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Curso de Processo Penal   Edilson Mougenot Bonfim   2015

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confiando-se ambas as funções aos distintos órgãos a um só 
3. Juan Montero Aroca, El derecho procesal en el sigla XX, p. 105. 
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tempo, e os então impropriamente chamados "tribunais" aplicavam penas 
sem a realização de um processo4• Logo, eram "inquisitoriais", mas não 
configuravam, obviamente, um sistema processual. Assim, a denominação 
"processo inquisitório" parece-nos incorreta, pois "não foi e não pode ser, 
obviamente, um verdadeiro processo. Se este se identifica como actum trium 
personarum, no qual perante um terceiro imparcial comparecem duas par-
tes parciais, situadas em pé de igualdade e com plena contraditoriedade, e 
apresentam um conflito para que aquele o solucione ... algumas das carac-
terísticas que apontamos como próprias do sistema inquisitório levam inelu-
divelmente à conclusão de que esse sistema não pode permitir a existência de 
um verdadeiro processo. Processo inquisitório ... é uma contradictio in 
terminis"
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• E, de outra parte, "dizer processo acusatório é um pleonasmo, pois 
não pode existir verdadeiro processo se este não é acusatório"6• 
4.2. A classificação do sistema processual brasileiro 
Ressalvada nossa opinião quanto à divisão tradicional em "sistemas 
processuais" (item 4.1 ), de ver que a doutrina brasileira não é unânime 
quanto ao enquadramento do nosso processo penal em· um dos sistemas 
mencionados. Para alguns autores (Hélio Tornaghi, p. ex.), a persecução 
penal é mista, já que se comp9e de dois momentos ou fases: 
a) Uma primeira fase, do inquérito policial, apresentar-se-ia essen-
cialmente inquisitiva, sigilosa e não contraditória, figurando a pessoa do 
suspeito ou indiciado como mero objeto da investigação. 
b) Uma segunda fase, após o encerramento do inquérito, com o ofe-
recimento da denúncia ou queixa e com a instauração da relação proces-
sual, quando passariam a vigorar as garantias constitucionais das partes e, 
em especial, do acusado. 
Outros autores, contudo, classificam o sistema brasileiro de acusatório 
(Mirabette, Tourinho, Scarance etc.),já que a fase investigatória, inquisitiva, 
não é propriamente processual, pois que tem caráter administrativo. O pro-
cesso, em si, desenvolve-se inteiramente em respeito aos princípios do 
4. ld. lbid., p. 102. 
5. ld. lbid., p. 106-107. 
6. ld. lbid., p. 107. Nesse sentido, Ada Pellegrini Grinover, A marcha do 
processo, p. 78. 
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contraditório e da ampla defesa, assegurando-se a paridade de armas7 entre 
as partes, separando-se o órgão responsável pela acusação daquele que 
julga, ao final, a lide penal. 
Nossa posição: Em que pese a divergência, fato é que a persecução 
penal no sistema brasileiro cinde-se em duas partes, configurando-se em 
sistema misto. A fase investigatória tem, em regra, caráter inquisitivo, a ela 
não se aplicando todas as garantias inerentes ao processo, porque não é um 
processo8• Entretanto, é certo que, no âmbito específico do processo penal 
(subsequente à fase investigatória), a função acusatória é organicamente 
separada da função decisória9, de modo que, se a persecução penal como 
um todo pode ser classificada sob o gênero dos sistemas mistos,o processo 
penal em si- subsequente à investigação- indubitavelmente é "acusatório". 
Isto é, configura-se em "verdadeiro" processo penal (acusatório). Claras, 
portanto, a noção da parte (sistema inquisitório, na primeira; acusatório, na 
segunda) e do todo (sistema misto, na análise da persecução pena1, da fase 
extrajudicial à judicial). 
