Propriedade Intelectual e Acesso ao Conhecimento
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Propriedade Intelectual e Acesso ao Conhecimento


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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULOFACULDADE DE DIREITO DO LARGO SÃO FRANCISCO
PROPRIEDADE INTELECTUAL E ACESSO AO CONHECIMENTO
PROFª JULIANA KRUEGER PELA
JULIANA R. M. SOARES186-13
PROPRIEDADE INTELECTUAL E ACESSO AO CONHECIMENTO
PROFª JULIANA KRUEGER PELA
PARTE GERALAula 1: 04/08Introdução - \u201cbrainstorm\u201d A propriedade intelectual é, como o nome sugere, uma forma de propriedade sobrebens imateriais, intangíveis. A propriedade intelectual destina-se não à proteção de ideias,mas sim à proteção da forma de expressão das ideias. O direito de usar o bem físico no qual aideia foi expressa (por exemplo, o direito de ler um livro escrito por outra pessoa) não éexclusivo do proprietário; o que é exclusivo dele é o direito de exploração econômica daquelebem. Em relação à bens tangíveis, o principal interesse existente é o privado; o interessepúblico surge na forma da função social da propriedade, ou seja, no reconhecimentoconstitucional de que o exercício da propriedade atenda aos interesses da coletividade. Afunção social não se aplica, no entanto, a todo e qualquer tipo de propriedade: os bens deconsumo, por exemplo, são eminentemente privados e em relação a eles não cabe aconsideração do interesse público. O interesse público precisa ser considerado quandotratamos de bens de produção, que são bens tangíveis cuja utilização afeta consideravelmenteo resto da sociedade. É em relação a este tipo de bem que o direito de propriedade deve serfuncionalizado. Desta forma, na propriedade sobre bens tangíveis, o interesse prioritário é o privado,e o público aparece secundariamente, em relação aos bens de produção, na forma da funçãosocial da propriedade. No caso da propriedade de bens intangíveis, no entanto, o interessepúblico é considerado mais importante por causa da necessidade de divulgação doconhecimento. Se tratássemos a propriedade de bens intangíveis da mesma forma quetratamos a de bens tangíveis, apenas o proprietário teria acesso às suas \u201cideias\u201d, a propriedadeseria perpétua e haveria um monopólio permanente, podendo o proprietário colocar o preçoque desejasse como condição para que outros tivessem acesso a seu bem. Se a propriedadeintelectual fosse máxima, tudo seria privatizado, tudo teria dono, e não existiria domíniopúblico (nem, consequentemente, acesso ao conhecimento, o que prejudicaria gravemente odesenvolvimento cultural-tecnológico da sociedade). Por outro lado, se não houvesse propriedade intelectual em absoluto, não haveria,primeiramente, incentivo para a criação. Se o uso e a exploração são completamente livres,ocorre o efeito \u201cfree riding\u201d: qualquer pessoa pode usufruir ou copiar a criação alheia, e ocriador não tem nenhum tipo de proteção contra isso (o que é, sem dúvida, um grandedesestímulo). Este problema esteve presente no Brasil há algum tempo atrás, por exemplo,quando não havia no ordenamento jurídico brasileiro a possibilidade de patentearmedicamentos. Existem ainda segmentos do mercado em que não há propriedade intelectual,seja porque o ramo de atividade não se encaixa nas situações protegidas por lei, seja porqueos próprios profissionais preferem não submeter suas criações à propriedade intelectual(moda, gastronomia, etc.). Nestes segmentos, o mercado se organiza de forma que apropriedade intelectual não é tão necessária (a indústria fonográfica também é um ótimoexemplo \u2013 a banda Radiohead há algum tempo disponibilizou o álbum \u201cRainbows\u201d paradownload, sem custo).A propriedade intelectual é um instrumento de políticas públicas e de políticas
