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Fundamentos Societário

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aqui pra encher linguiça, esclarece muito bem o que está meio confuso na folha do professor]: 
Emprega-se o vocábulo contrato em sentido amplo e restrito. No primeiro, designa todo negócio 
jurídico que se forma pelo concurso de vontades. No segundo, o acordo de vontades produtivo de 
efeitos obrigacionais na esfera patrimonial. [... A palavra contrato] deve ser observada para 
designar o negócio bilateral, cujo efeito jurídico pretendido pelas partes seja a criação de vínculo 
obrigacional de conteúdo patrimonial. [...] 
Contrato é, assim, o negócio jurídico bilateral, ou plurilateral, que sujeita as partes à observância 
de conduta idônea à satisfação dos interesses que regularam. 
 
8 T. ASCARELLI, Problemas das sociedades anônimas e direito comparado, Saraiva, 1945. 
 
9 O. GOMES, Contratos, pp. 8-13, 84-85. 
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Os sujeitos da relação contratual chamam-se partes. Parte não se confunde com pessoa. Uma só 
pessoa pode representar as duas partes, como no autocontrato ou contrato consigo mesmo, e uma 
só parte, compor-se de várias pessoas, como na locação de um bem por seus condôminos. Parte 
é, em síntese, um centro de interesse, indicando-se com essa expressão a posição dos sujeitos 
em face da situação na qual incide o ato. [...] 
A noção de parte como centro de interesses esclarece a distinção entre contrato e outros atos 
plurilaterais, como o negócio plurilateral e o ato coletivo. 
O contrato plurilateral suscita efeitos em distintas relações jurídicas que envolvem vários sujeitos. 
[...] 
A análise da estrutura dos contratos revela que alguns geram obrigações recíprocas, enquanto 
outros criam obrigações unicamente para uma das partes. São situações que surgem, exigindo 
tratamento diverso. 
Antes de os distinguiu, cumpre dar o significado técnico dos termos, para prevenir confusões ou 
equívocos. Os qualificativos unilateral e bilateral empregam-se para diferenciar os negócios 
jurídicos, assim na formação como nos efeitos. Sob o ponto de vista da formação, negócio 
jurídico unilateral é o que decorre fundamentalmente da declaração da vontade de uma só 
pessoa, e bilateral o que se constitui mediante concurso de vontades. 
O contrato é o negócio jurídico formado mediante concurso de vontades. O contrato é o negócio 
jurídico bilateral por excelência. Todo contrato, com efeito, é, por definição, negócio bilateral, 
visto que supõe declarações coincidentes de vontades. 
Considerado, pois, no momento de sua formação, seria contrassenso falar-se em contrato 
unilateral, mas, levando-se em conta os efeitos que esse negócio jurídico bilateral produz, verifica-
se que ora cria obrigações para as duas partes, ora para uma só. 
Então, sob esse aspecto, se denomina bilateral no primeiro caso, e unilateral no segundo, porque 
ali as obrigações nasceram nos dois lados e aqui num só. [...] 
O contrato é unilateral se, no momento em que se forma, origina obrigação, tão somente, para uma 
das partes - ex uno latere. A outra parte não se obriga. O peso do contrato é todo de um lado, os 
efeitos são somente passivos de um lado, e somente ativos de outro. 
Nos contratos bilaterais as duas partes ocupam, simultaneamente, a dupla posição de credor e 
devedor. Cada qual tem direitos e obrigações. 
O acordo de vontades entre as partes é a essência do fenômeno contratual. Desse modo, é sempre um 
negócio jurídico bilateral ou plurilateral, com respeito à sua formação (bilateralidade do consentimento). 
Mas, no tocante aos seus efeitos (bilateralidade da obrigação contratual), pode ser unilateral ou bilateral, 
dependendo do fato de quem se obrigar ser apenas uma das partes ou ambas, respectivamente. 
As partes do contrato não se confundem com sujeitos de direito ou pessoa. A parte é um centro de 
interesses, que pode ser personificado ou não. As partes podem ser, por seu turno, unissubjetivas e 
