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Propriedade Intelectual e Acesso ao Conhecimento

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deproteção para nacionais ou estrangeiros e determina também um tempo mínimo de proteção(adotando o mesmo tempo que a Convenção de Berna: vida do autor mais cinquenta anos;marcas, sete anos; patentes, vinte anos). O TRIPS estabeleceu também a obrigatoriedade daspatentes em certas áreas; ele proibiu, portanto, a existência de zonas negativas de propriedadeintelectual em algumas áreas (nas áreas que geravam mais conflitos). Algumas destas áreassão medicamentos, alimentos e químicos (esta foi talvez a maior concessão feita por países emdesenvolvimento ao aderir ao TRIPS). Para o Brasil, o TRIPS trouxe uma inovação importante, que foi a patente pipeline.Passa a haver uma lei que autoriza que aqueles que tinham depósito no exterior de patentesde alimentos, químicos ou farmacêuticos, ou que tinham divulgado sua criação no Brasil,tenham um prazo de um ano para que estas patentes sejam depositadas no Brasil e passem avaler aqui (retroatividade). Este regime foi altamente questionado (Denis Borges Barbosaacredita que ele seja inconstitucional, enquanto Canotilho acredita que é constitucional). Direito de autorO direito de autor se aplica ás produções artísticas, científicas e literárias (“criaçõesdo espírito”). Por seu objeto, ele é visto como direito da personalidade (influência dosprincípios e ideais da Revolução Francesa). Isso é diferente da propriedade industrial, queengloba marcas, patentes, proteção da concorrência desleal, etc., e que tem por objeto criaçõesdestinadas á economia de massa e à indústria (criações com finalidade prática.O direito de autor é diferente do direito à imagem (apesar de serem ambos direitos dapersonalidade). O objeto de proteção em cada um dos casos é diferente. O direito de imagemdiz mais respeito à proteção de características da personalidade do indivíduo, enquanto odireito de autor diz respeito à proteção da personalidade da pessoa no que diz respeito á obraque ela criou. Aula 5: 01/09Direito de autor – continuaçãoO direito de autor é um direito fundamental, constitucionalmente protegido nostermos dos incisos XXVII e XXVIII do art. 5º da CF. A Constituição não só reconhece a proteçãodo direito de autor, como reconhece sua transmissibilidade para seus herdeiros e váriosdireitos conexos. A lei específica que disciplina o direito de autor foi elaborada 1998 (Lei nº9.610/1998), na época pós-TRIPS, tendo surgido justamente para atender aos parâmetrosdeste acordo. O objeto de proteção desta lei são todas as criações do espírito, veiculadas emqualquer suporte (art. 7º da referida lei). A lei protege, portanto, qualquer criação expressaem qualquer meio. É protegida, portanto, não a ideia, mas a forma de expressão da ideia. A lei veda, portanto, a cópia da forma de expressão da ideia, ou seja, a cópia dosuporte. O suporte pode ser tangível ou intangível (arquivos eletrônicos, por exemplo). A leitraz um rol exemplificativo de tudo que estaria dentro do direito de autor no art. 7º. Osprogramas de computador são protegidos por direito de autor no ordenamento brasileiro (enão por propriedade industrial), em conformidade com a disposição do TRIPS que determinaque os programas de computador são considerados obras literárias (e, portanto, passíveis deproteção por direito de autor). Um exemplo de obra científica é um paper, escrito por um determinado pesquisador. Éimportante dizer que, se este paper contiver a descrição de um procedimento ou fórmula paraa produção de um determinado medicamento, por exemplo, o fato de o autor ser protegido
