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Propriedade Intelectual e Acesso ao Conhecimento

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subsidiariamente asdisposições sobre direito do autor (considerando o software uma obra literária, pois ele podeser descrito em linguagem comum). Ainda sobre a divisão da propriedade intelectual entre propriedade industrial edireito do autor, o que é considerado irrenunciável no direito do autor é o aspecto moral (oreconhecimento do indivíduo como criador daquela obra); o aspecto patrimonial é alienável.Na propriedade industrial, estão incluídas as marcas, as patentes, as criações industriais e aproteção da concorrência desleal. A marca é um sinal distintivo. Os sinais distintivos daatividade empresarial são o nome empresarial, o título do estabelecimento, as marcas, osnomes de domínio. Estes sinais podem ser de diversas espécies. O nome empresarial é o nomeda empresa; no caso de ela ser personificada, é o nome da pessoa jurídica que coloca os bens eserviços no mercado. O título do estabelecimento é o nome que está exposto ao público,através do qual eles podem identificar a atividade, a “fachada” (ex.: o nome empresarial éCompanhia Brasileira de Distribuição e o título do estabelecimento é Pão de Açúcar). Marca ésinal distintivo do próprio produto ou serviço que está sendo colocado no mercado; oslogotipos fazem parte das marcas, sendo que elas podem ser figurativas, nominativas ou osdois. O nome de domínio é o “título de estabelecimento virtual”. As marcas servem, economicamente, como “atalhos”, que diminuem os custos decomunicação e transação (é mais fácil se comunicar com o consumidor através da marca); esteé o entendimento de marca dos economistas. As marcas, apesar de envolverem certo exercíciocriativo, não é exigido alto grau de inventividade (os economistas dizem que a marca é, naverdade, escolhida, não criada). A lógica das marcas é contrária aos fundamentos dapropriedade industrial: quanto mais investimento elas exigem, menos possibilidade existe deessa marca cair em domínio público e mais privatizada ela se tornará. É por isso que, nadisciplina jurídica das marcas, elas podem vigorar no controle privado por tempoindeterminado. A repressão à concorrência desleal é uma forma residual da proteção da propriedadeindustrial. As patentes concedem aos titulares o monopólio da exploração da criação portempo determinado. No caso dos segredos industriais, os titulares são protegidos enquantoconseguirem guardar o segredo; a única coisa que a lei protege é a fraude na obtenção dosegredo e esta proteção é feita pela repressão da concorrência desleal. A vantagem dossegredos em relação às patentes é que os segredos não tem tempo determinado: enquanto apatente pode durar, por exemplo, vinte anos (e pressupõe uma divulgação), o titular podeconseguir manter seu segredo durante muito tempo, mais de vinte anos até. A fórmula daCoca-Cola, por exemplo, nunca foi patenteada. Se alguém descobre um segredo industrial, noentanto (sem nenhum meio fraudulento) não pode patenteá-lo, pois ele não é original. Aula 3: 18/08Origem e evolução histórica da propriedade intelectual e Tratados internacionais depropriedade intelectualA possibilidade de reprodução de obras literárias, científicas ou artísticas (de ideias)surgiu com a invenção da prensa móvel por Guttenberg. Existe uma dúvida sobre o que surgiuantes: o direito de autor ou a propriedade industrial. O que se encontra a partir de estudosaprofundados da história do direito comercial é que a propriedade industrial surge antescomo ramo do direito por causa da extrema importância econômica dos bens imateriais
tutelados por ela. Na Antiguidade, a propriedade intelectual, como ramo do direito que tutela ascriações artísticas, não existia. A criação da prensa móvel aconteceu na Idade Média e, como jáfoi dito, constitui um marco importante por possibilitar a reprodução da obra. Antes, com aconfusão da obra em si com o objeto físico no qual ela estava representada, não havia comoexistir propriedade intelectual. Depois, com a possibilidade de reprodução, tornou-se possíveldistinguir a ideia de seu suporte físico e, consequentemente, pensar em propriedadeintelectual. É no período mercantilista que começam a haver privilégios em relação à exploraçãoeconômica das criações. A ênfase da proteção está, no entanto, sobre o editor, e não sobre oautor: protege-se quem pode reproduzir a obra, e não quem a criou. Isso representa umainversão em relação á finalidade que o direito de propriedade intelectual tem atualmente.Outra particularidade desta época é que, para o privilégio ser concedido, não há nenhumaexigência de novidade. Esta é uma propriedade industrial muito embrionária, sem os critériosque temos hoje. Data também do período mercantilista a tutela dos sinais distintivos. Os sinaisdistintivos são protegidos pela propriedade industrial porque sua tutela data da mesma época.Os primeiros conjuntos de normas que regem as patentes datam de 1474 e 1624, e são a Leide Patentes de Veneza e o Statute Of Monopolies na Inglaterra. O interessante sobre estas leis é que nelas já se observa uma exclusividade temporáriapara a exploração, ou seja, o monopólio é limitado por certo período de tempo. O tempo devigência das patentes foi fixado com base no tempo de experiência dos aprendizes nascorporações de ofício para que eles se tornassem mestres. Há também a exigência de usoindustrial das criações e regras similares às atuais em relação à divulgação do conhecimentoprotegido. Para a propriedade intelectual, é importante considerar as mudanças trazidas pelaRevolução Francesa. A Revolução trouxe o fim dos privilégios baseados no Antigo Regime. Osdireitos passam a ser destinados á todos, e não só a uma pequena parcela da população. Issofaz com que o foco da proteção volte para o autor, e há o entendimento de que as criações sãoemanações do espírito e inerentes à personalidade dos criadores. Está ligada à RevoluçãoFrancesa a ideia de direito moral do autor. Na França, passou a existir, portanto, uma nova leique regulava os bens imateriais, tornando os autores e inventores os protagonistas da tutela.Na história da propriedade intelectual, começa a haver uma necessidade deharmonização dos diversos direitos locais e estatais de propriedade intelectual. Estanecessidade existe mais na propriedade intelectual do que nos outros ramos justamente porse tratar de um ramo que tutela bens imateriais, que facilmente podem ultrapassar fronteirasterritoriais, além do fato de que o próprio criador pode mudar de lugar. Além disso, existe aquestão do acesso ao conhecimento e do progresso tecnológico. Ocorre o fenômeno dedesterritorialização da propriedade intelectual e isso ficou mais claro com o desenvolvimentodo comércio internacional. A propriedade intelectual passou a ser um “problema” para ocomércio internacional: bens eram transportados de um país a outro e eram apreendidos, poisos regimes de propriedade intelectual dos países eram diferentes e uma mercadoria saída dopaís A poderia ser considerada violadora de uma patente no país B.No Brasil, a proteção da propriedade intelectual surgiu com a vinda da família realportuguesa para o Brasil e a abertura dos portos. Primeiro surgiu a proteção da propriedadeindustrial e posteriormente a proteção dos direitos autorais (por inspiração da Convenção deParis e da Revolução Francesa). O primeiro caso de disputa de marcas no Brasil foi o caso doRapé Areia Preta, que deu origem à primeira Lei de Marcas.Passamos agora para o tema da harmonização da propriedade intelectual através dosacordos internacionais. Os acordos podem ser bilaterais (entre dois Estados) ou multilaterais(entre vários Estados para definir regras gerais). Os acordos bilaterais são a forma mais fácil
de um país desenvolvido impor restrições a um país em desenvolvimento. Os acordosmultilaterais surgem justamente para tentar evitar que os