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ÉTICA POS MODERNA BAUMAN

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que tipo de
comportamento a razão ditaria à pessoa razoável. Tendo-o descober-
to, devem comunicar seus achados aos menos dotados que não os
podem descobrir por própria conta, e fazem-no com a autoridade de
"pessoas que sabem". Aos outros, aos quais se destina a mensagem,
os achados vêm, porém, na forma de Lei: não como norma inerente a
suas escolhas, mas como norma que impõe a escolha de fora. Apesar
do fato de ser a razão sempre propriedade de toda pessoa, às normas
promulgadas em nome da razão deve-se obedecer segundo o padrão
da submissão a uma força externa irresistível. Podem ser entendi- /
das melhor na forma como pensamos de leis legisladas por autorida-/)C
dês armadas com meios coercitivos para forçar suas decisões. Ainda
que a justificação para ser moral seja irritantemente individualista
e autômoma — refere-se ela ao amor-próprio e ao interesse próprio -
só se pode assegurar a realização do comportamento moral pela for-
ça heterônoma da Lei.
Julgamento moral expropriado e reclamado
\ É no hiato entre inclinações individuais "realmente existentes"
e o pretenso modo como se comportariam as pessoas se sua conduta
fosse governada pelo interesse próprio adequadamente entendido
que o código ético poderia se desdobrar como instrumento de domi-
nação social. Com efeito, enquanto havia esse hiato, o código moral
não podia ser nada mais que convite à heteronomia moral ou sua
justificação, mesmo que o código apelasse, como fizera, à capacidade
inata de todos os homens de juízo moral autônomo. Cada pessoa é
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capaz de escolha moral, e esse fato nos permite tratar cada pessoa
como destinatária da exigência moral e como sujeito moralmente
responsável; todavia, por uma razão ou outra (seja pela carga parti-
lhada e hereditária do pecado de Adão, seja pela ignorância do pró-
prio interesse, ou pelas paixões teimosas do animal no homem),
muitas ou a maioria das pessoas, ao escolher, não escolhem o que é
moralmente bom. Assim é, paradoxalmente, a própria liberdade de
julgar e escolher que necessita de força externa que compila a pes-
soa a fazer o bem "para sua própria salvação", "para seu próprio
bem-estar", ou "em seu próprio interesse".
Esse paradoxo perseguiu os pensadores morais pelo menos des-
de o ataque de santo Agostinho contra a "heresia" de Pelágio.
Logicamente, foi esse de fato um paradoxo lógico que estirava a in-
genuidade filosófica até seus limites. Não havia, porém, nada de
paradoxal nele no que se refere ao andamento da atual condição da
vida comum. Todas as instituições sociais apoiadas por sanções coer-
citivas foram e sâTTfundãdas na admissão de que não se poete confiar
qué~õlndívíduo faça boas escolhas jgüer se interprete "boas" como
"bdãlf para o indivíduo" ou "boas para a comunidade", ou ambas ao
mesmo tempo). Todavia, é precisamente o fato da saturação da.vida
comum com instituições^ coercitivas, dotadas jsó com a única autori-
dade de estabelecer os padrões de boa conduta, que principalmente
tOTmTõ~mdividT^e/^gM^^ A única maneira
em~qüe~á liberdade individual poderia ter conseqüênj:la^jnç>ralrnen-.
te positivas (na pratica, se não em teoria) éjmtregar^quela Ijberda-
de aos padrões heterônomos estabelecidoj3;..cederjis agências social-
mente aprovadas o direito de declidir o que é bom e sujeitar-se a seus
veredictos. O que significa, em suma^substituir a moralidade pelo
cócügoTIêgãl, è modelar a ética segjmdpjp padrão da Lei. Aresponsa-
bilidade individual é então traduzida (de novo na prática, ainda que
não na teoria) como a responsabilidade de seguir ou transgredir as
normas ético-legais socialmente endossadas.
