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Curso de Processo Penal   Edilson Mougenot Bonfim   2015

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Princípio da indeclinabilidade. Impõe ao juiz o exercício do 
poder que lhe foi conferido, não podendo o magistrado subtrair-se ao 
exercício de seu mister. Liga-se ao princípio da vedação ao non liquet: 
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No âmbito jurisprudencial, já se decidiu que o vício da incompetência 
jurisdicional (art. 52, Lill), por isso mesmo, provoca a anulação ex radice (da 
raiz, desde o início) do processo8• Contudo, consoante decidiu o STF, em se 
tratando de incompetência ratione loci, os atos ordinatórios e probatórios pra-
ticados por juiz incompetente são reputados irregulares, porém não são anu-
láveis, máxime quando não cerceiam o direito defensivo, não lhe acarretando 
prejuízo9• Da mesma forma, já se decidiu que a ratificação de atos processuais 
meramente postulatórios e instrutórios praticados por juízo incompetente, por 
não envolver manifestação sobre questão fática ou jurídica (art. 567 do CPP), 
não ofende o princípio do juiz natural 10• Entende-se assim porquanto a_ garantia 
do juiz natural não conflita com o disposto no art. 567 do CPP, uma vez que 
este permite o aproveitamento dos atos instrutórios pelo juiz competente''· 
Finalmente, há discussão acerca de eventual violação ao princípio do 
juiz natural quando do julgamento realizado por Câmara composta majori-
tariamente por juízes de primeiro grau. , 
O Superior Tribunal de Justiça sempre entendeu que eram nulos de 
pleno direito os julgamentos de recurso em Câmara composta, majoritaria-
mente, de juízes de primeiro grau convocados 12• 
Todavia, houve grande modificação na orientação da jurisprudência, 
çulminando com a decisão do Supremo Tribunal Federal que, por meio do 
seu Pleno, manifestou-se no. sentido de que a convocação dos juízes de 
primeiro grau para substituição dos Desembargadores e o julgamento dos 
recursos em Câmara composta majoritariamente de juízes convocados não 
ofendiam o princípio do juiz natural13• 
A partir de então o Superior Tribunal de Justiça, revendo seu anterior 
entendimento, passou a decidir no mesmo sentido do Pretório Excelso14 • 
b) Princípio da investidura. Somente poderão exercer função juris-
dicional as pessoas e órgãos legalmente investidos nessa função. Quanto 
8. TRF 3ª R., 2!1 T., Rec. 96.03.36870-9, Rei. Sylvia Steiner, j. 5.11.1996. 
9. STF, 1ª T, HC 76.394, Rei. Moreira Alves, j. 9.6.1998, RTJ, 170/520. 
10. TRF 3!1 R., AP., Rei. Peixoto Júnior, RT, 725/715. 
11. STF, 2liT., HC 77.022, Rei. Néri da Silveira,j. 24.11.1998, RTJ, 1721125. 
12. STJ, HC 100.426/SP, 5!IT., Rei. Felix Fischer,j. 22.4.2008,DJe, 9.6.2008. 
13. STF, HC 96.821/SP, Pleno, Rei. Ricardo Lewandowski,j. 8.4.2010, DJe, 
25.6.2010. 
14. P. ex., STJ, HC 121.331/SP, 5íl T., Rei. Laurita Vaz, j. 27.5,2010, DJe, 
21.6.2010; STJ, HC 147.729/SP, 5í1T., Rei. JorgeMussi,j. 5.6.2012, DJe, 20.6.2012). 
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aos efeitos da ausência de poder jurisdicional do órgão julgador, há igual-
mente duas correntes: parte da doutrina considera inexistentes os atos e o 
processo porventura realizados por pessoa não investida na função juris-
dicional; por outro lado, alguns autores reconhecem que a falta de inves-
tidura gera a nulidade do ato ou do feito. 
c) Princípio da inércia ou prin.cípioda demanda. A jurisdição é, 
como visto, inerte. Se os órgãos jurisdicionais não agem de ofício ( expres-
são do brocardo latino ne procedat iudex ex officio), é necessário um ato 
externo para que tenha início o processo (nemo iudex sine actore). 
O processo penal somente se instaura mediante iniciativa da parte -
assim também o processo civil, conforme o art. 262 do CPC -, não caben-
do ao juiz ex officio, por vontade própria, dar início à· marcha processual. A 
formação do processo se dá mediante o exercício do direito de ação. 
