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Propriedade Intelectual e Acesso ao Conhecimento

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a tecnologia e economia local; e a do concorrente, que o titular terá que 
suportar por um afastamento da incidência do art. 43. 
Por exemplo, imaginemos uma exaustão relativa a marcas que são de um titular francês, 
que possui o registro da marca na Europa e no Brasil, e que abastece o mercado brasileiro por 
meio de um licenciado. O produto é fabricado em Portugal, o licenciado português importa de lá 
e abastece o mercado brasileiro. Ou seja, o titular francês não fabrica esse produto no Brasil, 
incidindo no inciso I do art. 68, e ensejando a licença obrigatória, pois estaria afastando a 
realização dos propósitos do Estado brasileiro. Nesse contexto, surge um concorrente 
importando esse produto dessa marca de um mercado asiático, que por sua vez tinha um 
licenciado autorizado também... Nessa hipótese, o titular tem que suportar a importação paralela 
pelo seu concorrente. 
A importação paralela é uma fórmula acoplada a um instrumento de política industrial, 
além de uma espécie de estímulo adicional para que o titular produza localmente. 
 
 
 
32 
Por Giselle Viana 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Quebra de Patente” 
Art. 71. Nos casos de emergência nacional ou interesse público, declarados em 
ato do Poder Executivo Federal, desde que o titular da patente ou seu 
licenciado não atenda a essa necessidade, poderá ser concedida, de ofício, licença 
compulsória, temporária e não exclusiva, para a exploração da patente, sem 
prejuízo dos direitos do respectivo titular. 
Parágrafo único. O ato de concessão da licença estabelecerá seu prazo de 
vigência e a possibilidade de prorrogação. 
O art. 71 trata da hipótese de licença compulsória em casos de emergência nacional ou 
interesse público (casos de saúde pública, uma epidemia por exemplo). Segundo o artigo, desde 
que o titular da patente não atenda a essas necessidades, poderá ser concedida de ofício licença 
compulsória temporária e não exclusiva. É a figura da popularmente chamada "quebra da 
patente". 
França 
China 
 
