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Propriedade Intelectual e Acesso ao Conhecimento

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países, por acordos bilaterais,deixem de respeitar determinados limites. O sistema jurídico de propriedade intelectual deum país precisa se inserir num sistema internacional mais amplo.A Convenção de Paris (conhecida pela sigla CUP), de 1883, trata de propriedadeindustrial, por sua maior relevância econômica e concorrencial. Esta convenção inaugura ochamado Sistema Internacional da Propriedade Industrial. Ela tem por objeto as criações, asmarcas e a repressão à concorrência desleal. As principais regras que informam a CUP sãoprincípios gerais que devem ser seguidos pela legislação interna de cada um dos países: 
1. igualdade de tratamento entre nacionais e estrangeiros: evita que os países utilizem apropriedade intelectual com fins protecionistas;
2. prioridade unionista: se uma patente foi depositada no país 1, terá efeitos no país 1; aprioridade é uma regra que permite ao titular depositar sua patente no país 2 (épreciso que a patente seja registrada em tantos países quantos os que a pessoa querque ela tenha efeito), e este protocolo retroage à data do primeiro protocolo, ou seja, écomo se o depósito no país 2 tivesse sido feito na mesma data do depósito feito no país1; o período de tempo de concedido pelo princípio da prioridade é de doze meses parapatentes e seis meses para marcas e quem protocola tem a presunção de fato de ser oinventor; 
3. independência de registro: o registro vale apenas para o país em que foi feito (é por issoque, se o criador quer que sua patente tenha efeito em outro país, deve registrá-la nesteoutro país também); é possível que um mesmo registro seja aceito pelo país A e negadopelo país B;
4. territorialidade: a patente só produz efeitos no país em que ela foi concedida.A Convenção da União de Berna, em 1886, trata dos direitos autorais. As principaisdeterminações impostas por ela são as seguintes:
1. igualdade de direitos entre nacionais e estrangeiros;
2. limitação temporal mínima para a proteção: tempo de vida do autor mais cinquentaanos, prevalecendo o interesse privado;A Convenção de Estocolmo, de 1967, revisou o que havia sido estabelecido nestasduas convenções anteriores e criou a Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI).Esta organização integra o sistema das Nações Unidas: são signatários dela todos os membrosdas Nações Unidas e, em tese, os conflitos entre países envolvendo propriedade intelectualpodem ser resolvidos por ela. As Nações Unidas passam a ter, desta forma, uma funçãoeducacional em reação à propriedade intelectual, e também de manutenção das regras. Estes mecanismos todos são, apesar de representarem um avanço, incipientes emuitas vezes não funcionam como seria esperado. Uma solução para a ineficiência ocasionaldeles é a assinatura dos TRPIs (Tratados Regionais sobre Propriedade Intelectual), sob oregime da Organização Mundial do Comércio (OMC), o que torna a sanção no caso dedescumprimento muito mais grave. Aula 4: 25/08TRIPS Nos países desenvolvidos, a principal preocupação que existe em relação àpropriedade intelectual é a proteção mais rígida do direito do autor e do inventor, pois estespaíses são exportadores de conhecimento e tecnologia. Nos países em desenvolvimento, poroutro lado, a preocupação que existe é com o acesso ao conhecimento e à tecnologia, sendo aproteção da propriedade intelectual mais flexível. Estes países permitiram a existência dezonas negativas de propriedade intelectual para possibilitar o desenvolvimento industrial