Parte da doutrina distingue o princípio da demanda e o princípio da 
inércia, identificando no primeiro a néce~sidade de que ·um sujeito ajuíze 
uma demanda para que se instaure o processo, e no segundo a necessidade 
de que, no curso do processo, as partes; por su~ jp.iciativa, pratiquem deter-
minados atos para que o processo prossiga reguhumente. 
Em vista desse princípio, há divergê.ncia doutrinária acerca da consti-
tucionalidade do reexame necessário previsto nos arts. 574, I e li, e 746, 
ambos do CPP. · · · 
Os que verberam pela inconstitucionalidade entendem que o recurso 
ex officio da decisão seria uma forma de comprometer a inércia jurisdicional, 
na medida em que atuaria como ó~g~o acusatório. 
Não obstante, outra corrente sustenta que tal previsão não é inconsti-
tucional, haja vista que não constitui um recurso propriamente dito, mas 
sim mera condição de eficácia da sentença, sem a qual não se dá o trânsito 
em julgado da decisão (Súmula 423/STF). 
d) Princípio da improrrogabilidade da jurisdição ou princípio da 
aderência. O juiz somente poderá exercer a parcela da jurisdição que lhe 
foi atribuída por lei, sendo defeso às partes optarem por um juiz diverso 
daquele legalmente estabelecido. A competência, entretanto, pode ser pror-
rogada. Os casos de conexão e continência não são exceções ao princípio 
da improrrogabilidade da jurisdição, porquanto constituem prorrogação da 
competência. 
e) Princípio da indeclinabilidade. Impõe ao juiz o exercício do 
poder que lhe foi conferido, não podendo o magistrado subtrair-se ao 
exercício de seu mister. Liga-se ao princípio da vedação ao non liquet: 
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uma vez provocada a jurisdição, uma decisão deverá ser proferida (ainda 
que não diga respeito ao mérito da causa, quando isso não for possível). 
Relaciona-se, ainda, à noção de jurisdição como função do Estado: a so-
ciedade e seus membros têm o poder de provocar o pronunciamento ju-
risdicional. 
f) Princípio da indelegabilidade. O magistrado deve exercer sua 
função pessoalmente. Não pode delegar a função que lhe foi atribuída. Há 
controvérsia na doutrina acerca da existência de exceção a esse princípio. 
Para alguns autores, a expedição de carta precatória representa delegação 
de jurisdição. Para outros, o único caso de delegação de jurisdição autori-
zado por lei diz respeito à expedição de carta rogatória. Contra essa posição, 
o argumento é no sentido de que a determinação da realização desses atos 
não implica delegação de jurisdição, mas sim requisição para que o juízo 
deprecado exerça sua parcela de jurisdição, realizando o ato determinado. 
Os autores que entendem que a expedição de carta precatória não constitui 
delegação defendem que o juízo deprec~nte não pode delegar poder que não 
detém, de modo que não há como falar, nessa hipótese, de delegação. Para 
esses, o princípio da indelegabilidade é absoluto, sendo que somente a 
coppetência-pode ser legalmente delegada. 
g) "Nullã. poena sine iudicio";· Ninguém poderá ser apenado sem o 
devido processo legal (art. 52 , LIV, dà Constituição). Somente após o pro-
cesso, conduzido por um juiz competente para a causa, poderá ser aplicada 
a norma penal, com a imposição de uma pena ao condenado. 
6. DIVISÕES . 
A jurisdição é unitária, indivisível. Essa unidade, por vezes classi-
ficada como princípio inerente à jurisdição, é, na verdade, uma caracte-
rística sua. Entretanto, o estudo da jurisdição, em que pese seu caráter 
unitário,"costuma admitir a sua divisão, que ocorre somente para efeitos 
didáticos. 
Assim, adotam-se, para fins de estudo, diversos critérios para a divisão 
da jurisdição: 
a) Quanto à graduação: ajutj.sdição divide-se em instâncias. A juris-
dição inferior conhece e decide o feito em primeira instância; enquanto a 
jurisdição superior conhece e decide o feito em grau de recurso. Trata-se 
do duplo grau de jurisdição, que, embora constitua a regra geral, comporta 
exceções, como, por exemplo, os processos de competência originária do 
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Supremo Tribunal Federal ou aqueles de competência dos Juizados Espe-
ciais (cujos recursos são julgados pelos próprios juízes da instância inferior, 
que compõem as Turmas dos Colégios Recursais, por força do art. 82 da 
Lei n. 9.099/95). 
b) Quanto