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Propriedade Intelectual e Acesso ao Conhecimento

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haver setores da tecnologia que o país escolha deixar fora da proteção por patente.Esta obrigatoriedade conta, no entanto, com certos limites: é possível que os países deixem depatentear algo se a patente fere a ordem pública ou a moralidade. A Constituição brasileira não traz nenhuma determinação sobre o que deve ou nãodeve ser patenteado. A Lei de Propriedade Industrial, em seu art. 9º, estabelece que não sãoinventos (e, portanto, não são passíveis de proteção por patente) plantas ou animais queexistem na natureza, ainda que dela isolados, assim como o genoma de qualquer ser vivo.Apenas os microrganismos transgênicos são patenteáveis no Brasil. É preciso, desta forma,que haja novidade, que aquele organismo não exista normalmente na natureza semintervenção humana. O art. 24 estabelece onde será feito o depósito do microrganismo (sendodiferente seu depósito dos outros inventos patenteáveis). Denis Borges Barbosa diz que, para estabelecer quais proteções seriam violadoras daordem pública e da moralidade (de acordo com o TRIPS) é possível usar o direito comparado ea diretiva nº 44 da Comunidade Europeia (o art. 18 da LPI adota a determinação do art. 27 doTRIPS sobre a ordem pública e a moralidade, mas é muito amplo, havendo necessidade decomplementá-lo). Existe também a Lei nº 9.456/1997, que é a Lei de Cultivares. Esta lei consagra umanova forma de proteção para as variedades vegetais geneticamente modificadas (novamodalidade de proteção industrial, na forma do Direito do Melhorista). Patentes pipelineEm 1945, houve um decreto-lei que estabelecia a proibição da proteção por patentespara produtos farmacêuticos; em 1969, houve outro decreto com a proibição dopatenteamento dos processos de fabricação de produtos farmacêuticos. Posteriormente, aproibição se estendeu a produtos alimentares e químicos. A justificativa era a preocupaçãocom o desenvolvimento da indústria nacional. Acreditava-se que uma proteção muito grande
prejudicaria o Brasil por ele ser um país importador de tecnologia. Canotilho critica esta visãodizendo que a indústria brasileira se encontrava num estado de estagnação dodesenvolvimento tecnológico – não havia evolução tecnológica de fato (nós apenascopiávamos tecnologias cujas patentes haviam expirado no exterior). A falta de proteção é, deacordo com essa visão, um desestímulo para a inovação tecnológica e causa o deslocamento deindústrias que tem potencial para produzir novas tecnologias. O TRIPS (em função da pressão dos países desenvolvidos) estabeleceu em seu art. 27,como já foi dito, a obrigatoriedade de haver possibilidade de patenteamento em todos ossetores tecnológicos. Desta forma, o direito industrial brasileiro precisou se adaptar àdisposição. A LPI de 1996 consolida esta adaptação (implementação da proteção de formarápida, tendo em vista que o TRIPS foi celebrado em 1994 e dava ao Brasil um prazo de 9 anospara se adaptar). Apesar do prazo, havia no TRIPS uma exigência de que, a partir do acordoentrar em vigor na OMC, deveria haver um mecanismo para que as patentes fossemdepositadas, mesmo antes da adaptação legislativa ocorrer de fato: este meio é a patente
pipeline (meio de transição). A patente pipeline não está, no entanto, prevista pelo TRIPS: elesó previa que o país precisaria “dar um jeito” de conceder proteção mesmo antes de suas leisse adaptarem, e o meio que o Brasil encontrou para fazer isso foi este (proteção TRIPS extra). Canotilho define a patente pipeline como um mecanismo de transição para concederproteção a produtos que não eram patenteáveis em países que estão modificando sualegislação sobre patentes. É um instituto temporário destinado a corrigir a falta de proteçãoexistente na lei anterior. Há uma diferença entre patente pipeline e patente de importação(sendo esta considerada uma patente “anormal”) e entre patente pipeline patente derevalidação (apesar de muitos textos considerarem estas três expressões sinônimos). Umponto comum entre as patentes de revalidação e as patentes de importação é que elas têmorigem em outros países. A garantia das patentes pipeline se estende tanto à patentes sobre alimentos,produtos químicos e farmacêuticos concedidas no exterior (que antes não tinham validade noBrasil) quanto às patentes sobre estes mesmos produtos concedidas no Brasil (sendo queantes, elas eram proibidas). O art. 230 da LPI trata da patente pipeline concedida a estrangeiroe o art. 231, ao nacional ou pessoa residente no país. A lei atende tanto as pessoas que nãofizeram o depósito no Brasil porque a lei não permitia quanto as pessoas que fizeram odepósito, mas este não foi concedido. Existe o direito de imunidade do usuário anterior: apessoa que já estava produzindo o produto e já havia feito investimentos será beneficiada(Denis Borges Barbosa faz uma crítica séria a este direito, dizendo que ele constitui ummonopólio). A patente pipeline dá mais vantagens ao estrangeiro: a patente depositada no exteriorserá homologada pelo Brasil (por isso as patentes estrangeiras concedidas pelo regime das
pipeline são chamadas de patentes de homologação), retirando-se da justiça brasileiraqualquer análise de utilidade, conveniência ou verificação dos requisitos. As patentesnacionais precisam respeitar alguns requisitos: 1. não exaustão de direitos (o produto não pode ter entrado no mercado internacional);2. depósito no exterior (a patente precisa ter sido depositada e concedida no exterior);3. ausência de sérios e efetivos esforços, realizados por terceiros no Brasil, para aexploração do objeto da patente (proteção do estado da técnica no Brasil e doinvestidor de boa-fé).Aula 10: 20/10Patentes pipeline – continuaçãoExiste uma ação de inconstitucionalidade contra as patentes pipeline. Os argumentos
utilizados são reforçados por dois pareceres muito relevantes: o de Canotilho e o de DenisBorges Barbosa. Canotilho defende a constitucionalidade das patentes pipeline; Denis BorgesBarbosa, por outro lado, defende a inconstitucionalidade. Para Denis, a patente depositada porestrangeiro, ao suprimir a verificação dos requisitos (em especial, a novidade), faz com que aprópria utilidade da concessão de patentes seja desconsiderada: é possível que hajaprivatização do domínio público (pode haver uma tecnologia que, no Brasil, já estava emdomínio público, e com a patente estrangeira isso é restringido). A patente pipeline dá aos brasileiros um tratamento pior; Denis Borges Barbosa dizque por causa disso, a indústria nacional é extremamente prejudicada, pois os estrangeirosterão patentes que serão concedidas mais rápida e facilmente, sem passar pelo crivo materialda lei. A crítica de fundo de Denis Borges é que as patentes pipeline são uma demonstraçãoclara da subserviência do Brasil em relação aos interesses estrangeiros, no que diz respeito àpropriedade intelectual. A pipeline viola o princípio da inderrogabilidade do domínio público:se algo caiu em domínio público, ficará em domínio público permanentemente (não é possívelprivatizar novamente, pois isso significaria não existir domínio público). Canotilho, por outro lado, diz que dizer que a pipeline é inconstitucional seria dizerque existe direito adquirido sob regime jurídico anterior, e isso não é verdade. Ele diz que a
pipeline não altera o regime jurídico das patentes. Ele diz também que não existe o verdadeirodomínio público: o domínio público autêntico seria aquele no qual todos, invariavelmente, temacesso aos bens intelectuais, e isso não existe na realidade. O não patenteamento de produtosalimentícios, farmacêuticos e químicos consistia em uma zona negativa de propriedadeintelectual e não em domínio público: isso porque estes produtos não eram patenteáveis edomínio público pressupõe que houve apropriação do bem e, posteriormente, ele caiu emdomínio