O papel das ciencias humanas e dos movimentos sociais - Leoncio
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O papel das ciencias humanas e dos movimentos sociais - Leoncio


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Camino, Leoncio. - Papel das Ciências Humanas e 
dos Movimentos Sociais na Construção dos Direitos 
Humanos. 
 
Em: Giusseppe Tosi, (Org.) Direitos Humanos: 
História, Teoria e Prática. João Pessoa, Editora 
Universitária, Cap. 9, pp. 233-253, (2005). 
 
CAP. 9. 
 
O PAPEL DAS CIÊNCIAS HUMANAS E DOS MOVIMENTOS SOCIAIS 
NA CONSTRUÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS. 
Leoncio Camino 
\uf02a
 
 
Decreta-se que nada 
 será obrigado, nem proibido. 
Tudo será permitido, 
inclusive brincar com os rinocerontes 
e caminhar pelas tardes 
com uma imensa begônia na lapela: 
Só uma coisa fica proibida: 
amar sem amor. 
Os Estatutos do Homem, Art.12 
Thiago de Melo. 1964. 
 
 Os Direitos Humanos nos permitem viver, enquanto utopia, sonhos como 
os de Thiago de Melo, mas, no intuito de transformá-los em realidade, devemos 
analisar seus fundamentos e entender sua natureza. No debate sobre os 
fundamentos dos Direitos humanos podem-se tomar uma de duas direções. Numa 
destas, dá-se atenção aos fundamentos conceituais, jurídicos e/ou filosóficos dos 
Direitos Humanos. Noutra direção, aborda-se a construção destes, a partir da 
historia dos conflitos sociais. Neste capítulo pretendemos mostrar, adotando uma 
perspectiva construtivista, como se articulam os fatores conceituais com os 
processos sociais, em particular com os movimentos sociais. Para isto elaboraremos, 
em primeiro lugar, algumas reflexões sobre os fundamentos e a natureza dos direitos 
Humanos. Num segundo momento abordaremos o papel das ciências humanas na 
definição do que seja a natureza humana, para finalmente analisar a relação 
complexa entre Movimentos Sociais e as concepções científicas sobre a natureza 
humana nos processos de construção dos Direitos Humanos. 
 
1. O QUE SÃO OS DIREITOS HUMANOS? 
As respostas inicialmente centraram-se na noção de Direito. Existem 
basicamente, duas concepções sobre a natureza dos direitos (COMPARATO: 2003; 
PALAZZO: 2000): a naturalista (o direito natural) e a sócio-histórica (o direito 
positivo). Na perspectiva do direito natural, como a própria palavra o indica, os 
direitos seriam inerentes à natureza humana, portanto seriam características inatas. 
No caso dos Direitos Humanos, que não são outra coisa que a abreviação do que se 
 
