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saude direitos humanos ano7 n7

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as raparigas podem apreender 
e optar, por exemplo, pelos métodos de prevenção que se 
adequam a elas já que o importante mesmo é prevenir. 
Após ter apresentado as percepções sobre a sexualida-
de e do aborto entre os jovens residentes no bairro da Mafa-
lala, a secção a seguir apresentará as conclusões do estudo.
4. Considerações Finais
As percepções sobre a sexualidade estão associadas 
àquilo que os jovens aprendem na família, na qual a relação 
sexual tem por finalidade a procriação. Poucos jovens falaram 
de relações sexuais para o prazer. Isto mostra que, na perspectiva 
médica, os indivíduos são vistos, primariamente, como entidades 
biológicas, negligenciando-se, desse modo, o aspecto social. A 
sexualidade tem uma função social antes de ser individual. Isso 
porque as percepções que os jovens têm sobre a sexualidade são 
algo socialmente construído
Assim, os programas de educação sexual estão sendo ineficien-
tes devido a desconfianças e a incertezas da família nos programas 
de prevenção. As famílias sabem que doenças sexualmente infec-
ciosas existem e que podem ceifar vidas, mas porque os programas 
de educação sexual enfatizam o uso do preservativo, que limita a 
procriação, contrastam com os anseios e a preocupação das famílias 
de alargar a família. 
O aborto é uma prática perigosa, particularmente se realizada 
sem o acompanhamento de profissionais da saúde. Discussões sobre o 
aborto têm sido levantadas pelo Fórum Mulher, mas que ainda não têm 
tido um entendimento do que possa ser feito para apoiar as raparigas e 
mulheres que se encontram em situações de fazer o aborto.
Margarida Paulo Percepções sobre a sexualidade na cidade de Maputo, Moçambique
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Agradecimentos
Agradeço às seguintes instituições e individua-
lidades:
A CODESRIA (Council for the Development of Social 
Science Research in Africa) por ter reconhecido o meu 
trabalho e financiado a pesquisa. 
Ao senhor José Daniel e senhor Carlos Manganhela, 
já falecido, na altura secretário e secretário adjunto do 
bairro da Mafalala, respectivamente, pelo apoio que me 
prestaram durante o trabalho de campo. À senhora Mada-
lena Manjate, na altura chefe do Quarteirão n° 39, Célula 
‘C’ e membro da Organização da Mulher Moçambicana 
(OMM), pela paciência e carinho com que contava parte da 
história do bairro.
À todos os jovens residentes no bairro da Mafalala, em 
particular, aos jovens do grupo Machaca, que aceitaram parti-
lhar suas experiências em relação à sexualidade e ao VIH/SIDA. 
Ao José Bambo, pela assistência no trabalho de campo, 
especialmente na entrevista com os rapazes. Ao Cardoso Tondolo 
pela tradução do texto do Inglês para o Português. 
À Dra. Pércida Langa pela revisão do texto final.
As opiniões expressas neste artigo são da inteira responsabi-
lidade da autora e não são necessariamente compartilhadas pela 
instituição que financiou o mesmo.
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Artigo
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Artigo
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TEIAS DA SAúDE: DESIgUALDADES 
DE SAúDE, SAúDE DAS DESIgUALDADES
Maria Engrácia Leandro*
* Prof. Catedrática de Sociologia do ICS da Universidade 
do Minho e: mail: engrácia@ics.uminho.pt
 “Toda a pessoa tem direito a um nível de vida capaz 
de assegurar a sua saúde, o seu bem-estar e o da sua 
família, sobretudo a alimentação, o vestuário, a habita-
ção, os cuidados médicos, bem como os serviços sociais 
necessários” Declaração Universal dos Direitos do Ho-
mem, artº 25.
Resumo: Este trabalho, numa óptica reflexiva, examina 
concepções e realidades que transformam as desigualdades 
sociais em desigualdades de saúde, ao arrepio dos direitos 
humanos. Apoiada na estratificação social, relações de gênero 
e condições de vida das minorias, colocamos duas questões 
fulcrais: a inscrição da desigualdade social nos corpos faz parte 
de lógicas universais reproduzidas em toda a parte, ou constitui 
antes uma particularidade do mundo moderno, dado que as so-
ciedades antigas eram mais igualitárias e menos medicalizadas? 
Que mecanismos permitem inscrever a ordem social na ordem 
biológica, isto é, como é que as diferenças de estatuto social se 
exprimem em disparidades perante a saúde? 
Palavras-chave: condições sociais, desigualdades, dignida-
de humana, saúde, trabalho
WEB OF HEALTH: HEALTH INEQUALITIES, 
HEALTH INEQUALITIES
Abstract: From a reflective view, this work examines concepts and 
realities that transform the social inequalities in health ones, defying the 
human rights. With the support of social stratification, gender relations, 
and living conditions of minorities, we bring up two key issues: Is the 
inscription of social inequality on the bodies part of universal logic played 
everywhere, or is it rather a modern world peculiarity, since the past socie-
ties were more egalitarian and less medicalized? and What mechanisms 
allow inscribing the social order in the biological order, that is, how the 
differences in social status are expressed in disparities regarding health? 
Keywords: Social conditions, inequalities, human dignity, health, work
Maria Engrácia Leandro Teias da Saúde: desigualdades de saúde, saúde das desigualdades
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Introdução
A preocupação humana com a saúde remonta a 
tempos de antanho. Porém, só nos tempos modernos, 
com o alvorecer do iluminismo, a humanidade passou 
a investir de forma mais racional na melhoria da saúde 
e no combate à doença. Descartes (1628) insurge-se 
contra o ensino duma filosofia especulativa e preconiza 
antes uma outra que seja prática, permitindo conhecer o 
agir das forças da natureza e outros meandros da vida, tal 
como se conhecem os ofícios dos artesãos, facultando aos 
humanos tornarem-se “mestres e possuidores da nature-
za”. Dá, assim, muito mais força à racionalidade científica 
acerca do corpo e da mente, da saúde e da doença, embora 
Hipócrates, nos finais do século IV a. C., com a sua célebre 
teoria dos humores, já tenha apontado nesse sentido. 
Ademais, a ideia segundo a qual a humanidade poderá 
vencer a doença, ainda que continue sujeita à morte – qual 
certeza das certezas - está fortemente imbricada