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Propriedade Intelectual e Acesso ao Conhecimento

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existenciais e à religiosidade, passando depois a terfinalidade de entretenimento (a magia secular). De início, os mágicos eram tidos como párias,isolados do resto da sociedade; posteriormente a mágica passou a se desenvolver dentro deuma indústria própria e seus praticantes passaram a ser mais populares. Foi no século XIX quea magia secular se desenvolveu plenamente como arte teatral. Nesta época, antes da televisão
e da Internet, os mágicos viajavam ao redor do mundo expondo seus truques. A mágica passoua trazer dinheiro, fama e prestígio social. Este foi um período de grande criatividade einovação para esta indústria e foi nesta época também que surgiram os institutos quepermitiam que os mágicos compartilhassem seus conhecimentos profissionais uns com osoutros (instituições estas que permanecem até hoje).Várias revistas só para mágicos começaram a surgir. Hoje em dia, as principais sãoGenii, Magic, e The Linking Ring. Nestas revistas, os mágicos publicam ideias para truquesnovos, fazem adaptações de truques novos, trocam conselhos, etc. Nesta época surgiramtambém muitos livros de mágica. Estes livros eram escritos normalmente por mágicos bem-sucedidos que descreviam truques que tinham criado e aperfeiçoado ao longo de sua carreira.Esta prática continua atualmente e os livros são normalmente publicados por editorasrelacionadas à indústria da mágica. Esta “era de ouro” também representa o surgimento deestabelecimentos que comercializavam coisas próprias para a realização dos truques.Surgiram também organizações e redes que possibilitavam que os mágicos se conectassemuns com os outros (como a Society Of American Magicians surgida em 1902 que teve HarryHoudini como um de seus primeiros presidentes). Estas organizações ainda existem,formando redes que conectam mágicos ao redor de todo o mundo que se reúnem paraconvenções, palestras, exibições. Existem também reuniões e clubes mais informais. Todasestas organizações variam quanto à exclusividade.As ideias passam, portanto, a circular livremente por toda a comunidade mágica.Normalmente, um mágico cria um truque, mantém o segredo por um tempo e, depois de já terusufruído o suficiente da exclusividade, o compartilha com os outros mágicos. Os mágicosestão sempre procurando o truque mais novo ou mais esperto para adicionar a seusrepertórios. Os mágicos que compartilham seus truques gozam, inclusive, de certo prestígiodentro da comunidade – até porque outros mágicos poderão adaptá-lo, melhorá-lo, etc. Todoeste processo de compartilhamento fez com que os truques fossem ficando cada vez melhoresao longo dos séculos. Os mágicos acreditam, inclusive, que é muito raro encontrar truques quenão tenham sido alterados de forma alguma. Os mágicos conseguem, mesmo realizandosempre os mesmos truques, acrescentar inovações consideráveis. A inovação no mundomágico é cumulativa. Alguns dos truques mais populares de mágica atualmente são frutojustamente de todo este processo (truque dos copos e bolas, por exemplo). Existem muitasversões do mesmo truque, mesmo que ele seja antigo e conhecido. O compartilhamento destes truques é feito, no entanto, em níveis diferentes. Ocompartilhamento de segredos ocorre, falando de forma um pouco simplificada, em trêscanais diferentes: (1) primeiro, existem os truques básicos e “baratos”, vendidos em lojas nãotão especializadas, ou descritos em livros também não especializados (magia popular); (2)depois, vem os truques e segredos compartilhados por mágicos em livros, conferências,palestras, revistas, que são os truques básicos dos mágicos profissionais e até de algunsamadores entusiastas (magia comum); (3) finalmente, o terceiro canal é mais informal e maisseletivo, escolhendo apenas os melhores truques, mais espertos e mais inovadores (magia
proprietária). Sobre o roubo das ideias de outros mágicos sem permissão (como o caso das flores de deKoltae da moça flutuante de Maskelyne, truques famosos que foram roubados), é inegável que elesocorrem, mas são raros. Os mágicos parecem achar que roubar ideias “não compensa”: partedisso é porque os mágicos acreditam que os truques sejam apenas parte de seu show, sendo aoutra parte a performance e o público. Além disso, da mesma forma que um mágico rouba umsegredo de outro, um terceiro mágico pode roubar dele e prejudicá-lo (como aconteceu nosdois exemplos citados). Os mágicos levam, portanto, o roubo mais a sério do que as outrasindústrias. O principal perigo para os mágicos não é, no entanto, o roubo de suas ideias: é aexposição de seus segredos profissionais ao público. As exposições desvalorizam o trabalho
dos mágicos, até mesmo as falsas. Alguns mágicos dão mais importância ao dano causado,outros menos. Alguns acreditam que se um truque for revelado, basta que o mágico inventeoutro (primeiro argumento); outros acreditam que os segredos são impagáveis e sem valor aomesmo tempo, porque são importantes, mas são apenas parte do que um mágico faz (segundoargumento). Os truques requerem, no entanto tempo e investimento para seremdesenvolvidos; além disso, existe uma diferença entre o que é necessário para um mágico e oque é suficiente: só porque o segredo não é suficiente não quer dizer que ele sejadesnecessário (a mágica deixaria de ser mágica sem o segredo). Os segredos mágicos, apesarde serem bens intangíveis, não possuem a não-rivalidade característica destes bens protegidospela propriedade intelectual. A exposição revela o segredo e faz com que ele perca o valor. A segunda parte do texto é dedicada a investigar quais são os limites da proteçãojurídica da propriedade intelectual e de que maneira ela se compatibiliza (ou não) com asnecessidades dos mágicos (sendo a tese do autor que o direito de propriedade intelectualfalha em proteger o bem intelectual mais importante dos mágicos). O primeiro aspecto dapropriedade intelectual relevante para a mágica é o copyright. Nos EUA, o copyright éassegurado para proteger trabalhos dramáticos e coreográficos, o que claramente permite queele seja utilizado para proteger a mágica. No entanto, a proteção se restringe aos trabalhos quesão consubstanciados em algum bem físico: os mágicos podem proteger, por exemplo, vídeos e
scripts contendo suas performances, mas não podem proteger o bem mais criativo de todos,que é a performance ao vivo. Outro defeito da proteção do copyright em relação à mágica é queos truques mágicos em si não podem ser alvo de proteção (isso é enfaticamente excluído pelalei). Os dois aspectos mais importantes da mágica, que são a performance ao vivo e a formacomo o truque é realizado, não podem ser protegidos por copyright, portanto. A patente seria outra forma possível de proteção. No caso das patentes, é possívelproteger ideias (ao contrário do que acontece com o copyright). Muitos mágicos, durantemuito tempo, entendiam suas criações de truques como criações científicas e as patenteavam;no entanto, descobriu-se um inconveniente muito grave do sistema de patentes: parapatentear um truque, seria preciso revelá-lo, e isso, como já vimos, causa prejuízos severos aosucesso da mágica (como o que aconteceu com o truque de serrar uma moça no meio, deHorace Goldin, que havia sido patenteado e, por isso, ele não pôde reclamar quando outrapessoa expôs o truque numa revista). Alguns mágicos do século XIX tentaram preservar umpouco do segredo colocando descrições vagas os truques nas patentes, mas isso não seriaadmissível no direito moderno (que deixa claro que a descrição deve ser detalhada parapermitir o uso). Desta forma, são pouquíssimos os mágicos que, atualmente, patenteiam suascriações. A área da propriedade intelectual que parece ser a mais promissora aos mágicos é o
trade secret, que permite que os truques mágicos sejam protegidos, mas mantidos em