Espanha 
Portugal 
Brasil 
Licenciado 1: não 
fabrica só importa 
Importação Paralela! 
Concorrente: 
adquire o produto 
do licenciado 
chinês 
Licenciado 2 
Fabricante 
autorizado 
Coloca o produto 
no mercado 
externo 
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Caderno de Propriedade Intelectual 
Cabe salientar que o titular não será desprovido da patente. Só será obrigado a licenciar 
alguém, e essa licença, apesar de obrigatória, é remunerada e temporária. Essa remuneração 
será arbitrada, conforme o art. 73 paragrafo 6o, e devera levar em conta o valor da patente 
concedida. 
Art. 73. O pedido de licença compulsória deverá ser formulado mediante 
indicação das condições oferecidas ao titular da patente. 
 § 6º No arbitramento da remuneração, serão consideradas as circunstâncias de 
cada caso, levando-se em conta, obrigatoriamente, o valor econômico da licença 
concedida. 
Esse mecanismo busca garantir o equilíbrio entre o interesse público (acesso a 
medicamentos, alimentos, cultura) e o interesse privado. 
Se o Estado implementou a licença compulsória, numa situação de abuso, mas essa licença 
compulsória não foi suficiente para atenuar a situação abusiva, há previsão na nossa lei de 
caducidade da patente. É uma hipótese em que o direito é restringido antes da expiração do 
direito de patente, por um imperativo público. Essa hipótese drástica, todavia, praticamente 
nunca figurou na jurisprudência brasileira. 
Criações biotecnológicas 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CRIAÇÕES 
TÉCNICAS 
INDUSTRIAIS NO 
CAMPO DA 
BIOTECNOLOGIA 
Art. 18, 
III LPI 
Art. 8 LPI 
Art. 10, 
IX LPI 
Produtos 
Processos 
Microorganismos 
trangenicos 
Material 
multiplicação 
vegetativa da 
planta 
Não biológicos 
Biológicos 
artificiais 
Art. 42 LPI 
Art. 27 TRIPs 
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Por Giselle Viana 
No que tange às criações nos campos da biotecnologia, volta à tona a questão da dicotomia 
entre criar e descobrir. Para a propriedade industrial clássica, que surge com o desenvolvimento 
da mecânica e da eletricidade, a distinção entre tais conceitos era muito clara: uma máquina, um 
dispositivo, era desenvolvido e colocado no mundo pelo ser humano, num processo de 
artificialização do mundo inerente à marcha civilizatória que nos distancia do mundo da 
natureza. Na área de eletrônica, também, é clara a distinção entre criar e simplesmente revelar 
aquilo que já se encontra na natureza. 
Contudo, com o advento da microscopia eletrônica dentre outras inovações no campo da 
ciência, tornou-se possível investigar os componentes primeiros da matéria viva (células, DNA). 
A passagem da biotecnologia tradicional, através da qual produzia-se desde há muito produtos 
como o vinho e o pão, para a biotecnologia moderna do século XXI, trouxe problemas no que 
concerne à clareza da distinção entre ciência e tecnologia. 
Pesquisas científicas voltam-se às descobertas, enquanto as tecnológicas voltam-se às 
criações. Criações tecnológicas são frutos do intelecto humano, que, a partir das leis da física, 
biologia e matemática cria algo novo no mundo. Mas, identificar a partir de uma determinada 
espécie viva (que está, portanto, na natureza) as frações de seu DNA, seria descobrir ou criar? 
Quando chegamos na parte microscópica do ser vivo encaramos esse problema. 
Vivant compara criações e descobertas pontuando que a percepção humano da própria 
realidade, ou seja, o que identificamos fora do “eu”, passa por um crivo muito subjetivo. Tendo 
isso em vista, não seria verdade que a própria descoberta já estaria contaminada, 
inevitavelmente, pelo nosso próprio subjetivismo? 
Essa questão ganha grande importância no campo da propriedade intelectual, pois implica 
questionar se materiais vivos são passíveis de apropriação, ou seja, se poderiam ser 
considerados propriedade de alguém. A resposta a isso afeta vários campos, sobretudo o da ética, 
da moralidade: se a matéria viva é passível de apropriação, então em última instancia a matéria 
extraída do ser humano também seria? Isso não seria uma reificação, que afetaria a dignidade humana? 
Se o corpo humano é uma projeção da personalidade humana, o corpo sem vida continua sendo? 
Todavia, os agentes econômicos tem que ter uma rede de protecao contra a copia pelos 
concorrentes dos resultados de suas pesquisas. Afinal, há um interesse da sociedade muito 
grande em relação ao acesso dos frutos dessas pesquisas, que podem consistir em novos 
tratamentos, remédios, etc. 
No nosso ordenamento, houve uma transposição do acordo TRIPs para a lei interna. Esse 
acordo prevê uma possibilidade de escolha ao legislador interno de adotar determinadas 
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Caderno de Propriedade Intelectual 
exceções de patenteabilidade. O legislador brasileiro, diante dessa possibilidade, optou por 
excluir plantas, animais e processos biológicos para sua obtenção. 
Como vimos no art. 10 da LPI, há diversas hipóteses das quais se exclui a patenteabildiade. 
Cabe ressaltar os incisos VIII e IX: 
VIII - técnicas e métodos operatórios ou cirúrgicos, bem como métodos 
terapêuticos ou de diagnóstico, para aplicação no corpo humano ou animal; e 
IX - o todo ou parte de seres vivos naturais e materiais biológicos encontrados 
na natureza, ou ainda que dela isolados, inclusive o genoma ou germoplasma de 
qualquer ser vivo natural e os processos biológicos naturais. 
Observe-se que os métodos previstos no inciso VIII eventualmente podem ser protegidos 
em países mais flexíveis, como os EUA. A justificativa aqui, para serem impassíveis de patente, é 
que esses métodos não teriam aplicação industrial. Mas essa exceção não abrange os 
equipamentos (a medicina