econômicas e possibilita o desenvolvimento da sociedade.Aula 2: 11/08Fundamentos da propriedade intelectualComo já foi dito, o objeto da propriedade intelectual são os chamados bens imateriais,aqui com o sentido de criações, invenções do intelecto humano. A propriedade intelectualprotege, no entanto, não apenas a ideia, mas a expressão daquela ideia. Para os economistas, oobjeto da propriedade intelectual é a informação. A propriedade intelectual protege aexpressão da ideia, expressão esta que pode estar consubstanciada em um bem físico, queserve de suporte para esta expressão. O suporte para a propriedade intelectual não é, noentanto, necessariamente um bem físico (pode ser um arquivo eletrônico, por exemplo). A divisão da propriedade intelectual se dá entre propriedade industrial e direito do
autor (propriedade artística, literária e científica). O direito de autor é o que compreende asobras literárias, artísticas e científicas; a propriedade industrial diz respeito a todas ascriações que tem a ver com a atividade industrial (ou empresarial, atualmente).Tradicionalmente, o direito do autor protege uma emanação do espírito, da personalidade doautor. A propriedade industrial, por outro lado, está mais relacionada a uma economia demercado. Esta distinção lembra o critério utilizado pelo Direito Comercial para definir o que é eo que não é empresa: sendo o empresário aquele que exerce profissionalmente atividadeeconômica destinada ao mercado, ficam excluídas do conceito de empresa as atividades decaráter intelectual (artísticas, científicas e literárias). Diz-se, portanto, que o direito do autortem preocupação com a estética, com a arte, enquanto a propriedade industrial se preocupacom a técnica. No caso do direito do autor, a criação causa uma mudança no interior dodestinatário, enquanto uma criação de propriedade industrial causa uma mudança externa, narealidade que aquela pessoa vive. No direito do autor, portanto, vê-se algo muito menoscomercial, uma emanação da própria personalidade do criador, enquanto na propriedadeindustrial há sempre preocupação com o retorno do investimento.Desta forma, no direito do autor, existem dois aspectos: o aspecto moral e o aspecto
patrimonial. A doutrina tradicional enxerga o direito do autor sob o prisma dos direitos dapersonalidade, por um lado (o resultado do impulso criativo do criador é uma emanação desua individualidade). Este aspecto moral do direito do autor é inalienável, imprescritível,irrenunciável. Na propriedade industrial, não há este aspecto moral; perde-se toda a dimensãopersonalíssima que se tem no direito do autor. A propriedade industrial não é, portanto,associada ao indivíduo.Estes conceitos são tradicionais e a linha entre a propriedade industrial e o direito doautor em algumas situações é mais tênue do que parece. Existem, por exemplo, obrasliterárias, científicas ou artísticas com conteúdo destinado a uma finalidade prática, que nãosão exatamente (ou somente) emanações da personalidade dos autores (ex.: escritores demanuais; mercado de títulos Rembrandt), da mesma forma que existem obras de arte sendoutilizadas com finalidade publicitária (ex.: Romero Brito, arte produzida em larga escala parao mercado). O que é importante é que, tanto na propriedade industrial quanto no direito do autor,quando se diz que há proteção do bem imaterial, existe uma preocupação com areprodutibilidade da obra. É protegida uma ideia expressa, mas o que se pretende dar aotitular do direito é o direito de explorar economicamente sua criação com exclusividade. Este éo cerne da propriedade intelectual: a proteção da reprodutibilidade e a preocupação com a
exploração econômica. No caso de comercialização de livros usados, ou até mesmo de cópiasdigitais de livros, o que acontece não é a transferência da propriedade intelectual, pois trata-se
do objeto, de onde a ideia está consubstanciada; quando se fazem cópias de um livro, noentanto, a situação é diferente, pois as cópias dizem respeito ao conteúdo, que passará a serdivulgado. No Brasil, existe uma lei específica para o direito do autor e outra para a propriedadeindustrial. Em relação aos softwares, existe outra lei específica que aplica