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Otorrinolaringologia e Fonoaudiologia   Edson Ibrahim  Mitre 1

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translucidez da membrana timpânica.
Na ocorrência de miringite bolhosa, evidencia-se uma grande bolha na
própria membrana timpânica, podendo ocupar boa parte do meato acústico externo.
A disacusia condutiva nem sempre é tão evidente, sobretudo nas fases
mais iniciais. Com a progressão do quadro, o comprometimento auditivo pode
apresentar pouca piora. A exceção ocorre para a miringite bolhosa, onde o acúmulo
líquido gera efeito de massa, prejudicando a condução sonora (1-4).
OTITE MÉDIA AGUDA
Capítulo IV
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Edson Ibrahim Mitre
OTITE MÉDIA AGUDA SUPURATIVA
É a forma de otite média mais comum na infância, sobretudo até os três anos de
idade. Tem etiologia bacteriana, sendo os patógenos mais comuns o Haemophilus influenzae,
Streptococcus pneumoniae, Moraxella catarrhalis e Streptococcus piogenes.
A otite média aguda supurativa apresenta, como características fundamentais,
a tendência à supuração (caso não seja tratada precocemente) e cura com reconstituição
integral das estruturas da orelha média, na maioria dos casos. Manifesta-se por fases
distintas e é uma doença limitada ao mucoperiósteo da orelha média.
A primeira fase, chamada de hiperemia, corresponde ao bloqueio da tuba
auditiva, com hiperemia da membrana timpânica e otalgia leve, com febre baixa,
tornando difícil sua distinção da otite média aguda viral. Em crianças pequenas são
muito comuns manifestações de irritabilidade, choro e recusa alimentar.
À medida que a doença progride, ocorre a exsudação de fibrina e
leucócitos na orelha média, além do aumento da produção de muco,
caracterizando o acúmulo purulento na cavidade timpânica e mastóide. A pressão
gerada na cavidade timpânica determina o abaulamento da membrana timpânica
em direção ao meato acústico externo, o que leva à otalgia importante e disacusia
evidente. Aqui, o exame otoscópico não deixa dúvidas de diagnóstico (1-4).
Caso o paciente não receba tratamento em tempo adequado, a doença pode
passar à chamada fase de supuração, onde ocorre perfuração espontânea na parte
tensa da membrana timpânica, com subseqüente drenagem da secreção purulenta da
orelha média para o meato acústico externo. Neste momento, o paciente relata alívio
da otalgia e da febre, mas mantém disacusia muito importante.
De modo geral, a otite média aguda supurativa tende a evoluir para a cura,
mesmo quando ocorre a perfuração timpânica. A orientação mais importante é a de
não permitir a entrada de água no meato acústico externo, facilitando assim o processo
de cicatrização. Ao evoluir para a fase de resolução, o paciente percebe recuperação
gradual da audição, em geral até os níveis normais.
Existe a possibilidade de evolução ruim, com estabelecimento de
complicações, tais como abscesso sub-periostal, meningite, labirintite supurativa,
petrosite e paralisia facial periférica. Com o advento de terapêuticas mais adequadas,
estas complicações tornaram-se mais raras.
Do ponto de vista fonoaudiológico, se contra-indica a realização de exames
audiométricos na vigência de otite média aguda supurativa apenas devido ao
desconforto doloroso do paciente. Em casos de evolução para complicações, o exame
audiométrico pode ser indispensável.
A ocorrência de perfuração timpânica pode, caso não haja proteção
adequada contra a água, levar ao estabelecimento da otite média crônica,
principalmente em adultos.
OTITE MÉDIA AGUDA NECROSANTE
É uma forma especial de otite média aguda que ocorre na vigência de
doenças como sarampo, escarlatina, pneumonia ou gripes, onde existe uma queda
nas defesas naturais do organismo.
Aliam-se a resistência bacteriana aos antibióticos habituais e a produção de
toxinas necrosantes, que levam à destruição tecidual que pode comprometer mucosas,
ossículos e membrana timpânica.