\uf02a Doutor em Psicologia; professor de Dep. de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia 
Social do CCHLA-UFPB; Membro das Comissões de Direitos Humanos da UFPB e do Conselho Federal de 
Psicologia. Professor da disciplina \u201cMovimentos sociais e dh\u201d nos cursos de Especialização em dh da UFPB. 
considera, \u201cos direitos fundamentais da pessoa humana\u201d, o direito natural afirma 
que estes direitos seriam os fundamentais, os essenciais. Neste caso, os direitos 
existiriam por si mesmos, independentemente das experiências individuais e 
culturais. Diversas visões filosóficas explicitam as formas transcendentais em que os 
direitos se sustentam: para Platão eles se sustentariam nas idéias; para Kant, no 
sujeito transcendental; para a fenomenologia, nas essências. 
 A perspectiva do direito positivo remete, como o seu nome indica, à ruptura 
com as visões do imanentismo e do criacionismo sobre o homem, visões próprias 
da Idade Média. Nesta perspectiva, os direitos seriam produtos assimilados pela 
consciência coletiva através da história (TRINDADE: 2002). O papel determinante 
do social na construção dos direitos tem sido defendido por diversos pensadores: os 
sofistas, na filosofia grega; Hegel, no idealismo; Marx, Weber e Durkheim, no 
pensamento social do período moderno. 
 Atualmente, BOBBIO (1992) resume muito felizmente o pensamento do 
construtivismo quando afirma que os direitos não possuem fundamento absoluto. 
Bobbio mostra que a procura deste fundamento é impossível por diversas razões. 
Como atribuir um fundamento absoluto a direitos historicamente relativos? Por 
outro lado, a diversidade e variabilidade dos Direitos dificultam localizar um único 
fundamento absoluto. Muitos direitos são diversos entre si e, às vezes, até 
incompatíveis. As razões que sustentam um direito não sustentam outros. 
Finalmente, a ambigüidade do próprio conceito de Direitos Humanos dificulta a 
tarefa de encontrar fundamentos absolutos para estes. 
 Deve-se ter em conta que o fato de poder encontrar racionalmente um 
fundamento absoluto de um direito não leva necessariamente a sua realização. A 
historia recente, após a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, 
mostra que não basta criar um acordo nos seus fundamentos, mas é necessária a 
vontade política para implementá-los. 
Como tentaremos mostrar mais na frente, os fundamentos dos Direitos não 
valem em si, mas valem na medida em que criam um consenso em torno deles. O 
argumento do consenso coloca como prova não a objetividade do fundamento 
absoluto, objetividade cuja sustentação parece ser impossível, mas a objetividade da 
inter-subjetividade, isto é, a objetividade das próprias relações sociais (CAMINO e 
ISMAEL: 2004). 
 Mas a própria existência do debate sobre a natureza, imanente ou histórica, 
dos fundamentes dos direitos, permite abordar um paradoxo essencial à esta noção 
(CAMINO: 2000). Por um lado, na perspectiva da própria consciência do indivíduo, 
os direitos se apresentam como realidades evidentes em si mesmas. Pensamos nos 
direitos como coisas muito naturais, decorrentes do que nós mesmos somos como 
as frases: \u201cEu estou em meu direito\u201d; \u201cEu tenho direito a isso\u201d, claramente o 
expressam. Pode-se afirmar que subjetivamente, no dia a dia, os indivíduos agem 
como se adotassem a perspectiva do naturalismo. Por outro lado, quando se observa 
a humanidade como um todo, se constata que ela vem, progressivamente, tomando 
conhecimento de direitos que hoje são considerados como próprios da natureza 
humana, mas que em outros períodos não eram tidos como tal. Acreditamos que 
este paradoxo expressa bem a complexa natureza do que denominamos de Direitos 
Humanos. Embora construções sócio-históricas consensuais e relativas, os Direitos 
Humanos são vividos, de fato, como traços imanentes do ser humano, como 
imperativos absolutos. Trataremos mais na frente deste paradoxo. 
 Que construção consensual é essa? Em primeiro lugar, tratando-se de uma 
construção histórica, devemos tentar datá-la na historia. De fato, pode-se pensar que 
a universalidade dos direitos, em oposição à concepção do Direito ligado ao 
estamento, própria da Idade Media (TOBEÑAS: 1969) constitui a grande crença 
utópica do período moderno, marcado pelas revoluções política e industrial. Na 
Idade Media o conformismo ao destino marcado para cada estamento ou setor 
social, fazia parte fundamental da estrutura feudal e da visão religiosa da época. 
 Para ajudar a entender melhor este tipo de conformismo, temos já feito 
recurso a uma pequena historia que ajudará o leitor a colocar-se na pele de dois 
personagens possíveis (CAMINO: 2000). Para isto é necessário se trasladar a um 
pequeno vilarejo da Europa do século XI. Neste vilarejo de agricultores, uma moça 
simples de 12 anos mora com seus pais. Que espera da vida esta moça no início da 
puberdade? Ou, em outras palavras, a que coisas ela pensa que tem direito? Ela 
espera que seus pais lhe escolham o melhor marido possível, que este lha trate bem, 
que Deus lhe dê muitos filhos, etc., etc. Para uma jovem atual, essa jovem se 
encontraria praticamente despossuída de qualquer direito. Hoje, não faz sentido 
deixar que os pais procurem um namorado, não faz sentido suportar passivamente o 
marido... Mas será que de fato, essa jovem se sentiria despojada de direitos? 
Certamente não. Se chegasse a sentir-se infeliz, ela não atribuiria essa infelicidade a 
uma violação de seus direitos, mas a seu destino. Por outro lado, na mesma época 
no mesmo condado mora um rapaz
Laura
Laura fez um comentário
Que ótimo! Passei quase um ano usando essa ferramenta e agora ela é paga,porque vocês fizeram isso ? :'(
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