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Otorrinolaringologia e Fonoaudiologia   Edson Ibrahim  Mitre 1

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epidérmico
que, naturalmente, sofre descamação contínua, com morte e renovação celular. Esta
descamação contínua é permanentemente eliminada graças aos movimentos
migratórios epiteliais no meato acústico externo, da membrana timpânica em direção
ao pavilhão da orelha (1).
Em algumas raras situações, existe a retenção da descamação epidérmica no
meato acústico externo, podendo ocluir totalmente a sua luz. Isto é denominado de
rolha epidérmica ou, segundo alguns autores, colesteatoma de conduto auditivo
externo.
A solução consiste na remoção, porém isto pode ser dificultoso ou doloroso,
já que os limites entre a pele normal do meato acústico externo e a rolha epidérmica
não são nítidos (3).
OUTRAS AFECÇÕES DA
ORELHA EXTERNA
Capítulo III
27
Edson Ibrahim Mitre
CORPOS ESTRANHOS
Corpos estranhos podem ser facilmente identificados no meato acústico
externo apenas com a inspeção adequada utilizando-se um otoscópio. Podem ser
introduzidos voluntariamente, o que é mais freqüente em crianças, ou acidentalmente,
e podem ser objetos inanimados ou insetos.
Objetos inanimados podem persistir por meses sem nenhuma repercussão
clínica, mas podem, eventualmente, provocar disacusia condutiva.
A introdução de sementes pode levar à dor local, que passa a se manifestar
à medida que a semente absorve água e se expande, comprimindo as paredes do
meato acústico externo. Baterias de brinquedos e relógios acabam por extravasar seu
conteúdo, determinando agressão cáustica à pele e membrana timpânica, podendo
levar, inclusive, à estenose do meato acústico externo (2,3).
A presença de um inseto vivo no meato acústico externo é extremamente
desconfortável, pois a movimentação do inseto costuma produzir um som de alta
intensidade devido à proximidade da membrana timpânica. Recomenda-se, assim, a
imobilização do inseto com a instilação de algumas gotas de uma solução viscosa
(azeite ou vaselina líquida) no meato acústico externo, antes de proceder à sua remoção.
Não se deve utilizar substâncias voláteis devido à possibilidade de originar vertigens
de origem periférica, ainda que transitórias.
A remoção do corpo estranho deve ser realizada por profissional médico
devidamente treinado, já que tentativas inadequadas acabam por dificultar ainda
mais a sua remoção.
TUMORES
Diversos tipos de tumores podem ser identificados na orelha externa, sendo ao
mais comuns os carcinomas basocelulares e espinocelulares de pavilhão auricular, sobretudo
devido à exposição ao sol. Habitualmente, a cabeça e o rosto são protegidos por bonés e
protetores com filtros solares, esquecendo-se de proteger os pavilhões auriculares que
ficam expostos diretamente ao sol, sobretudo em sua porção mais cranial.
Outros tumores, tais como hemangiomas, linfangiomas e lesões pré-
cancerosas também podem ser identificadas no pavilhão auricular e até no meato
acústico externo, requerendo tratamento específico segundo o tipo de tumor.
OSTEOMAS E EXOSTOSES
Osteomas são tumores ósseos benignos e exostoses são crescimentos de tecido
ósseo na superfície de um dado osso. O comportamento clínico é muito semelhante,
apresentando crescimento lento e gradual.
A ocorrência de osteomas e exostoses no meato acústico externo é mais
comum em indivíduos que praticam natação em águas frias, podendo-se considerar
que tais formações seriam uma tentativa de proteção da orelha média de temperaturas
mais baixas (3,4).
Na maioria das vezes, são afecções assintomáticas, constituindo-se , quase
sempre, em achados de exames sem repercussões funcionais. Em casos excepcionais
podem provocar a oclusão da luz do meato acústico externo, com necessidade de
tratamento cirúrgico para sua remoção.
HEMATOMA DE PAVILHÃO OU DE MEATO
ACÚSTICO EXTERNO
A coleção de sangue entre o pericôndrio e a cartilagem do pavilhão da
orelha ocorre, geralmente, como conseqüência de traumatismos diretos. É o que
acontece com lutadores, onde o atrito com as orelhas é muito comum. Caso não seja
feito o tratamento adequado, existe a possibilidade de necrose de áreas de cartilagem,
com possíveis deformações cicatriciais do pavilhão.