plurissubjetivas. 
Ensina ASCARELLI: 
Com efeito, a sociedade surge de um contrato; este, porém, não se limita a disciplinar as 
obrigações entre os sócios, mas cria uma organização destinada ao desenvolvimento de uma 
atividade ulterior com terceiros [...]. 
É substancialmente do ponto de vista do contrato concluído entre os sócios que nos devemos 
colocar ao examinarmos a constituição da sociedade, embora não esquecendo tratar-se de um 
contrato sujeito a uma disciplina diversa daquela dos contratos de “permuta”. 
A “plurilateralidade” deste contrato permitirá distinguir os vícios do contrato e os vícios das adesões 
individuais; estes últimos só influem sobre todo o contrato quando determinam a impossibilidade de 
consecução do objetivo social. [Nos contratos plurilaterais, a nulidade não atinge todo o contrato, 
apenas uma das partes] [...] 
Na deliberação da assembleia se exprime a própria vontade social. A deliberação, por um lado, 
deve ser considerada como uma manifestação unilateral de vontade, pois representa justamente a 
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vontade de um único sujeito; por outro lado, porém, ela resulta do concurso de outras tantas 
vontades (votos) diversas, que concorrem justamente em formar a vontade do sujeito-sociedade. 
[...] 
Para ASCARELLI, teríamos os contratos de “permuta”10 ou de “escambo”: trocam-se bens por dinheiro ou 
serviços por dinheiro, inserindo-se no mecanismo de distribuição de bens ou prestação de serviços entre 
as partes. No contrato de compra e venda, por exemplo, o vendedor se obriga a entregar a coisa ao 
comprador e o comprador se obriga a pagar o preço. Há a atribuição de direitos subjetivos e obrigações a 
ambas as partes. O comprador tem o direito subjetivo de haver a coisa e a obrigação de pagar o preço. O 
vendedor tem o direito de receber o dinheiro e a obrigação de entregar a coisa. As prestações se 
intercambiam, se trocam. 
Nos contratos plurilaterais, temos mais de duas partes, porque elas não se colocam em posição de 
intercâmbio de prestações: as prestações se adicionam e não se trocam, dirigem-se a uma mesma 
finalidade. E a finalidade do contrato de sociedade é a partilha do resultado entre os sócios11. 
Assim, enquanto nos contratos de “permuta” há atribuição de direitos subjetivos e obrigações às partes, 
com interesses opostos e complementares, com intercâmbio de prestações, nos contratos plurilaterais as 
prestações se dirigem à mesma finalidade, com a criação obrigações recíprocas entre as partes. 
Para compreender a importância desta classificação, imagina-se se, em um contrato bilateral, o indivíduo 
A assinou o contrato movido por erro ou por dolo da outra parte. Se em um contrato, uma das partes errou, 
foi induzida por dolo ou foi coagida, o contrato é inteiramente nulo. Mas no contrato plurilateral, se um 
sócio assinou o contrato por erro ou era incapaz, o que acontece é que apenas essa parte é anulada, ou 
seja, apenas a participação do sócio, o resto da sociedade continua. Apenas haverá nulidade no contrato 
plurilateral se ela disser respeito ao objeto do contrato. Pode acontecer de a participação daquele que tem 
90% ser tida como nula. Na prática, é inviável que a sociedade continue, porém, para o direito, apenas a 
participação daquela parte vai ser anulada, o contrato, portanto continua. 
Há duas espécies de contratos plurilaterais: associativos e não associativos. Naqueles, as partes 
perseguem um objetivo comum, enquanto nestes cada qual visa unicamente ao seu interesse pessoal. 
Exemplo de contrato plurilateral não associativo é o consórcio12 de distribuição de bens móveis, em que as 
partes pagam cotizações periódicas, ou oferecem lances, para adquirir, cada qual, uma unidade do 
conjunto dos bens a serem distribuídos. 
Nos contratos plurilaterais associativos, as partes se obrigam a colaborar para a realização de um objetivo 
comum. 
Protótipo de contrato plurilateral associativo é a sociedade13. Não há contraste de interesses entre