Auto analise e autogestão - Gregorio Baremblit
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Auto analise e autogestão - Gregorio Baremblit


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BAREMBLITT, G.. Compêndio de Análise Institucional. Rio de Janeiro: 3a. ed., Rosa dos 
Tempos, 1996.
\u201cO Movimento Institucionalista é um conjunto heterogêneo e polimorfo de 
orientações, entre as quais é possível encontrar-se pelo menos uma característica comum: 
sua aspiração a deflagrar, apoiar e aperfeiçoar os processos auto-analíticos e auto-
gestivos dos coletivos sociais\u201d (BAREMBLITT: 1996, p.11). 
Cap. I - O Movimento Institucionalista, a Auto-análise e a Auto-gestão.
Baremblitt (1996) considera que as relações humanas na sociedade 
contemporânea se tornaram extremamente complexas e que a produção de conhecimento 
se intensificou significativamente. Neste cenário, o conhecimento científico ocupou um 
lugar de destaque pela pretensão de garantir uma ação mais objetiva sobre esta realidade. 
Tais circunstâncias produziram em nossa sociedade a figura do expert, ou seja, um 
indivíduo cuja formação oferece uma condição privilegiada para falar sobre um 
determinado assunto. Esse profissional, pela forma como a sociedade se organiza, está 
freqüentemente a serviço de grupos, empresas ou instituições que podem pagar pelo seu 
trabalho. 
Nessa divisão social do trabalho, a sociedade civil viu-se despossuída daqueles 
conhecimentos que antes eram socialmente validados, conhecimentos que organizavam 
seu cotidiano. Esse saber é considerado, pelo pensamento moderno, \u201crudimentar e 
inadequado\u201d, alienando as pessoas da possibilidade de gerenciar as instituições das quais 
fazem parte e mesmo suas próprias vidas. Cria-se uma dependência em relação ao expert, 
personagem legitimado por seus conhecimentos considerados universais e responsável 
por fazer diagnósticos e intervenções sobre problemas diversos, inclusive sociais. A 
noção de um conhecimento considerado universal, o qual o expert domina, será criticada 
pelo Movimento Institucionalista. O conceito de demanda, estudado à frente, nos 
permitirá entender essa crítica.
As políticas públicas muitas vezes partem do pressuposto de necessidades 
universais nas instituições sociais, como se estas necessidades fossem inequívocas, 
naturais. O Movimento Institucionalista considera que as necessidades destas instituições 
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são forjadas historicamente, produzidas dentro de um contexto dentro do qual merecem 
ser avaliadas e questionadas. 
O Movimento Institucionalista vem mostrar que \u201cos coletivos têm 
perdido, têm alienado o saber acerca de sua própria vida, o saber 
acerca de suas reais necessidades, de seus desejos, de suas 
demandas, de suas limitações e das causas que determinam estas 
necessidades e estas limitações\u201d (BAREMBLITT: 1996, p.17) 
Analisar a demanda de um grupo é, portanto, o objetivo principal dos 
Movimentos Institucionalistas, pois através da análise das condições nas quais está 
imerso, esse grupo conseguirá entender quais são suas reais necessidades \u2013 o que pode 
diferir em muito das necessidades socialmente instituídas. O Movimento Institucionalista 
trabalha com o conceito de grupo instituinte, ou seja, grupo capaz de rever e produzir 
novas formas de organização. 
Para atingir esse objetivo, o Movimento Institucionalista se utiliza dos processos 
de auto-análise e autogestão, processos voltados para garantir que o cidadão comum 
possa ocupar novamente o lugar de sujeito de sua trajetória e suas instituições. 
