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Propriedade Intelectual e Acesso ao Conhecimento

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Propriedade Intelectual (Calixto)
Caderno: Fillipi
Digitação: Amadeus
Revisão: Fernando Lima
(05/08/08) Os Fundamentos da Propriedade em Geral
!
Pensar a propriedade intelectual no contexto em que se insere:
escassez e necessidade de racionalizar qualquer teorização a respeito.
A compreensão dos fundamentos da propriedade em geral é importante
para concluirmos se o que se denomina propriedade intelectual realmente se
enquadra na idéia de propriedade.
A propriedade intelectual lida com novas soluções para problemas
antigos. Suas origens surgem com a Revolução Industrial, quando surgiu a
necessidade de se regular os bens imateriais que afetam o conhecimento e a
produção.
A propriedade privada (ou apropriação privada de bens) traz em si a
idéia central de que aquilo que é propriedade somente, ou pelo menos
primordialmente, gera influências na esfera de interesses do proprietário.
Sendo assim, os liberais definiram como fundamentos da propriedade: a
abundância ou a rivalidade (o uso por um exclui a possibilidade do uso pelos
demais), e a geração de baixas externalidades pela apropriação. Por outro
lado, não deveria haver a propriedade privada de bens não-rivais e cuja
apropriação geraria altas externalidades. Nessa discussão coloca-se ênfase na
propriedade dos bens de produção, deixando-se os bens de consumo em um
segundo plano.
Hoje, porém, se torna difícil falar não-externalidade e em abundância,
mesmo em se tratando de bens de consumo. O direito de propriedade hoje se
encontra em uma realidade de profunda escassez, o que, apesar de ainda não
ter gerado mudanças profundas, tem trazido à tona discussões à respeito da
função social da propriedade e da produção, e sobre a possibilidade de
elaboração de novos paradigmas de propriedade.
Como fica a propriedade intelectual nesse contexto de escassez?
Analisando-se a propriedade intelectual com base no paradigma liberal,
pode-se dizer que seu objeto primordial, ou seja, as idéias, não estão sujeitas à
rivalidade e podem gerar altíssimas externalidades, o que é a configuração
tradicional de bens cuja propriedade privada não é possível.
Logo, mesmo com base nos economistas neoclássicos (liberais) é
possível questionar a viabilidade da propriedade intelectual como propriedade
privada típica.
Não dúvida, pois, que a propriedade intelectual não se identifica com
a propriedade típica. O que resta questionar é “até que ponto elas se tocam”,
“em que medida a propriedade intelectual pode externar aspectos da
propriedade privada típica”. Questiona-se qual deve ser a extensão da

propriedade intelectual, traçando-se seus limites com base em critérios sociais
e de prevenção de abuso de poder.
Reconhece-se a especialidade da propriedade intelectual e,
consequentemente, as externalidades que a envolvem, como, por exemplo, na
medida em que se estabelecem prazos para a fruição de tal propriedade, o que
é inconcebível se pensarmos na propriedade típica.
(12/08/08) Conceito de Bens Comuns
!
Finalidade econômica da utilização coletiva ou individual do
conhecimento.
Quais os critérios para se identificar os bens comuns?
Tendo em vista a dificuldade de se chegar a uma definição objetiva de
bens comuns, costuma-se defini-los por oposição à propriedade privada,
procedendo-se a uma análise sob três aspectos.
Em primeiro lugar, analisa-se se existem ou podem existir os aspectos
típicos do direito de propriedade: usar, fruir e dispor. Em seguida, questiona-se
a finalidade do bem, tendo em vista os grupos de pessoas interessadas e o seu
grau de essencialidade (questionamento sob a ótica econômica). Por último,
investiga-se a origem/ forma de aquisição do bem, podendo ele ser de
apropriação individual ou de construção coletiva.
Quanto à origem/ forma de aquisição do bem/conhecimento, questiona-
se: quem concorre para a sua formação?
A preocupação com a propriedade intelectual surge durante a Revolução
Industrial, desvinculada de qualquer preocupação com a origem, voltada
basicamente ao incentivo econômico ao desenvolvimento científico, diverso do
padrão agrícola anteriormente vigente.
Hoje, porém, a origem passa a ser questionada, havendo dois pólos
extremos: por um lado, aqueles que defendem que tudo é produto individual
daquele que rompeu uma dificuldade científica. Por outro lado, aqueles que
dizem que tudo é coletivo, em razão das externalidades sociais positivas que
concorrem para o desenvolvimento do conhecimento, que vão desde a
formação da pessoa, até o fornecimento de verba pública, o esforço conjunto,
etc.
Os extremismos não são úteis. Então, quais os critérios para
identificação dos casos em que há origem comum e origem individual da
propriedade intelectual? A origem individual é pressuposto para concessão
de propriedade intelectual, mas como reconhecê-lo?
Historicamente o critério é utilitarista, ou seja, de caráter econômico,
relacionado ao nível de aplicação industrial do conhecimento desenvolvido, o
qual deve ser protegido (ex: uma superação em matéria de física teórica não é
objeto de propriedade; se aplicada industrialmente, sim).
(19/08/08) Formação do Conhecimento e Concessão de Patentes
!
Modo como a teorização a respeito da formação do conhecimento
influência no pensamento sobre a concessão de patentes.

