Sobre a evolução do Estado

Sobre a evolução do Estado


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SOBRE A EVOLUÇÃO DO ESTADO 
DO ESTADO ABSOLUTISTA AO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO 
Márcio Eduardo da Silva Pedrosa Morais 
Publicado em 04/2011. 
Antes de adentramos, definitivamente, no tema proposto pelo 
presente artigo, é importante analisarmos o Estado sob sua gênese, 
elementos, caracteres. Só assim, conseguiremos ter noção de sua 
importância em nossa vida, estando o mesmo inserido em todos os 
momentos, intermediando as relações interpessoais, sociais, políticas e 
jurídicas. 
Spengler afirma que "a história universal é a história dos Estados", 
e Goetz que o "Estado é o centro essencial da vida histórica", ou seja, o 
Estado é inerente à própria natureza humana, apesar de não ser esta 
uma posição unânime em relação à gênese estatal, conforme veremos 
oportunamente. Aristóteles já afirmara em tempos idos que o homem é 
um animal político, ou zoon politikon. 
Mas por que surgiu o Estado? Qual a teleologia estatal? Quando 
nascemos, e até mesmo antes, já estamos sob a égide estatal, mas por 
quê? Diversas correntes dissertam sobre os fins do Estado. Para Leonard 
Nelson, autor que despertou grande interesse na Alemanha do pós-
guerra com sua obra, A Ciência do Direito sem Direito, obra esta que 
defende um retorno ao direito natural, o fim do Estado é assunto de 
extrema importância para a Teoria do Estado. 
Já Georg Jellinek, afirma que tal assunto perdeu sua importância 
no século vinte, apesar de ter tido importância no século dezenove. 
Leonard Nelson ataca justamente esta posição, no que é apoiado pelo 
jurista espanhol González Vicén, quem ficou bastante conhecido pela 
sua doutrina do que podemos chamar, grosseiramente, de "eterno 
retorno do direito natural", afirmando que o direito natural sempre 
retorna à consciência dos povos sempre que há alguma transformação, 
crise social. 
Para Hans Kelsen, a discussão acerca dos fins do Estado não 
carecia de fundamentos. O jurista de Viena afirmava que tal discussão 
estava fora do âmbito da Teoria do Estado. 
Com essas considerações iniciais, já temos uma noção da 
importância do Estado, e a imensidão dos apaixonados debates 
gerados na Teoria do Direito. Tal introdução se faz útil e necessária para 
que possamos entender o Estado e sua importância em nossa vida, visto 
o mesmo estar para o homem mesmo antes de sua vida, estipulando 
diretrizes, dirimindo conflitos, administrando interesses e o próprio bem 
público! 
 
2 \u2013 CONCEITO E ORIGEM 
Podemos conceituar o Estado como sendo "o povo 
politicamente organizado", porém tal conceituação jamais conseguirá 
descrever e demonstrar a imensa faceta e sua importância. Fazendo 
uma comparação com Santo Agostinho, se pensarmos o Estado 
saberemos como o mesmo é, já se nos perguntarmos o que o mesmo é, 
não saberemos responder de maneira clara e definitiva. 
O Estado é a mais complexa das organizações sociais, sendo 
resultado de elevado desenvolvimento humano, alguns autores situam 
seu aparecimento com seu contorno atual, nos tempos modernos, 
apesar de as cidades grega e romana já apresentarem características 
semelhantes, como nos mostra Fustel de Coulanges em sua obra, A 
Cidade Antiga. 
Em todos os momentos sentimos a mão estatal em nossas vidas, 
seja ao sermos compelidos a respeitar uma norma, seja ao pagarmos um 
tributo, seja ao atendermos a uma intimação judicial, dentre inúmeras 
outras situações presentes em nosso dia-a-dia. 
Jorge Miranda afirma que o nascimento do Estado se prende às 
vicissitudes políticas por que passou a sociedade no início dos tempos 
modernos. Com o início das lutas religiosas na Idade Média, a 
insegurança forçou que fosse instituído "algo" acima das facções em 
conflito. O rei passaria de um apoiador de um determinado grupo para 
ser um soberano acima das partes, neutro em si. 
Deste modo, podemos afirmar que o Estado surge para o 
homem, e não o homem para o Estado. Este é fruto, como dissemos 
alhures, de um estágio avançado de evolução social, tornando-se clara 
a importância de o eleitor, o cidadão interferir em sua vida, seja através 
do voto, seja cobrando de nossos representantes, atitudes efetivas que 
transformem, melhorem nossa realidade, ou seja, através dos institutos 
jurídicos do processo político-democrático, fundamento basilar do 
Estado Democrático de Direito. 
O termo "Estado" advém do latim status, significando ordem, 
estado. Tal denominação nem sempre foi usada, só sendo aceita a partir 
dos séculos dezesseis e dezessete. Na Grécia Antiga, os gregos usavam a 
expressão polis para denominar a sociedade política. Já para os 
romanos, o termo usado eracivitas. Na Idade Média eram utilizados os 
termos principados, reino, enquanto que para os povos 
germânicos, reich e staat. 
A palavra Estado, com seu significado atual, foi usada pela 
primeira vez em nossa literatura política por Nicolau Maquiavel em sua 
obra Il Príncipe, obra essa publicada no ano de 1531: "todos os Estados, 
os domínios que tiveram e têm poder sobre os homens, são estados e são 
ou repúblicas ou principados" (in: MAQUIAVEL, Nicolau, O príncipe, 
Coimbra, Atlântida Ed., 1935, p.7). 
 
