A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
289 pág.
Linguagem e Linguística - John Lyons (livro completo)

Pré-visualização | Página 50 de 50

lingüistas e filósofos. Não me deterei 
em tais diferenças, mas apresentarei, simplesmente, minha visão particular 
do problema. De certa maneira é uma questão polêmica. Como o são todas 
as alternativas - e há muitas - surgidas na longa história da semântica 
filosófica. 
É óbvio que alguns lexemas, senão todos, estão relacionados tanto a 
outros lexemas da mesma língua (por exemplo, 'vaca' se relaciona a 'ani-
mal', ' touro', 'bezerro', etc.) como também a entidades, propriedades, si-
tuações, relações, etc., da realidade do mundo (por exemplo, 'vaca' se rela-
ciona a uma determinada classe de animais). Podemos dizer, então, que um 
lex ema que se relaciona (de maneira relevante) com outros lexemas, o faz 
pelo sentido; e que um lexema que se relaciona (de maneira relevante) com 
a realidade, o faz por meio da denotação. Por exemplo, 'vaca', 'animal', 
'touro', 'bezerro', etc., 'vermelho', 'verde', 'azul', etc., e 'conseguir', obter', 
'tomar de empréstimo', 'comprar', 'roubar', etc. são séries de lexemas den-
tro das quais existem relações de sentido de vários tipos. 'Vaca' denota 
uma classe de entidades que é propriamente uma subclasse da classe de en-
à dades denotada por 'animal'; que difere da classe de entidades denotada 
por ' touro' (ou 'cavalo', ou 'árvore', ou 'portão') ; que apresenta uma inter-
seção com a classe denotada por 'bezerro'; e assim por diante. 
É claro que sentido e denotação são interdependentes. E se a relação 
entre palavras e coisas - ou entre língua e mundo - fosse tão direta e uni-
forme quanto se supôs que fosse , poderíamos imediatamente considerar ou 
o sentido ou a denotação como base e definir um em termos do outro. Por 
exemplo, poderíamos tomar a denotação por base: considerar que as pa-
lavras fossem nomes, ou rótulos , para classes de entidades (como vacas, ou 
animais) que existem no mundo , externas à linguagem e dela independen-
tes e que o aprendizado do significado descritivo é simplesmente uma 
questão de aprender que rótulo atribuir a que classe de entidades. Tal vi-
são foi explicitada na doutrina realista tradicional dos tipos naturais (i.e. 
classes naturais e substâncias naturais), estando por trás de grande parte da 
semântica filosófica moderna, na veia empirista. Como alternativa, pode-
ríamos adotar o sentido como básico : poderíamos argumentar, haja ou 
não os tipos naturais (i.e. grupos de entidades independentes da lingua-
gem), que a denotação de um lexema é determinada por seu sentido, sen-
do que a princípio é possível saber o sentido de um lexema sem saber sua 
denotação. Esta é a visão de um racionalista - ou seja, de alguém que, ao 
contrário de um empirista, acredita que a razão, e não a experiência sen-
sorial , é a fonte do conhecimento (v. 2.2). Isto se poderia justificar filoso-
ficamente por meio da tradicional identificação do significado (isto é, do 
sentido) de uma palavra com as idéias ou os conceitos a ela associados 
V. 5.1). 
Jorge
Underline
Jorge
Underline
Jorge
Highlight
Jorge
Highlight
Jorge
Underline
Jorge
Underline
148 Lingua(gem) e Lingüística 
Basta dizer que cada uma das alternativas simples e nítidas que apre-
sentamos no parágrafo anterior incorre em dificuldades filosóficas insu-
peráveis. Há maneiras mais sofisticadas de se defender a prioridade lógica 
ou' psicológica tanto do sentido quanto da denotação. Mas não nos devem 
deter. O que o lingüista deve salientar são os dois fatos seguintes: primeiro, 
que a maioria dos lexemas , em todas as línguas humanas, não denota tipos 
naturais; segundo, que as línguas humanas são , de forma bem acentuada, 
lexicalmente não-isomórficas (ou seja, diferem quanto à estrutura lexical) 
no tocante ao sentido e à denotação. Examinemos um ponto de cada vez. 
