O papel das ciencias humanas e dos movimentos sociais - Leoncio
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O papel das ciencias humanas e dos movimentos sociais - Leoncio


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é a ignorância. (HUGO: 
1871/1992, p. 68) 
 
 
 O mesmo tom antipopular é empregado por outro romancista, Emile Zola, 
quando escreve: 
Ninguém condena mais que eu, os miseráveis loucos e os 
intrigantes sem vergonha que nesse momento oprimem a 
grande cidade. Mas não é preciso, contudo, que 
arrebatados por uma cólera legítima, enegreçamos alem 
da conta a situação [...] O terror reina, a liberdade 
individual e o respeito às propriedades são violados [...] 
Nós, nos sentimos em face de homens desordenados, 
que sentem a necessidade da ordem, que emitem decreto 
sobre decreto, sem conseguirem se fazer obedecer por 
aqueles mesmos que os defendem a tiros de trabuco [...] 
Eu falo do núcleo cosmopolita que se bate por interesse, 
por pressão política ou por espírito de aventura. (ZOLA: 
1871/1992, pp. 91-92) 
 Não é de estranhar que boa parte dos cientistas que se dedicaram a estudar 
os fenômenos de massa, nesse período, manifestara, nos seus estudos, o sentimento 
de repúdio da classe média, em relação às ondas de manifestação e tumultos gerados 
pelo descontentamento da nova classe trabalhadora que se formava no bojo da 
revolução industrial (REIWALD: 1949). 
 Assim, SIGHELE (1892), TARDE (1898) e LE BON (1895), criticando a 
perspectiva socialista, procuraram analisar os movimentos operários, não a partir de 
um referencial sócio-econômico, mas defendendo o primado do psiquismo nas 
ações da massa. Para eles, o ser humano, quando está só, se comporta de maneira 
civilizada, mas ao juntar-se à massa se transforma num bárbaro, numa criatura 
atuando unicamente por instinto. Eles destacam o fato de que o contágio e a 
sugestionabilidade, características inerentes às massas, fariam com que as pessoas 
perdessem tanto sua individualidade como sua racionalidade, criando-se assim uma 
mente coletiva. Sob a influência da mente coletiva e devido à suspensão das 
imposições das normas gerais, os instintos destrutivos das pessoas seriam então 
liberados, o que levaria as massas a agir de maneira violenta e irracional. 
 REICHER (1984) sugere que o interesse destes teóricos era menos o de 
entender os fenômenos sociais que estavam acontecendo e mais o de criar 
condições para uma "solução científica". Assim, SIGHELE (1892, p. 149), que era 
criminalista, chega a debater problemas jurídicos concernentes à responsabilidade 
penal dos participantes de uma ação coletiva violenta. Por outro lado esses autores 
enfatizam de tal maneira o aspeto unitário das massas, centrando-se na noção de 
mente coletiva, que terminam por reduzir a multidão a uma abstração pura ou a uma 
massa rudimentar, como se ela estivesse desligada de suas amarras sociais e 
históricas (RUDE: 1982). 
Estas teorias, apesar do forte viés ideológico e da gratuidade de seus 
pressupostos básicos, influenciaram grandemente as práticas políticas da época. 
Assim, embora o liberalismo, promovesse a liberdade do indivíduo especificamente 
frente ao Estado; a desconfiança frente às massas que se traduz nessas teorias, o leva 
a enfatizar também a necessidade de criar condições para que a escolha eleitoral se 
faça em isolamento, pois as decisões tomadas na massa não caracterizariam atos 
livres nem representariam os verdadeiros interesses dos participantes (MICHELS: 
1914). Neste sentido promove-se, portanto, a liberdade do indivíduo 
simultaneamente frente ao estado e frente a seus pares. Em conseqüência desta 
perspectiva uma propriedade marcante do voto na democracia representativa será a 
de ser um ato estritamente individual. 
 
CONCLUSÕES 
 Ao colocar uma relação estreita, de retro-alimentação, entre ciência e 
movimentos sociais não estamos advogando um relativismo radical. Por um lado, 
gostaríamos deixar bem claro que não estamos afirmando que qualquer teoria ou 
que qualquer prática é boa. Ao colocar as ciências ligadas aos interesses sociais não 
estamos querendo sugerir que todas as teorias e todas as práticas são iguais, se 
equivalem, se são elaboradas e desenvolvidas com boas intenções. Devemos sempre 
lembrar a frase medieval de que \u201cO inferno está pavimentado de boas intenções\u201d. É 
evidente que as diversas teorias e práticas científicas cooperam diferentemente na 
construção da realidade social e, portanto, produzem conseqüências diferenciadas na 
construção da cidadania e no destino da humanidade. 
 Mas por outro lado, acreditamos que não exista nenhum Deus encarnado em 
teoria científica ou prática profissional que possa garantir, a priori, a veracidade de 
uma teoria ou de uma prática. Por isso gostaríamos terminar estas reflexões citando 
outro Poeta. 
Caminante, son tus huellas 
el camino, y nada mas. 
Caminante, no hay camino, 
se hace camino al andar. 
Campos de Castilha 
Proverbios y Cantares, XXIX 
Antonio Machado. 1907 - 1917. 
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Laura
Laura fez um comentário
Que ótimo! Passei quase um ano usando essa ferramenta e agora ela é paga,porque vocês fizeram isso ? :'(
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