Nos itens anteriores foi dito qu e se pode tomar como critérios de
definição da titularidade de um bem a sua finalidade e a sua origem. Esses dois
critérios, porém, podem ser muitas vezes indistintos.
Com relação à origem do conhecimento, pode-se dizer que ela variou
muito ao longo do tempo, variando entre a formação coletiva e a formação
individual. Essa identificação tem íntima re lação com os instrumentos de
proteção da propriedade intelectual.
Durante a Idade Média, o conhecimento era primordial produzido no
interior das corporações de ofício, as quais funcionavam com centros de
formação do conhecimento. Sendo assim, o conhecimento era de formação
coletiva, sendo protegido durante o período necessário para o aprendizado da
técnica.
com o fortalecimento da burguesia e a consolidação dos Estados-
Nacionais, houve um deslocamento do eixo de produção do conhecimento,
tornando-se a burguesia a impulsionadora do desenvolvimento. Dentro desse
contexto, o titular do invento passa a ser exclusivamente o inventor (produção
individual do conhecimento).
Nos últimos 200 anos, observou-se a sofisticação das estruturas
industriais, estando a concentração do poder econômico associada à
concentração da produção do conhecimento utilitário (com aplicação industrial).
Ao mesmo tempo, verificou-se o agravamen to dos problemas sociais, havendo
a necessidade de atividades que gerem externalidades sociais positivas. Sendo
assim, constituem-se hoje duas tendências contraditórias, opondo-se os
interesses sociais aos interesses empresariais.
A discussão atual a respeito das patentes coloca-se da seguinte
maneira: no mercado hoje há, ao mesmo tempo, bens que têm pouca
externalidade social (ex: celulares, eletrônicos...), não havendo interesse das
empresas nas patentes, tendo em vista o dinamismo do mercado (tornam-se
desnecessárias e dispendiosas). Por outro lado, bens que geram grandes
externalidades sociais (ex: medicamentos), mas que atraem pouco interesse
em investimentos em uma realidade concorrencial, sendo assim, concede-se a
patente como um estímulo à produção de conhecimento, garantindo-se o seu
retorno financeiro.
O que se verifica dessa situação é que a geração de fricção social,
opondo-se a proteção da empresa ao interesse social, podendo haver inclusive
casos de abuso, como a restrição da disponibilidade de certos bens (causa de
extinção de patente). Nesse contexto, há discussões particularmente intensas a
respeito dos requisitos de concessão, o prazo e a extinção das patentes.
A quem se deve atribuir a patente?
Há três aspectos controversos quanto a essa questão. Em primeiro
lugar, nos casos em que a invenção é produto de toda uma cadeia, questiona-
se qual a parte da cadeia deve ser beneficiada, não se garantindo o retorno
das demais partes.
Em segundo lugar, existe séria dificuldade para se separar as
contribuições que são de ordem exclusivamente teórica das que são de ordem
prática (não é patenteável produção apenas teórica). Por último, questionam-se
os casos em que uma invenção é dependente de outra anterior (a patente deve
ser atribuída ao inventor da primeira ou da segunda invenção?).