de que sejam entendidas as suas
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preocupações com a doença ou lesão que está fazendo
com que seja submetido à cirurgia, como aparece bem
no cartão escrito pelo paciente, ao agradecer ao aneste-
siologista a atenção dada ao problema da sua perna.
Vamos encontrar a necessidade de ter alguém que
escute zelosamente e entenda todos os temores, queixas
e dores que possam surgir. Que acompanhe de perto o
momento da entrada no sono da anestesia, e esteja pre-
sente durante o acordar. E esteja presente até mesmo
depois, se isso se fizer necessário, mantendo o alívio da
dor e, conseqüentemente, da dor mental associada a ela.
Ou seja, que propicie um sono tran-
qüilo, de preferência com bons sonhos
e nenhuma dor, como aquilo que foi
escrito no mesmo cartão.
Estamos então frente à necessidade de um outro
objeto cuidador, que só faltaria dizer, na hora em que o
paciente adormece: “Durma bem e tenha lindos sonhos”,
como as mães costumam dizer muitas vezes aos filhos,
ao colocá-los para dormir.
COMO ENFRENTAR O MEDO
Enfrentar o medo da anestesia poderia começar,
quem sabe, pela compreensão de que nem toda ansieda-
de associada a ele tem cunho apenas realístico, e dessa
forma alguma ansiedade ou medo sempre irá existir, em
maior ou menor grau.
A melhor maneira de aliviar o medo é estabelecer,
sempre que possível, um contato prévio com o aneste-
siologista, acrescentando-se nesse momento uma outra
compreensão: a de que na situação de paciente de um
“Durma bem e tenha
lindos sonhos.”
 ANESTESIA 77
procedimento cirúrgico, frente a uma situação nova como
a anestesia, se depende intensamente do anestesiologista
para o alívio da dor e para a manutenção da vida.
Esse contato, denominado de entrevista pré-anes-
tésica, permite ao anestesiologista avaliar exames, solici-
tar algum outro que possa julgar ne-
cessário e também orientar-se pelo his-
tórico médico e familiar do paciente.