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Direito Administrativo   - Agências reguladoras

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Brasília a. 36 n. 141 jan./mar. 1999 143
1. Introdução
O Estado está, sem dúvida, passando por
uma completa reforma, com vistas à moder-
nização, que segue, necessariamente, o
modelo adotado para o financiamento da in-
fra- estrutura, abrangendo as privatizações,
as concessões e as parcerias de modo geral.
Desatrela-se, assim, o Poder Público das
tarefas de execução das obras e serviços
públicos para assumir a elaboração e
execução da política regulatória de todos os
setores da economia em que as empresas
estatais assumiam o papel de concessio-
nárias de serviços públicos.
No contexto da regulação, a dualidade –
intervenção estatal versus livre concorrência
– implica, essencialmente, a definição de
regras estáveis e capazes de assegurar o
aprimoramento no desempenho dos serviços
Agências reguladoras
Arnoldo Wald e
Luiza Rangel de Moraes
Arnoldo Wald é Advogado e Professor
Catedrático de Direito Civil da Faculdade de
Direito da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro.
Luiza Rangel de Moraes é Advogada, Mestre
em Direito Empresarial, associada de Wald e
Associados Advogados.
Sumário
1. Introdução. 2. As agências reguladoras.
Sua natureza jurídica, independência e nível de
especialização. 2.1. Natureza jurídica das
agências reguladoras. 2.2. Independência das
agências reguladoras. 2.3. Especialização das
agências reguladoras. 3. Da competência das
agências reguladoras e da delegação de poderes.
3.1. Delegação de atribuições à agência regula-
dora. 4. Da composição de conflitos entre poder
concedente e concessionária. 4.1. Da arbitragem.
5. Da participação do usuário. 6. Controle
administrativo e judicial dos atos da agência
reguladora. 7. A interação entre as agências
reguladoras e o CADE.
Revista de Informação Legislativa144
públicos, tornando-os mais eficientes,
regulares e com preços módicos.
Os instrumentos regulatórios precisam ser
concebidos de forma abrangente, permeando
por entre os campos de prevenção antitrust,
de defesa do consumidor, de proteção do
meio ambiente, de definição de políticas
tarifárias, de fixação de planos de investi-
mentos para os concessionários e de fiscali-
zação efetiva da qualidade do serviço, entre
outros aspectos.
Assim sendo, os principais setores de
atividades econômicas de serviços públicos
estão desenhando e fortalecendo a sua
estrutura regulatória.
É sensível o gradual aprofundamento
da normatização, à medida que são
editados os diplomas reguladores, sendo
possível afirmar que o aprendizado surge
da experiência com a identificação de
situações novas.
Consoante já se afirmou no âmbito dos
debates relacionados à reforma do Estado,
a regulação deve começar mínima, com
poucas regras, de natureza geral, por
algumas razões importantes:
“1) É praticamente impossível
antecipar comportamentos, principal-
mente nos casos de privatização.
2) Para não pôr em risco o sucesso
da política de liberalização, deve-se
evitar o surgimento, no curto prazo,
de conseqüências negativas imprevi-
síveis e difíceis de corrigir rapida-
mente. Como essas conseqüências são
altamente prováveis, mas não se pode
antecipá-las, quanto menos regulação,
menores as chances de efeitos colate-
rais, na primeira fase, que é politica-
mente a mais crítica do processo.
3) Regulação adicional, baseada
no acompanhamento do processo
concreto de desenvolvimento do setor,
em novas bases, tende a ser mais
eficaz.
4) Como não dispõe de informação
sobre a dinâmica, a lógica e as ten-
dências do novo ambiente que se está
criando na indústria desregulada, a
regulação prévia tende a estar conta-
minada pela cultura tomada no
antigo quadro regulatório, que se
quer reformar1.”
Outra fonte de reflexão consiste na
quebra do antigo padrão, composto de
normas minuciosas e burocráticas, quando,
muitas vezes, a desregulamentação é a
medida correta para estimular a competiti-
vidade. Identificar a situação e o momento
de afrouxar as “amarras” regulatórias é
tarefa muitas vezes complexa e difícil de ser
implementada. E essa diretriz passa pela
formulação do conceito de serviço público.
