O papel das ciencias humanas e dos movimentos sociais - Leoncio
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O papel das ciencias humanas e dos movimentos sociais - Leoncio


DisciplinaPsicologia, Direitos Humanos e Inclusão Social5 materiais67 seguidores
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humano, não pode mais ser 
aceito como regra básica da objetividade na pesquisa científica. Mas, negar a 
necessidade da neutralidade não implica em negar a objetividade da Ciência. Deve-se 
distinguir objetividade de neutralidade. O empreendimento científico, segundo 
POPPER (1978), pressuporia paixão do pesquisador e, portanto, seria descabido 
pensar-se em um cientista neutro. O mesmo autor afirma que "a objetividade da 
ciência não é uma matéria dos cientistas individuais, mas o resultado social de suas 
críticas recíprocas" (POPPER: op. cit. p. 23). Neste sentido, a objetividade da ciência 
não depende da suposta neutralidade de cada um dos pesquisadores, mas da 
existência de condições sociais e políticas que torna possível a intersubjetividade 
crítica. A validade das concepções teóricas se revelará na capacidade que elas 
possuam de construir um consenso em torno delas. 
 Mas que significa este consenso? Ele é tão objetivo, como as doutrinas 
neopositivistas o pretendem? Pensamos que não. Que o consenso científico, como 
qualquer outra forma de consenso humano, se apóia em considerações no fundo 
subjetivas (CAMINO e ISMAEL: 2004). Imaginemos, por exemplo, a seguinte 
situação: se três pesquisadores das ciências naturais concordam com um tipo de 
explicação para certo fenômeno físico, as pessoas tenderiam a pensar que essa 
explicação tem bastante probabilidade de ser válida. Se os três pesquisadores fossem 
das ciências humanas, as pessoas tenderiam a pensar que eles fazem parte do mesmo 
grupo. Mas se os três pesquisadores fossem psicólogos, as pessoas pensariam que 
eles, não só fazem parte do mesmo grupo, mas acreditam que a explicação que eles 
dão certamente é verdadeira. Esta pequena brincadeira do senso comum serve para 
explicitar a profunda ambigüidade que existe no fato de usar a concordância entre 
pesquisadores - verificação intersubjetiva da que POPPER (1978) nos fala -, como 
critério de validade na ciência. A concordância em si, tanto pode reforçar a 
probabilidade de que as explicações concordantes dos pesquisadores sejam válidas, 
como pode indicar a existência de uma mesma perspectiva entre os pesquisadores, 
na analise dos fenômenos. Pode também, como constatamos na terceira parte da 
brincadeira, criar a ilusão da verdade. 
 Voltamos, pois, ao nosso ponto de partida. A ciência constrói-se em torno 
do consenso social. Neste sentido, a ciência pode ser entendida como um processo 
de produção consensual de explicações sobre o mundo. No processo fica impossível 
de distinguir o elaborado, ou seja, o conteúdo do conhecimento, da sua montagem 
ou processo de elaboração do conhecimento. De fato, as imagens do senso comum 
sobre as quais se monta o saber científico terminam por determinar o alcance desse 
saber. Assim a imagem da bola (uma bola de bilhar, por exemplo) estaria na base das 
concepções clássicas da Física sobre o movimento e a atividade (REEVES: 1994) 
enquanto que a imagem de peso, de tara, estaria na base das concepções modernas 
de transmissão hereditária de doenças (GAILLARD: 1994). 
A própria natureza do consenso humano permite que no interior das 
ciências, principalmente das ciências humanas, se desenvolvam diversas concepções 
sobre a natureza do ser humano e diversas práticas destinadas a melhorar suas 
condições de vida. Pretendemos mostrar, nas reflexões que se segue, que estas 
diversas concepções e práticas das ciências, fazem parte essencial do processo 
histórico de construção da consciência coletiva sobre os direitos da humanidade. 
No mundo moderno, as diversas ciências e profissões têm como 
incumbência social definir como funcionam o mundo, os indivíduos e a sociedade 
(FOUCAULT: 2002). Mas definir as formas de funcionamento do mundo, das 
pessoas e das sociedades, no quadro de uma ciência ou profissão legalmente 
reconhecida, significa informar ao público não só o que é normal, mas também, o 
que é bom para os indivíduos e para a Sociedade. Neste sentido, as ciências 
humanas hoje em dia informam ao ser humano, talvez mais que as religiões, sobre 
sua identidade, sobre sua natureza e, portanto, sobre seus direitos. 