Alguns lexemas, no inglês e em outras línguas, denotam realmente 
tipos naturais (por exemplo, as espécies biológicas e as substâncias físicas) : 
'vaca', 'homem', 'ouro', 'limão', etc. Mas a grande maioria, não. Além do 
mais, e aí está o principal, os lexemas que denotam tipos naturais o fazem 
de maneira acidental e indireta, por assim dizer. Em geral, são as distin-
ções culturalmente importantes, entre as classes de entidades e agregados 
de matéria mais ou menos homogêneos, tais como água, rocha ou ouro, 
que determinam a estrutura lexical de uma língua: e estas podem coincidir 
ou não com as fronteiras naturais . Por exemplo, segundo Bloomfield, que 
tinha urna tendência altamente empirista, a palavra 'sal' normalmente de-
nota cloreto de sódio (NaQ). Como esta é sua denotação, senão mesmo 
a totalidade de seu significado, e o cloreto de sódio é uma substância que 
existe na naturezâ, é só pelo fato de o sal ter um papel distintivo a desem-
penhar em nossa cultura (e por nós freqüentemente nos referirmos a ele), 
que a palavra 'sal' tem a denotação que tem. O fato de 'sal' denotar uma 
substância natural é lingüisticamente irrelevante. 
Quanto ao não-isomorfismo lexical, o exame mais superficial do vo-
cabulário das diversas línguas rapidamente revela que os lexemas em uma 
língua não têm a mesma denotação que os lexemas em outra. Por exem-
plo, a palavra latina 'mus ' denota tanto ratos como camundongos (para 
não falar em outras espécies de roedores); a palavra francesa 'singe' denota 
ao mesmo tempo primatas e macacos; e assim por diante.ü Evidentemente 
há muitos exemplos de equivalência denotativa entre as várias línguas . 
Alguns casos, diacronicamente, resultam da difusão cultural. Outros se 
explicam pela constância, em culturas diferentes, dos interesses e necessi-
dades humanas. Bem poucos são os casos atribuíveis à estrutura do mundo 
físico como tal. No capítulo 1 O aprofundaremos este tópico. 
Muitos lingüistas sentiram-se atraídos ultimamente pela chamada 
análise componencial do sentido, e mais particularmente pela hipótese de 
ü A tradução de 'singe ' para o inglês é 'apes' ou 'monkeys ' (respectivamente, "maca-
cos maiores ou primatas" e " macacos menores"). O português é mais próximo do 
francês: " macaco" traduz-se para o francês como 'singe ', e para o inglês como 'ape ' 
ou 'monkey', dependendo da denotação. (N. do T.) 
Jorge
Underline
Jorge
Underline
Jorge
Highlight
Semântica 149 
que todos os lexemas de todas as línguas são complexos de conceitos 
atômicos universais, comparáveis aos traços fonológicos possivelmente 
universais (v. 3.5). Hoje em dia, entretanto, está claro que bem pouco 
dos componentes do sentido normalmente citados a este respeito são ver-
dadeiramente universais; e, ainda, que relativamente poucos são os lexe-
mas passíveis de uma análise componencial. Na melhor das hipóteses, po-
deríamos representar alguns traços do sentido de alguns lexemas em 
termos do que se poderia chamar de componentes universais do sentido. 
Por exemplo, partindo da premissa, bem razoável, de que [HUMANO], [FE-
MININO] e talvez também [ADULTO] sejam componentes universais do 
sentido, "mulher" pode ser analisado como conjunto de traços { [HUMA-
NO), (FEMININO J, (ADULTO]}, "homem" pode ser {(HUMANO ), (NÃO-
FEMININO ], [ADULTO]}, "menina" pode ser {[HUMANO], [FEMININO], 
[NÃO-ADULTO]} e "menino" pode ser { [HUMANO], [NÃO-FEMINI-
NO ], [NÃO-ADULTO] }. Alguma reflexão poderá logo mostrar que tal análi-
se não explica o fato de que a relação entre "menina" e "mulher", na 
maioria dos contextos, é diferente daquela que existe entre "menino" e 
"homem". 
Anteriormente, na parte da polissemia, já havíamos dito que a ques-
tão de relação entre significados é um problema de mais ou menos. Isto se 
aplica àquela parte do significado descritivo a que aqui chamamos de senti-
do. Mas podemos perfeitamente identificar diferentes tipos de relações de 
sentido nos vocabulários das diversas línguas. Especialmente o caso da cha-
mada antonímia (ou oposição de sentido) e o que hoje em dia normalmen-
te se conhece como hiponímia. Na realidade