Ainda no âmbito das concessões de
serviços públicos, estão surgindo as Agên-
cias Reguladoras, com jurisdição nos
diversos setores de serviços públicos conce-
didos pela União, inspiradas em sistemas
regulatórios europeus e norte-americanos.
Justificou a criação desses entes regula-
dores, entre outros motivos, a necessidade
de dotar-se um órgão independente dos
poderes para exercer o controle da execução
dos contratos de concessão e a fiscalização
dos serviços e das concessionárias, editando
normas regulamentares, reprimindo condu-
tas abusivas e até resolvendo conflitos entre
os agentes, envolvidos na prestação de
determinado serviço público.
As leis, as normas regulamentares
editadas pelas agências reguladoras e os
próprios contratos de concessão constituem
os aparatos regulatórios aptos a traçar o
quadro regulatório conveniente à satisfação
dos interesses públicos e à entrada de novos
recursos financeiros e tecnológicos indis-
pensáveis à sustentação da infra-estrutura.
2. As agências reguladoras. Sua
natureza jurídica, independência e
nível de especialização
Paralelamente à disciplina legislativa e
regulamentar, que reúne as normas e
critérios ordenadores de cada um dos
setores objeto de concessão de serviços
públicos ao empresário privado, surgem os
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organismos constituídos pelo Poder Público,
para normatizar, aplicar as normas legais,
regulamentares e contratuais da atividade
sob sua tutela, outorgar e rescindir os
contratos de concessão, bem como fiscalizar
os serviços concedidos, além de funcionar,
em muitos casos, como instância decisória
dos conflitos entre as empresas concessio-
nárias e os usuários.
Serão, a seguir, colocadas várias questões
jurídicas relevantes envolvendo o quadro
regulatório em que se inserem as agências
nacionais reguladoras dos serviços de energia
elétrica – ANEEL – Agência Nacional de
Energia Elétrica; de telecomunicações – a
ANATEL – Agência Nacional deTelecomu-
nicações e de petróleo e gás – a ANP –
Agência Nacional de Petróleo; além de
serem referidas as agências reguladoras
estaduais.
2.1. Natureza jurídica das agências
reguladoras
A Agência Nacional de Energia Elétrica
– ANEEL –, criada mediante a Lei nº 9.427,
de 26/12/96, adota a configuração jurídica
de autarquia especial e exerce as atribuições
previstas para o poder concedente, nos arts.
29 e 30 da Lei nº 8.987/95, além de outras
inerentes à implementação de políticas do
Governo Federal para o setor elétrico2.
Para o setor de telecomunicações, a Lei
nº 9.472, de 16 de julho de 1997, cria a
Agência Nacional de Telecomunicações –
ANATEL, órgão regulador desse segmento,
entidade integrante da administração
pública federal indireta, vinculada ao
Ministério das Comunicações, com sede no
Distrito Federal, muito embora possam ser
estabelecidas unidades regionais3.
Salientando a constituição das agências
reguladoras como autarquias integrantes da
administração indireta do ente político
titular da competência para a prestação do
serviço público, no §2º do art. 8º da Lei nº
9.472/97 está disposto que a natureza
jurídica de autarquia especial conferida à
ANATEL é caracterizada pela independência
administrativa, ausência de subordinação
hierárquica, mandato fixo e estabilidade
de seus dirigentes e autonomia financeira.
A Lei nº 9.478, de 6 de agosto de 1997,
criou a ANP – Agência Nacional do Petróleo,
entidade integrante da administração
federal indireta, vinculada ao Ministério de
Minas e Energia, para atuar como órgão
regulador da indústria do petróleo, em todas
as suas acepções, e como órgão fiscalizador
das atividades que se desenvolvem nesse
setor econômico. Para que possa desin-
cumbir-se das atribuições que lhe foram
legalmente

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