Mas constata-se que no meio das ciências, apesar de seu poder informativo, 
existem diversas teorias sobre o mesmo tema, frequentemente tórias opostas. Dada 
esta diversidade de concepções e de práticas o papel desempenhado pelas ciências 
na construção dos direitos humanos é em certo sentido ambíguo e às vezes, até 
contraditório. 
A ambigüidade desta relação e de sua possível avaliação decorre do fato de 
que a ciência faz parte, enquanto instituição histórica, da arena onde se desenvolvem 
as lutas sociais. De fato, as ciências humanas, enquanto instituições, não só são 
influenciadas indiretamente pelas lutas de interesses que se desenvolvem na 
sociedade, criando seus próprios interesses corporativos, bem como em seu interior, 
reproduzem o conjunto de lutas sociais que se desenvolvem na sociedade. Não 
queremos dizer que em todos os debates científicos exista uma clara consciência da 
dimensão política. O que afirmamos é que se pode entender tanto o pensamento 
humano quanto o científico em termos de grandes debates vinculados aos debates 
ideológicos (BILLIG: 1982). Confrontos e reformulações das diversas visões do ser 
humano não se desenvolvem exclusivamente por meio de processos 
epistemológicos e metodológicos. Os debates científicos se dão no interior de 
debates mais amplos na sociedade. 
Assim, por exemplo, Abdias Nascimento (1968) chama a atenção para o fato 
de que, no Brasil do início do século XX, psiquiatras como Nina Rodriguez e Arthur 
Ramos estavam entre os primeiros que se preocuparam negativamente com o papel 
dos negros no desenvolvimento do país. As concepções darwinianas sobre a raça 
influenciaram estes autores. NINA RODRIGUES (1933/1945) considerava que a 
influência dos negros na civilização brasileira, verificada através dos altos índices de 
mestiçagem, seria negativa por eles serem membros de uma raça biologicamente 
inferior. Já RAMOS (1934) considerava a presença dos negros um problema na 
formação da cultura brasileira, não por razões biológicas, mas por razões culturais. 
ISMAEL E CAMINO (2004) colocam, como exemplo de influência positiva 
dos movimentos num debate científico, as críticas que os movimentos feministas 
vêm fazendo ao androcentrismo de diversas teorias sociais (GILLIGAN: 1982). 
Camino e Pereira (2000) mostram que reclamações semelhantes sobre as tendências 
heterocentristas da psiquiatria, da psicanálise e da psicologia, vêm sendo feitas pelos 
movimentos dos homossexuais (MORIN:, 1977, 1978; MORICI, 1998). No que 
concerne as formas subtis que o racismo toma atualmente, temos tentado mostrar 
(CAMINO: 2004) que as concepções clássicas sobre o preconceito da Psicologia, 
pela suas tendências psicologizantes, tendem a justificar atitudes negativas frente à 
necessidade de implantar políticas afirmativas no Brasil. 
Pode-se, portanto, afirmar que as práticas científicas e profissionais 
relacionam-se com os diversos movimentos sociais, políticos e culturais da 
sociedade. É neste sentido que consideramos que as ciências humanas constituem 
um campo de lutas onde se processam tanto avanços como recuos no que concerne 
à construção dos direitos humanos. Mas, nesta arena de lutas sociais que é a ciência, 
pode-se lamentavelmente afirmar que são suas concepções dominantes que têm 
colaborado na sustentação dos processos de exclusão social (CAMINO e ISMAEL: 
2003). 
 
 3. OS MOVIMENTOS SOCIAIS 
Temos terminado nossa segunda parte afirmando que as diversas práticas 
científicas e profissionais relacionam-se com os diversos movimentos sociais. Nesta 
terceira parte pretendemos avançar nossa reflexão afirmando que as teorias e 
práticas científicas fazem parte intrínseca dos movimentos. Esta afirmação explicita-
se melhor quando se tenta
Laura
Laura fez um comentário
Que ótimo! Passei quase um ano usando essa ferramenta e agora ela é paga,porque vocês fizeram isso ? :'(
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