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Propriedade Intelectual e Acesso ao Conhecimento

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compulsória é um mecanismo fundamentalpara que os países em desenvolvimento assegurarem à população mais pobre acesso aosmedicamentos. Isso contribui tanto para o aumento do bem-estar social quanto paraengendrar a competição (uma vez que a licença pode ser concedida por abuso do direito depatente e este abuso normalmente têm como consequência o abuso de poder econômico). Aspatentes de medicamentos têm, sem dúvida, um papel muito importante no estímulo dodesenvolvimento tecnológico deste setor; a licença compulsória não afeta negativamente estedesenvolvimento, já que o mercado nos países em desenvolvimento não é tão relevante paraas empresas transnacionais. O autor passa a falar então sobre o papel que o TRIPS teve no aumento dos preços dosmedicamentos. Para os países desenvolvidos, o TRIPS representou um passo no processo deintensificação da proteção da PI e um exemplo disso foi a obrigatoriedade do patenteamentoem todos os setores da tecnologia. Isso teve impactos muito significativos nos países emdesenvolvimento: passou a haver mais incentivo à inovação, mas também a possibilidade deabuso do poder de monopólio do titular. Durante muito tempo, muitos países deixaram depatentear medicamentos, sob o fundamento de que eles possuem ampla relevância social eseu patenteamento poderia gerar abuso de poder de monopólio. A patenteabilidade elevou ocusto dos medicamentos, prejudicando consideravelmente o direito à saúde.O TRIPS, em seus arts. 7º e 8º, principalmente, estabelece que a proteção da PI devese dar em consonância com o bem-estar econômico e social, a promoção da saúde, da nutriçãoe de outros setores de vital importância para o desenvolvimento do país, e que o país podepromover políticas públicas para isso, desde que elas não violem o acordo. O TRIPS tambémdá muitas flexibilidades à proteção da PI (por exemplo, autorizando os membros a
restringirem a patenteabilidade de invenções que causem risco à vida humana ou à saúde). Falando agora sobre a licença compulsória e seu impacto sobre a inovação, o autor dizque a licença compulsória é um mecanismo que serve para corrigir os inconvenientes dosistema de patentes. O principal propósito da licença é suprir o mercado nacional emhipóteses excepcionais. A licença não será exclusiva, se restringirá ao fim para o qual foiconcedida e não será gratuita (haverá remuneração para o titular da patente). A licença seráconcedida em casos de emergência nacional, interesse público (cabendo ao Estado decidir oque configura emergência ou interesse público) ou abuso de poder de monopólio por parte dotitular da patente. O objetivo é conciliar a proteção da PI com a promoção do bem-estar dapopulação. A Declaração de Doha sobre TRIPS e a Saúde Pública de 2001 reforçou a permissãodo uso da flexibilidade e estabeleceu que os países poderiam implementar políticas públicaspara facilitar o acesso a medicamentos. É preciso considerar que alguns países não têm condições de se beneficiar daflexibilidade concedida pelo TRIPS. Isso se deve principalmente à falta de capacidade técnicada indústria local (mesmo com a licença compulsória, a indústria do país não possui osmesmos equipamentos ou o acesso a mesma matéria-prima, não conseguindo, muitas vezes,produzir o medicamento). Isso foi resolvido pelo Conselho Geral da OMC de 2003, quepreservou a flexibilidade, estabelecendo que alguns países poderiam importar medicamentosproduzidos sob licença compulsória se sua indústria doméstica não possuir condições deabastecer o mercado interno (isso é permitido tanto para os países mais pobres quanto paraos países que notifiquem o Conselho para a utilização desta prerrogativa, em virtude de umasituação de extrema urgência). Foram tomadas também medidas para evitar que a produçãode medicamentos por licença compulsória abasteça o mercado de países desenvolvidos. Os efeitos da licença compulsória são o aumento da concorrência, o abastecimento domercado e, eventualmente, a redução de preços. O desestímulo à inovação tem sido colocadocomo o principal risco que a licença compulsória apresenta. Não há, no entanto, dadosempíricos que comprovem que a licença compulsória diminuiu os investimentos feitos naindústria farmacêutica nos países desenvolvidos ou em desenvolvimento. Uma hipótese emque a licença compulsória poderia prejudicar os investimentos seria no caso de sua concessãopoder ser prevista pelos membros da indústria (Chien); haverá, no entanto, pouco impacto seforem pagos os royalties devidos. Além disso, todas as empresas, apesar do licenciamentocompulsório, desejam continuar sendo competitivas a longo prazo (não havendo motivo pararedução dos investimentos). É relevante também o fato de o mercado dos países emdesenvolvimento não ser tão importante para a indústria farmacêutica. Por fim, o autor aborda a importância da licença compulsória como política públicapara os países em desenvolvimento. Como já visto, a licença compulsória aumenta aconcorrência, o que causa a diminuição dos preços dos remédios e facilitação do acesso aosmesmos. Há, desta forma, benefícios sociais indiscutíveis e maior observância do direito àsaúde por causa da licença. A licença compulsória é remunerada; existe, apesar disso, umacontrovérsia em relação ao valor da remuneração. O pagamento de royalties da mesma formaque ocorre na licença voluntária inviabilizaria a consecução do próprio objetivo da licençacompulsória. O autor diz que, para que a licença compulsória seja efetiva, é preciso delimitarcom muita clareza as hipóteses para sua utilização. Os países em desenvolvimento devemutilizar esta flexibilidade concedida pelo TRIPS, de modo a melhorar as condições de saúde dapopulação. BASSO, Maristela; SALOMÃO FILHO, Calixto; POLIDO, Fabrício; CÉSAR, Priscilla. Direitos depropriedade intelectual e saúde pública: o acesso aos medicamentos antirretrovirais no Brasil.Os autores defendem a legalidade e constitucionalidade do licenciamentocompulsório de patentes de medicamentos especiais, especialmente no caso da AIDS. De
início, dizem que a noção do direito industrial como a regulamentação de um monopólio legalque representa uma exceção à aplicação do direito concorrencial (defendida por Ascarelli) nãoé suficiente atualmente e que deve haver uma revisão de conceitos, de modo a incluir nodireito industrial o direito da concorrência. Fazendo uma brave retomada histórica, é possível notar que a proteção jurídica daspatentes e das marcas passa, depois do fim do Antigo Regime (quando surgiram os privilégiosde invenção), a ter foco no incentivo à criatividade e à invenção, com base no princípio da livreconcorrência. A uniformização do direito industrial através de tratados internacionais(especialmente a Convenção de Paris) se deu devido à intensificação do comérciointernacional (passa a haver reconhecimento internacional das patentes e as marcas, queantes eram de interesse único do Estado, passam a ser um sinal de distinção do produto doempresário). Ocorre uma desestatização dos interesses envolvidos no direito industrial. Éassim que surge a concepção do direito de patente ou marca como um privilégio do inventorque é excluído da aplicação do direito concorrencial (que se faz com base no poder do Estado).É esta concepção que, segundo os autores, precisa ser revista, através de uma nova concepçãode concorrência. As patentes e as marcas são, atualmente, entendidas como forma de estímulo àconcorrência (tendo esta proteção uma justificativa eminentemente concorrencial). Sãoformas de proteger o empresário e de remunerar seus investimentos na invenção, o que oestimula a investir mais, tornando seu produto mais competitivo no mercado. Os direitos demarca e patente servem de estímulo criativo, impedindo o free riding. Desta forma, tendojustificativa concorrencial,