Outra manifestação, até mais freqüente, é o hematoma de meato acústico
externo, facilmente identificado através do exame otoscópico. Ocorre como
decorrência de manipulação inadequada ou inadvertida do meato, com o uso de
hastes flexíveis com algodão, chaves, palitos, grampos de cabelos ou outros objetos.
Algumas vezes, ocorre a perfuração traumática da membrana timpânica devido ao
uso destes objetos (Figura 1).
Figura 1 - Perfuração traumática da membrana timpânica direita.
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Na presença de hematomas muito grandes, existe a possibilidade de bloqueio
do meato acústico externo, gerando disacusia condutiva transitória (4).
Uma complicação possível, porém felizmente mais rara, é a estenose do
terço externo do meato acústico externo, devido à retração cicatricial.
OTOMICOSE
A otomicose é definida como uma infecção do meato acústico externo por
fungos, mais comumente a Candida albicans, Aspergillus niger e Aspergillus fumigatus.
É caracterizada por prurido auricular intenso, com presença de micélios
fúngicos facilmente identificáveis à inspeção do meato acústico externo. A infecção
por Candida albicans revela um aspecto de leite coalhado ou de algodão, enquanto o
Aspergillus confere um aspecto de poeira. Existe, ainda, a possibilidade de otalgia e
de descamação epitelial (2,3).
A otomicose ocorre principalmente como conseqüência de umidade excessiva
no meato acústico externo, como observado em nadadores, trabalhadores de câmaras
frigoríficas e usuários de aparelhos auditivos. Onde a oclusão constante retém a
umidade oriunda da transpiração natural da pele.
Em geral, deve-se evitar a realização de exames audiométricos nos portadores
de otomicose, principalmente pela possibilidade de identificar-se disacusia condutiva
apenas pela oclusão do meato provocada pelos micélios fúngicos.
1. Gray H. Embriologia. In: Warwick R, Williams PL. editores. Anatomia. 35a ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1979. p.138-
41.
2. Hawke W, Wong J, Krajden S. Clinical and microbiologic features of otitis externa. J Otolaryngol 1984;13:289-95.
3. Hungria H. Patologia do ouvido externo. In: Hungria H, editor. Otorrinolaringologia. 8a ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan;
2000. p.363-7.
4. Lopes Filho OC. Deficiência auditiva. In: Lopes Filho OC, Campos CAH. Tratado de otorrinolaringologia. São Paulo: Roca;
1994. p.535-40.
A otite média aguda é definida como sendo um processo inflamatório
agudo da orelha média (cavidade timpânica e seu conteúdo, a tuba auditiva e
mastóide). Pode ser decorrente de diversos agentes que ascendem à orelha média
em geral pela tuba auditiva, oriundos da rinofaringe, burlando os mecanismos
normais de proteção (1,2,4).
Pode ser classificada em cinco grandes grupos, segundo a etiologia: viral,
supurativa, necrosante, alérgica e tuberculosa.
OTITE MÉDIA AGUDA VIRAL
A infecção viral da orelha média provoca uma degeneração do epitélio de
revestimento (mucoperiósteo), com hiperemia da mucosa e aumento da produção
de muco, decorrente da obstrução da tuba auditiva, que é transitória.
Ocorre o acúmulo de muco na orelha média, além da formação de pressão
negativa, conferindo ao paciente a sensação de plenitude auricular e autofonia.
A otalgia geralmente é leve, com pouca piora nas primeiras horas, salvo nos
casos de miringite bolhosa, onde ocorre o acúmulo de secreção serosa entre a camada
epitelial e a camada fibrosa da membrana timpânica. Neste caso, a distensão da
membrana gera otalgia intensa.
À inspeção auricular, observa-se membrana timpânica de aspecto
avermelhado, com evidência de seus vasos radiados originados na região do anel
timpânico mas, principalmente identifica-se a perda do reflexo luminoso da
membrana. Eventualmente pode-se observar algum nível hidro-aéreo na orelha média
pela