Habitualmente observa-se perfuração ampla da membrana timpânica, que
se estabelece muito precocemente, com poucos ou nenhum sintoma otológico prévio,
sendo a otorréia, com freqüência, o primeiro sintoma desta afecção. O cabo do martelo
é envolvido facilmente, acabando por necrosar, da mesma forma que pode ocorrer
com a bigorna, provocando desarticulação da cadeia ossicular (3,4).
Esta ampla destruição de estruturas da orelha média leva à disacusia condutiva
severa, muitas vezes com diferença aéreo-óssea máxima (60 dB). Felizmente não se
costuma observar envolvimento da orelha interna, e a via óssea encontra-se
preservada.
Existe grande tendência de evolução da otite média aguda necrosante para
quadros de otite média crônica, com manutenção da perfuração timpânica. Também
existe maior facilitação da migração epitelial do meato acústico externo para a orelha
média, em função do estabelecimento de perfuração timpânica marginal (envolvendo
o anel timpânico), podendo desencadear o colesteatoma adquirido secundário.
OTITE MÉDIA AGUDA ALÉRGICA
Esta forma de otite média aguda é de diagnóstico mais difícil, podendo ser
confundida com a otite média serosa. Trata-se de um processo exsudativo, com
liberação de substâncias do tipo da histamina (mediadora de inflamação) e de
mastócitos sensibilizados na orelha média, decorrente de manifestação alérgica de
diferentes causas, sendo as mais comuns as alimentares e respiratórias (2,5,6).
A exsudação leva ao acúmulo de líquido estéril, rico em eosinófilos, na
orelha média. Este líquido é viscoso e de drenagem difícil pela tuba auditiva,
proporcionando disacusia condutiva persistente.
OTITE MÉDIA AGUDA TUBERCULOSA
A tuberculose já foi, no Brasil, uma doença de ocorrência muito freqüente,
e que tem sido pouco lembrada, atualmente, devido a outras doenças que se tornaram
mais graves, como a sífilis e a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS).
Sabe-se, no entanto, que muitos casos de tuberculose ainda ocorrem no Brasil, nem
sempre com diagnóstico e tratamento adequado.
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Uma das formas de manifestação é a otite média aguda tuberculosa, em que
o contágio se faz por secreções (saliva, perdigotos) ou por auto-infecção, nos pacientes
portadores de tuberculose pulmonar. Nestes, o bacilo atinge a orelha média por meio
da tuba auditiva, manifestando-se de forma insidiosa e indolor.
A principal característica clínica, que leva à suspeita do quadro, é a
identificação de membrana timpânica espessada apresentando duas ou mais
perfurações. A supuração é, em geral, escassa e inodora. O sintoma mais freqüente é
a disacusia, decorrente das perfurações timpânicas (4,5,6).
1. Bluestone CD, Klein OJ. Otites media in infants and children. Philadelphia: WB Saunders; 1998.
 2.Hungria H. Otites médias agudas. In: Hungria H, editor. Otorrinolaringologia. 8a ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan;
2000. p.369-72.
3. Lim DJ. Recent advances in otitis media. Ann Otol Rhinol Laryngol 1989;98(suppl. 139).
4. Lopes Filho OC. Otites médias agudas – estrutura e mecanismos de defesa da orelha média. In: Lopes Filho OC, Campos
CAH. Tratado de otorrinolaringologia. São Paulo: Roca; 1994. p.663-76.
5. Paparella MM. The concept of silent otitis media. Otolaryngol Clin North Am 1991;24:763-74.
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7. Shambaugh Jr GE, Glasscock ME. Surgery of the ear. Philadelphia: WB Sauders; 1980.
A otite média secretora é uma forma especial de otite média de instalação
silenciosa, onde existe o acúmulo gradual de líquido na orelha média. Este líquido é,
inicialmente seroso, rico em água e sais, portanto mais fluido. Com a evolução do
quadro, o líquido se torna rico em proteínas, portanto mais viscoso e de drenagem
mais difícil pela tuba auditiva (1,3,7).
Algumas teorias são mencionadas para explicar a ocorrência deste quadro
clínico (3,5-8). Uma das possibilidades é considerar a obstrução da tuba auditiva como
causa básica. Acreditava-se, anteriormente, que hipertrofias exageradas da tonsila
faríngea pudessem funcionar como tampões das tubas auditivas,