Afirmada nessa forma geral, a dialética de moralidade/lei apre-
senta-se como "predicamento existencial" da pessoa humana; como
insolúvel antinomia do tipo "indivíduo versus grupo" ou de "indiví-
duo versus sociedade". É como tal que se refletiu mais comumente
em análises filosóficas e sociológicas, seja as de Jean-Jacques
Rousseau, seja de Herbert Spencer, as de Emile Durkheim ou
Sigmund Freud. Todavia, o modelo aparentemente universal, que
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essas ruminações produziram, escondeu os níveis largamente dís-
pares de heteronomia aos quais os vários indivíduos eram expostos,
e o grau largamente diverso com que podiam aceitar e aceitaram
essa condição. Autonomia e heteronomia individual na sociedade
moderna estão distribuídas desigualmente. Ainda que se possa des-
i cobrir a presença de ambas em toda condição humana, encontram-
se elas em quantidades muito divergentes, tendo sido distribuídas a
jdiversas posições sociais em diversas medidas. De fato, autonomia e
jheteronomia, liberdade e independência (e a imputação de confia-
bilidade moral que tende a ser teorizada expost facto como a raiz de
sua autonomia) estão entre os principais fatores de estratificação
social.
O que os modelos filosóficos e sociológicos da "condição humana
universal" lutaram (em vão) para superar em teoria foi a dualidade
prática de posições morais na sociedade moderna, ela própria ins-
trumento e reflexo de dominação. Na sociedade moderna, alguns in-
divíduos são mais livres que outros, alguns são mais dependentes
que outros.
Permite-se que as decisões de alguns sejam autônomas (e po-
dem ser autônomas, graças aos recursos à disposição dos tomadores
de decisão); ou se confia que os tomadores de decisão saibam bem de
seus interesses e em conseqüência tomem decisões apropriadas e
razoáveis, ou que as decisões que tomam caiam fora da competência
do código socialmente promovido e sejam declaradas "moralmente
indiferentes" (adiafóricas - ou seja, de uma espécie sobre a qual as
autoridades éticas não sentem ser necessário tomar posição). Não se
permite que as decisões de outros sejam verdadeiramente autôno-
mas (e dificilmente podem ser autônomas, considerando a escassez
de recursos disponíveis a potenciais tomadores de decisões); ou não
se crê que sejam capazes de conhecer seus reais interesses e assim
agir segundo eles, ou se definem suas prováveis ações autônomas
como nocivas ao bem-estar do grupo em seu conjunto e assim indire-
tamente aos próprios agentes.
Em suma, essa dualidade de medidas expressa-se como o dile-
ma, de um lado, da intrínseca desiderabilidade de tomar decisões
livres, mas, de outro, da necessidade de limitar a liberdade dos que
se presumem usá-la para fazer o mal. Pode-se confiar que os sábios
(o nome de código dos poderosos) façam o bem autonomamente; mas
não se pode confiar que todas as pessoas sejam sábias. Assim, para
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r
capacitar os dotados de recursos a fazer mais bem, é preciso dar-lhes
ainda mais recursos (eles querem, espera-se, levá-los a bom uso);
mas para prevenir os desprovidos de recursos de fazer o mal, é preci-
so restringir mais os recursos à sua disposição (é preciso, por exem-
plo, dar mais dinheiro aos ricos, e menos dinheiro aos pobres, para
se assegurar que se faça a boa ação em ambos os casos). /
Não se poderá encontrar com certeza nem total liberdade nem
total dependência em qualquer lugar na sociedade. Ambas não pas-
sam de pólos imaginários entre os quais se assinalam — e oscilam —
situações reais. Além disso, os que gostariam, idealmente, de pre-
tender monopólio, ou ao menos uma medida extra, de direitos de
livre escolha com base em habilidades exclusivas de tomada racio-
nal de decisão raramente o conseguem, e com certeza nem em todo o
tempo. A liberdade (a realidade dela, se não o ideal) é privilégio, mas
privilégio ardentemente contestado, e destinado a ser contestado. O
privilégio não se pode pretender explicitamente. Deve ser defendido
de maneira mais sutil, declarando que a liberdade é propriedade
inata da condição humana e depois proclamando que nem todos po-
dem pô-la em uso que a sociedade possa tolerar sem incorrer em
danos para sua sobrevivência e bem-estar. Mas, mesmo nessa for-
ma, a defesa do privilégio é desafiada. O que é ou não é uso adequa-
do da liberdade, o que é benéfico