(especialmente em relação a produtos químicos, farmacêuticos e alimentícios). Os países desenvolvidos se aproximam mais, portanto, de uma propriedadeintelectual máxima, enquanto os países em desenvolvimento se aproximam da propriedadeintelectual mínima. Passa a haver, por causa destas zonas negativas, um conflito internacional,na medida em que o Brasil, por exemplo, não reconhecia patentes sobre alguns tipos deprodutos; a indústria brasileira passou a ser acusada de pirataria. O comércio internacionaldepende, desta forma, das regulações internas dos países a respeito da propriedadeintelectual. Como resultado das negociações internacionais a este respeito, surge o TRIPS. Elesurge em uma das rodadas de negociação do GATT. O GATT é um acordo internacional sobrecomércio e tarifas (tem a função de supervisionar o comércio internacional através dafiscalização de tarifas, barreiras alfandegárias, etc.). Foi neste acordo que surgiu a OMC. Ospaíses signatários do GATT se reuniam em rodadas para rediscuti-lo. Em uma destas rodadas(a do Uruguai, mais especificamente) ocorreu a negociação do TRIPS (havia o reconhecimentode que a propriedade intelectual estava obstruindo o comércio internacional e isso tornavapertinente sua discussão dentro do GATT). O TRIPS foi negociado e assinado em 1994 (muito posterior à criação do GATT, queaconteceu em 1947). A vantagem de o TRIPS ser um acordo regulado pela OMC (assim como oGATT) é que os conflitos que violem suas disposições podem ser solucionados no âmbito daOMC, com a possibilidade de uma retaliação no caso de descumprimento, que pode ser umaretaliação dentro do mesmo acordo (ex.: um país que descumpriu o TRIPS terá imposta poroutro país uma retaliação no âmbito da propriedade intelectual) ou em outro acordo (ex.: odescumprimento do TRIPS pode gerar sanção que diz respeito a outro acordo, como o GATT).De acordo com o art. 65 do TRIPS, o prazo para sua aplicação no âmbito nacional decada país era de 1 ano (ou seja, para que o país adaptasse sua legislação nacional sobrepropriedade intelectual ao TRIPS); os países em desenvolvimento, no entanto, tinham afaculdade de prorrogar este prazo por 4 anos. O Brasil, contudo, rejeitou esta faculdadeconcedida pelo artigo (para mostrar um compromisso do Brasil com os interesses dos paísesdesenvolvidos em implementar o TRIPS rapidamente). No entanto, não bastava a meraaceitação do Brasil para que o TRIPS fosse implementado aqui. Toda a legislação brasileirasobre propriedade intelectual era contrária ao TRIPS; seria necessário, portanto, revogar a leinacional e reformá-la, para que ela passasse a estar de acordo com o TRIPS. É importante dizer que o TRIPS apenas estabelece diretrizes mínimas para cada paísdisciplinar a propriedade intelectual (havendo, inclusive, áreas nas quais o acordo é neutro).Suas regras devem ser entendidas como uma base para a formulação da legislação sobrepropriedade intelectual de cada país (ele estabelece limites; é uma “moldura). Quando um paísvai além de uma proteção exigida no TRIPS (quando protege mais o autor/inventor) diz-seque o direito interno do país é TRIPS plus. Sobre as disposições do TRIPS, seu preâmbulo é fundamental para a compreensão deseu conteúdo. É a descrição de princípios fundamentais do TRIPS. É nele que se encontra ofundamento de toda a disciplina de propriedade intelectual: reconhece tanto os direitos deproteção dos criadores/inventores nos países desenvolvidos quanto os direitos dos paísesdesenvolvidos de ter acesso ao conhecimento e busca conciliar estes interesses (apesar de issonem sempre ser possível, é claro). Para serem signatários do TRIPS, os países precisam obrigatoriamente aderir àConvenção da União de Paris e à Convenção de Berna. O TRIPS exige, portanto, uma adesãoprévia e obrigatória ao sistema de propriedade intelectual já existente; esta exigência derivade uma preocupação com a coerência da regulação da propriedade intelectual no âmbitointernacional. Outra regra importante é que os países, após aderirem ao TRIPS, podemproteger a propriedade intelectual mais (desde que isso não vá contra outras disposições doacordo), mas não pode proteger menos (já que o TRIPS já estabelece as bases mínimas). Esta é
a regra que permite o TRIPS plus.Além disso, o TRIPS reforça as Convenções anteriores ao estabelecer a igualdade