A manutenção, aliás, de nosso sistema, preservando a existência do 
inquérito policial como uma "instrução provisória", atende por outro lado 
à própria garantia do acusado de se ver protegido contra juízos errôneos e 
precipitados que poderiam se constituir caso se adotasse uma: ação penal 
sem a prévia investigação, ou seja, aquela em que houvesse uma "unidade 
de instrução" (inexistência de inquérito, vigendo o contraditório desde o 
início), a pretexto de celeridade ou respeito ao contraditório. Nesse sentido, 
o item IV da Exposição de Motivos do Código de Processo Penal: 
"IV - ... há em favor do inquérito policial, como instrução provisória 
antecedendo à propositura da ação penal, um argumento dificilmente con-
testável: é ele uma garantia contra apressados e errôneos juízos, formados 
quando ainda persiste a trepidação moral causada pelo crime ou antes que 
seja possível uma exata visão conjunta dos fatos, nas suas circunstâncias 
objetivas e subjetivas. Por mais perspicaz e circunspecta, a autoridade que 
dirige a investigação inicial, quando ainda perdura o alarma provocado pelo 
crime, está sujeita a equívocos ou falsos juízos a priori, ou a sugestões 
7. Sobre o tema, confira-se o trabalho de Welton Roberto, Paridade de armas 
no processo penal; Belo Horizonte: Fórum, 2011. 
8. Juan Montero Aroca, E! derecho procesal en e! sigla XX, p. 108. 
9. Jean Pradel, Procédure pénale, 11. ed., p. 32. 
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tempo, e os então impropriamente chamados "tribunais" aplicavam penas 
sem a realização de um processo4• Logo, eram "inquisitoriais", mas não 
configuravam, obviamente, um sistema processual. Assim, a denominação 
"processo inquisitório" parece-nos incorreta, pois "não foi e não pode ser, 
obviamente, um verdadeiro processo. Se este se identifica como actum trium 
personarum, no qual perante um terceiro imparcial comparecem duas par-
tes parciais, situadas em pé de igualdade e com plena contraditoriedade, e 
apresentam um conflito para que aquele o solucione ... algumas das carac-
terísticas que apontamos como próprias do sistema inquisitório levam inelu-
divelmente à conclusão de que esse sistema não pode permitir a existência de 
um verdadeiro processo. Processo inquisitório ... é uma contradictio in 
terminis"
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• E, de outra parte, "dizer processo acusatório é um pleonasmo, pois 
não pode existir verdadeiro processo se este não é acusatório"6• 
4.2. A classificação do sistema processual brasileiro 
Ressalvada nossa opinião quanto à divisão tradicional em "sistemas 
processuais" (item 4.1 ), de ver que a doutrina brasileira não é unânime 
quanto ao enquadramento do nosso processo penal em· um dos sistemas 
mencionados. Para alguns autores (Hélio Tornaghi, p. ex.), a persecução 
penal é mista, já que se comp9e de dois momentos ou fases: 
a) Uma primeira fase, do inquérito policial, apresentar-se-ia essen-
cialmente inquisitiva, sigilosa e não contraditória, figurando a pessoa do 
suspeito ou indiciado como mero objeto da investigação. 
b) Uma segunda fase, após o encerramento do inquérito, com o ofe-
recimento da denúncia ou queixa e com a instauração da relação proces-
sual, quando passariam a vigorar as garantias constitucionais das partes e, 
em especial, do acusado. 
Outros autores, contudo, classificam o sistema brasileiro de acusatório 
(Mirabette, Tourinho, Scarance etc.),já que a fase investigatória, inquisitiva, 
não é propriamente processual, pois que tem caráter administrativo. O pro-
cesso, em si, desenvolve-se inteiramente em respeito aos princípios do 
4. ld. lbid., p. 102. 
5. ld. lbid., p. 106-107. 
6. ld. lbid., p. 107. Nesse sentido, Ada Pellegrini Grinover, A marcha do 
processo, p. 78. 
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contraditório e da ampla defesa, assegurando-se a paridade de armas7 entre 
as partes, separando-se o órgão responsável pela acusação daquele que 
julga, ao final, a lide penal. 
Nossa posição: Em que pese a divergência, fato é que a persecução 
penal no sistema brasileiro cinde-se em duas partes, configurando-se em 
sistema misto. A fase investigatória tem, em regra, caráter inquisitivo, a ela 
não se aplicando todas as garantias inerentes ao processo, porque não é um 
processo8• Entretanto, é certo que, no âmbito específico do processo penal 
(subsequente à fase investigatória), a função acusatória é organicamente 
separada da função decisória9, de modo que, se a persecução penal como 
um todo pode ser classificada sob o gênero dos sistemas mistos,o processo 
penal em si- subsequente à investigação- indubitavelmente