A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
15 pág.
Mecanorreceptores da Pele

Pré-visualização | Página 5 de 5

necessariamente benéfico aos amputados, aparentemente o é para os músicos. Os violinistas e outros músicos que tocam instrumentos de corda devem dedilhar continuamente as cordas com sua mão esquerda; os dedos da outra mão, a que segura o arco, recebem consideravelmente menos estimulação individual. A imagem funcional de S1 mostra que a quantidade de córtex dedicada aos dedos da mão esquerda e bem maior em músicos como os violinistas. É provável que essa seja uma versão exagerada de um processo de remapeamento contínuo, que ocorre no córtex de cada pessoa, de acordo com as experiências vividas. Os mecanismos subjacentes a esses tipos de plasticidade do mapa não são compreendidos. 
O Córtex Parietal Posterior:
Como vimos, a segregação dos diferentes tipos de informação é uma regra geral para os sistemas sensoriais, e o sistema sensorial somático não é exceção. Entretanto, a informação dos diferentes tipos sensoriais não pode permanecer segregada para sempre. Quando apalpamos uma chave em nosso bolso, comumente não a sentimos como uma lista de características: determinados tamanho e forma, bordas estruturadas e polidas, superfície plana lisa, dura e um certo peso. Em vez disso, sem pensar muito nos detalhes, simplesmente confirmamos com nossos dedos tratar-se de uma “chave”, e não uma “moeda” ou uma “caixinha de goma de mascar velha”. As características separadas de um estímulo são integradas, sem esforço algum, para a percepção do objeto em si.
Conhecemos muito pouco acerca da maneira como isso ocorre biologicamente em um sistema sensorial, muito menos quando envolve mais de um sistema sensorial. Afinal, muitos objetos possuem aparência, som, toque e odor distintos, e a fusão dessas sensações é necessária para a imagem mental completa de alguma coisa, como o seu gato de estimação, por exemplo.
O que sabemos é que as características dos campos receptivos neuronais tendem a mudar à medida que a informação passa pelo córtex, e os campos receptivos ficam maiores. Por exemplo, os neurônios subcorticais e os das áreas 3a e 3b não são sensíveis a direção do deslocamento do estímulo na pele, mas as células das áreas 1 e 2 são. Os estímulos processados preferencialmente pelos neurônios vão se tornando cada vez mais complexos. Certas áreas corticais parecem ser os locais onde fluxos de informação sensorial segregada e simples convergem para gerar representações neurais especialmente complexas. Quando discutimos o sistema visual, vimos isso ocorrer nos campos receptivos complexos da área IT. O córtex parietal posterior também é uma área para essa finalidade. Seus neurônios possuem campos receptivos grandes, com estímulos preferenciais muito difíceis de serem caracterizados por serem muito elaborados.
Além disso, essa área está relacionada não apenas com a sensação somática, mas também com estímulos visuais e com o planejamento do movimento. Lesões do córtex parietal posterior podem causar alguns distúrbios neurológicos bizarros. Pode-se citar, entre esses, a agnosia, a incapacidade em reconhecer objetos, apesar de as capacidades sensoriais simples parecerem normais. As pessoas com estereognosia não conseguem reconhecer objetos comuns pelo tato (como no exemplo da chave), apesar de a sensação tátil ser normal sob outros aspectos e poderem, inclusive, não ter problemas para reconhecer o objeto pela visão ou pelo som. Os déficits são frequentemente limitados ao lado contralateral a lesão.
As lesões no córtex parietal também podem causar uma síndrome de negligência, na qual uma parte do corpo ou uma parte do mundo (todo o campo visual a esquerda do ponto de fixação, por exemplo) é ignorada ou suprimida, e sua própria existência é negada. O neurologista Oliver Sacks descreveu um desses pacientes em “O Homem que Caiu da Cama”. Após sofrer um AVC que presumivelmente danificou seu córtex, o homem passou a insistir que alguém estava fazendo uma brincadeira macabra com ele, escondendo uma perna amputada sob seu cobertor. Quando ele tentava remover a perna de sua cama, ele e a perna acabavam no chão. Naturalmente, a perna em questão era sua própria, plenamente ligada ao corpo, no entanto ele era incapaz de reconhece-la como uma parte de seu corpo. Um paciente heminegligente pode ignorar o alimento de uma metade de seu prato, ou tentar vestir apenas um lado de seu corpo. Síndromes de negligencia (ou heminegligência) são mais comuns após lesão do hemisfério direito e, felizmente, elas normalmente aliviam ou desaparecem com tempo.
Em termos gerais, o córtex parietal posterior parece ser essencial para a percepção e interpretação das relações espaciais, a noção exata do corpo e o aprendizado das tarefas que envolvem a coordenação do corpo no espaço. Essas funções envolvem uma complexa integração da informação somatossensorial com a de outros sistemas sensoriais, especialmente com o sistema visual.