por direito de autor em relação à ideia expressa na forma daquele paper, não significa que eleautomaticamente será titular da patente caso o medicamento seja produzido: opatenteamento, seguindo o regime da propriedade industrial, está sujeito à funcionalidade dafórmula (a fórmula precisa ser produzida e é preciso que ela seja eficaz para os efeitos quepretende). O direito de autor, ao contrário da propriedade industrial, é altamente abrangente. Oart. 8º diz o que não pode ser protegido pelo direito de autor e, ao contrário do art. 7º, tem umrol taxativo, e não exemplificativo. Estão neste artigo, inclusive, como objetos não passíveis deproteção, as ideias. Nestes casos, os objetos já nascem em domínio público. A exclusão daproteção do direito de autor (criando uma zona negativa de direito de autor) tem comoconsequência deixar que aquele conhecimento fique em domínio público e facilitar o acesso.Todas as exclusões são, desta forma, maneiras de proteção do interesse público e de garantir adifusão do conhecimento. A exclusão se dá também, pelo inciso VII do art. 8º, para que determinados objetossejam regulados pela propriedade industrial (outra forma de proteção de propriedadeintelectual). A exclusão pode se dar ainda para objetos que em tese seriam protegidos pelodireito de autor, mas que são considerados mais importantes para o interesse público ( fair useou safe harbour). Este último caso acontece nos termos do art. 46 da lei sobre direito de autor.Mesmo nestes casos, é sempre preciso citar o autor (os aspectos morais do direito de autordevem ser observados sempre, apenas os patrimoniais é que podem ser derrogados). Ashipóteses do art. 46 são muito restritivas (o que estimulou o regime dos creative commons,como forma de flexibilizar um pouco mais o regime de direitos autorais previsto). O grandeproblema dos creative commons dizem respeito á violação dos aspectos morais do direito deautor (que são irrenunciáveis). O art. 22 determina que o autor possui direitos morais e patrimoniais sobre sua obra.Para saber se uma obra é ou não protegida pelo direito de autor, é preciso apenas analisar osarts. 7º e 8º. Não há registro obrigatório. O registro é meramente declaratório e serve comoprova de autoria (é por esta utilidade que a maioria das pessoas faz o registro). O direito moral do autor nunca prescreve e nunca se extingue e diz respeito ao direitodo autor de ser reconhecido como criador de sua obra (este é o aspecto principal, mas existemoutros, como o direito de manter a obra inédita). O direito de manter a obra inédita significaque neste ponto prevalece o caráter personalíssimo (apesar de a regra geral ser a dapublicidade para que haja proteção por propriedade intelectual). Os direitos patrimoniaisdizem respeito ao direito de utilizar, fruir e dispor da obra (arts. 28 e 29), estando ligados,portanto, à exploração econômica da criação. O direito patrimonial é o que está sujeito a umprazo (art. 41).Aula 6: 18/09 (reposição)Proteções sui generis Entre os ramos da propriedade industrial e do direito autoral existem, na doutrina, aschamadas proteções sui generis: são um terceiro tipo de proteção que não se encaixa nem napropriedade industrial nem no direito de autor (categoria intermediária). A existência destasproteções decorre da insuficiência da separação entre propriedade industrial e do direito deautor; surgem, com o desenvolvimento da tecnologia, novas criações que não se encaixam bemnesta dicotomia. Estas proteções são principalmente três: (1) o software; (2) os cultivares; (3)os circuitos integrados (matéria extremamente específica, não tão importante para o nossoestudo). Sobre o software, o TRIPS diz que ele está mais próximo ao direito autoral (pois podeser reduzido a um código fonte), apesar de ele ser uma proteção sui generis. Existe uma lei
específica para o software (elaborada em 1998, na era pós-TRIPS) e ele será subsidiariamenteregulado pelas normas de direito autoral. É discutível a atribuição das características dasobras protegidas por direito de autor para o software: ele se aproxima muito mais de umatécnica do que de uma estética, por exemplo (retomando a diferença clássica entre direito deautor e propriedade industrial). A lei reconhece isso: não é aplicável ao software o direitomoral de autor e o tempo de proteção é de 50 anos apenas (e não de 50 anos mais