3 \u2013 TEORIAS ACERCA DA ORIGEM ESTATAL 
Diferentes doutrinas tentam explicar a origem do Estado. As mais 
importantes são a doutrina teológica, a doutrina do contrato social e a 
doutrina jus naturalista, as quais, a partir de agora, dissertaremos. 
3.1 \u2013 DOUTRINA TEOLÓGICA 
Para esta corrente, o Estado é criação divina, como obra da 
vontade de Deus. Tem seus expoentes em Santo Tomás de Aquino, 
Jacques Bossuet e Santo Agostinho. Tal doutrina apoiou ideologicamente 
o Estado Absolutista, fortalecendo-o ainda mais, como exemplo, o 
soberano Luís XIV, quem afirmou "o Estado sou eu", sustentando que o 
poder do monarca lhe fora concedido por Deus, tendo esse a 
obrigação de dar satisfação unicamente a esse Deus por seus atos, ou 
seja, o monarca era investido em um poder ilimitado. 
Toda a cerimônia religiosa que acontecia quando eram os reis 
investidos no poder, era "abençoada" pela unção divina aos soberanos, 
não eram os homens que conferiam poderes ao rei, mas sim o próprio 
Deus. 
A doutrina teológica subdivide-se em "teoria pura do direito 
divino sobrenatural" e "teoria do direito divino providencial". A "teoria 
pura do direito divino sobrenatural" defendia a tese de que o próprio 
Deus indicava o homem ou família que deveria exercer o poder estatal. 
Enquanto que a "teoria do direito divino providencial" defendia a tese de 
que o Estado fora instituído pela providência divina, providência esta 
que o dirigia de maneira indireta, através de acontecimentos e da 
vontade humana. 
3.2 \u2013 DOUTRINA DO JUSNATURALISMO : 
Surgida no final da Idade Média, defendia a idéia de que o 
Estado encontra fundamento na própria natureza humana, havendo 
precedência do direito natural em relação ao direito positivo. Há um 
fundamento anterior às leis humanas, que é o próprio direito do homem 
como criação de Deus, sendo essa a essência do direito natural, apesar 
das suas muitas conceituações e significações surgidas durante sua 
história. Tal essência é comum a todas referidas conceituações. 
O direito natural é inerente à própria natureza, sendo o conjunto 
de regras morais que estão incutidas na própria alma humana, como por 
exemplo, os direitos à vida, à felicidade, à segurança, ao respeito, 
dentre outros. 
3.3 \u2013 DOUTRINA CONTRATUALISTA : 
Para o contratualismo, que na verdade não é uma só doutrina, 
existindo, conforme veremos à frente, diferentes correntes, o Estado é 
originado de um acordo de vontades, onde cada um cede parcela de 
seus direitos individuais em prol de todo o grupo. São autores da doutrina