\u201cA auto-análise consiste em que as comunidades mesmas, como 
protagonistas de seus problemas, de suas necessidades, de suas 
demandas, possam enunciar, compreender, adquirir ou readquirir um 
vocabulário próprio que lhes permita saber acerca de sua vida\u201d (17)
Esse processo de auto-análise é realizado dentro do próprio grupo e pelo próprio 
grupo, e permite aos sujeitos participantes avaliar as condições nas quais estão inseridos e 
buscar soluções para seus problemas. Sendo assim, o processo de auto-análise é 
simultâneo ao processo de auto-organização, uma vez que exige que o grupo se 
reposicione diante das novas demandas que irão emergir.
A auto-análise e a autogestão não prescindem, contudo, da figura do expert. 
Devem prescindir, sim, da postura centralizadora e dominante do expert, mas não dos 
instrumentos e da disciplina que ele dispõe e que pode favorecer a organização dos 
saberes desses sujeitos. Para tanto, é de fundamental importância que os experts tenham 
uma reflexão epistemológica sobre as formas como o conhecimento pode se produzir 
através da interação com o senso comum. É fundamental que estabeleça uma relação de 
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transversalidade, integrando-se ao movimento de auto-análise e autogestão do grupo e 
colocando seu saber a serviço do mesmo.
\u201cMas até para que a auto-análise seja praticada pelas comunidades, 
elas têm de construir um dispositivo no seio do qual esta produção seja 
possível. Elas têm de organizar-se em grupos de discussão, em 
assembléias; elas têm de chamar experts aliados para colaborarem 
com elas; elas têm de dar-se condições para produzir este saber; e 
para desmistificar o saber dominante\u201d (BAREMBLITT: 1996, p. 19)
O Movimento Institucionalista também não prescinde da divisão social de tarefas, 
uma vez que as pessoas detêm conhecimentos distintos e as hierarquias podem auxiliar 
no processo de organização. No entanto, hierarquia, na forma como o Movimento 
Institucionalista define, não deve significar hierarquia de poder. O poder está na mão do 
coletivo, que delibera e decide. Não se tratam de ações burocráticas, sem sentido para 
seus executores, mas a consecução de um projeto definido consensualmente, que 
considera o saber constituído nesse coletivo. Não que se ignore e se busque outros 
saberes, mas que este esteja sempre orientado pelo que o coletivo institui como desejável 
para si.
O objetivo do Movimento Institucionalista é, portanto, resgatar experiências 
autogestivas, que muitas vezes não o são da forma idealizada, mas que partem de alguns 
pressupostos comuns. 
\u201cO institucionalismo é alguma coisa assim como o resultado do 
ensinamento destas iniciativas históricas sobre os próprios experts. (...) 
temos aprendido que isso existe e que poderíamos colaborar para seu 
desenvolvimento a partir as experiências históricas que já existiram 
neste sentido e das que estão existindo e se desenvolvem 
perfeitamente ou dificilmente sem a nossa participação\u201d 
(BAREMBLITT: 1996, p. 23)
Contudo, esses processos encontram sérias dificuldades. Por um lado, os 
movimentos instituintes não encontram um momento muito favorável para sua 
ocorrência, já que estão desacreditados quanto à validade de seu saber e muitas vezes 
privados dos recursos para efetivar transformações. Nesse sentido, vale perguntar de que 
forma podem obter poder enquanto coletividade para a viabilizar suas propostas. Por 
outro lado, o institucionalismo produz muita resistência no sistema social, porque visam 
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alterar uma organização vigente. Nesse sentido, encontram-se muitas vezes severamente 
reprimidas ou cooptadas, incorporadas pelo sistema, mas alterando-as em sua essência.
Cap. II \u2013 Sociedade e Instituições
O Movimento Institucionalista concebe a sociedade como uma rede de 
instituições \u201cque se interpenetram e se articulam entre si para regular a produção e a 
reprodução da vida humana sobre a terra e a relação entre os homens\u201d (BAREMBLITT: 
1996, p.29).
As instituições, por sua vez, são composições lógicas, um conjunto de leis e 
princípios que prescrevem ou proscrevem comportamentos e valores,