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ÉTICA POS MODERNA BAUMAN

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que devo ser moral?", é o fim e não o começo da posi-
ção moral, uma posição que (bastante semelhante à Gemeinschaft
de Tõnnies) existe só no estado an sich, dura só enquanto não sabe
de sua presença como presença moral e não se coisifica como objeto
de análise, nem se sujeita a avaliação em termos de padrões que não
17
 Michael S. Pritchard, On becoming responsible, University Press of Kansas, 1991, p. 10.
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são os seus. Se se aproveita a oportunidade, a moralidade ficará li-
vre para admitir (ou, antes, não precisa absolutamente conceder aca-
nhadamente) sua não-racionalidade; seu ser sua própria razão, tan-
to necessária como suficiente. E será bom isso, visto que nenhum
impulso moral pode sobreviver, e nem se diga, emergir incólume do
teste ácido da utilidade ou do proveito. E visto que toda imoralidade
começa pela exigência desse teste - da parte do sujeito moral, ou do
objeto de seu impulso moral, ou de ambos.
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A UNIVERSALIDADE ILUSÓRIA
Há cerca de meio século, Robert Musil meditou, em Der Man
ohne Eingenschaften, de maneira esmerada mas propriamen-
te incompleta, o adeus ao século dezenove:
Quem ainda pode estar interessado naquela envelhecida conversa inútil so-
bre o bem e o mal quando se estabeleceu que o bem e o mal não são absoluta-
mente "constantes", mas 'Valores funcionais", de tal sorte que a bondade das
ações depende das circunstâncias históricas, e a bondade dos seres humanos
da capacidade psicotécnica com que se aproveitam de suas qualidades?
É questão aberta até que ponto, e mesmo se, essa "historicidade"
do bem e do mal, que abalou os pregadores morais em seu íntimo mais
profundo, também teria inquietado os homens e as mulheres comuns
absorvidos em suas tarefas quotidianas; e se em tempos de indeci-
são, ou mesmo em momentos traumáticos em que se sentiam perdi-
dos, teriam seguido os filósofos em vincular sua incapacidade de agir
ao fato de que outras pessoas, em outros tempos e lugares, traçaram
diversamente deles a linha entre bem e mal; ou se o conhecimento
desse fato, se o tivessem tido, os teria perturbado muito; se esse fato
acrescentaria algo à ansiedade da incerteza e indecisão que já os
perseguia quando lutavam para controlar seu próprio futuro que
teimava em ser desconhecido; e se isso mudaria seus caminhos em
medida notável. Parece que poucos de nós se incomodam com desco-
brir em que extensão (grande ou pequena) nossas imagens de bem e
mal são partilhadas, e por quanto tempo durou ou duraria o consen-
so; para a maioria de nós, a crença de que o que fazemos é aprovado
por "pessoas como nós" — "pessoas que contam" — é tudo o de que pre-
cisamos para dormir tranqüilamente, e tranqüilizar nossa consciên-
cia quando "eles" — os "dissemelhantes a nós" - desaprovam.
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D laço^streito-entre-a obediência a normas_ morais e a_manu-
tenção daja-gnça em sua universalidade foi com toda probabilidade
sobretudo idéia de filósofos e preocupação de filósofos. Não se pode-
ria postular e não se postularia tal laço a não ser que já se tivesse
imputado aos homens e às mulheres comuns a busca de coerência e
congruência que era a marca profissional dos filósofos; ou se já se
tivesse projetado neles os interesses característicos dos poderes que
contam, que costumam promover suas ambições locais sob bandei-
ras universalistas. Mas era na verdade preocupação de filósofos, e
preocupação aliás séria.
O fato de as imagens de bem e mal diferirem de um lugar a outro,
e que há pouco que se possa fazer quanto a isso, não tem sido segredo,
pelo menos desde Montaigne. Mas poucos, entre os autores que escreve-
ram sobre o caso, visualizaram esse fato com resignada equanimida-
de à maneira de Montaigne, ainda serena e tranqüila. A maioria vi-
sualizou-o com horror, como ameaça e supremo absurdo - como desa-
fio tanto para o pensador como para o agente. A verdade é uma, por
definição - são os erros que são numerosos; a mesma coisa com certe-
za deve valer para retidão, se os preceitos morais devem ter autorida-
de mais respeitável que a do mero "é isto o que eu quero; e eu o quero
agora", batendo o pé e erguendo o punho. Se as normas morais prega-
das e/ou praticadas aqui e agora devem ter essa autoridade, é preciso
mostrar que outras normas são não só diferentes, mas também erra-
das e más: que sua aceitação decorre de ignorância e imaturidade, se
não de má vontade. '
v
A urgência de salvar a integridade da própria visão moral da
derrota, que certamente deve vir uma vez que se descobriu que a
visão não passa de uma no meio de muitas, atendeu-se melhor, pode-
se argumentar, com a idéia dejDrogresso que dominou o pensamento
moderno na maior parte de sua história. A alteridade (toda alteri-
dadade feita pelo homem, inclusive a ética) foítemporalízãããde ma-
neira característica da idéia de progresso: õntempo significava
>m>
"fora de moda^pu, "ainda não desenvolvido-adequadamente". (O que
levou então a atribuir o que se desaprovava nos fenômenos ao passa-
do como sua moradia natural; apresentá-lo como relíquias que so-
breviveram a seu tempo e vivem no presente só com tempo tomado
de empréstimo - e seus portadores como já realmente mortos, cadá-
veres que deviam ser enterrados quanto antes em vista deles mes-
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^ todos). Essa visão ajusta-se bem tanto à necessidade de legi-
timar a conquista e a subordinação de diversos países e culturas, como
à de apresentar o crescimento e a difusão do conhecimento como o
principal mecanismo não só de mudança, mas também de mudança
para melhor - de melhoria. Nas palavras de V. G. Kiernan, "as nações
colonizadoras esforçavam-se o máximo para se agarrar à convicção de
que estavam espalhando no mundo não só ordem, mas também civi-
lização".1 Johannes Fabian apelidou esse hábito muito difuso dg^crono-
política": projetar a diferenciação contemporânea sobre a seta do tem-
poTde forma que se possam descrever alternativas culturais como "alo-
crônicas" - pertencentes a tempo diverso e sobrevivendo até o presen-
te com falsos pretextos, sendo meras relíquias destinadas à extinção.2
,. . .O universalismo e suas inquietações
O postulado de universalidade foi sempre demanda sem endereço;
ou, um pouco mais concretamente, espada com o gume voltado contra
alvo seleto. O postulado era uma reflexão sobre a prática moderna
de universalização — de maneira semelhante à dos conceitos relaciona-
dos de "uma só natureza humana" ou "essência humana", que refletia
a intenção de substituir o cidadão (a pessoa caracterizada só com os
atributos atribuídos pelas leis da única e inconteste autoridade que
age em prol do estado unificado e soberano) pela coleção heterogênea
de paroquianos, parentes e outros habitantes locais. O postulado teó-
ricoaiusta-se bem As ambições e práticas unifonnizantesj|o.esiado
moderno, à guerra por ele declaradajcontra os pouvoirsjntermédiai-
res7às~suãs cruz^.ãscült"iirã:is" contra costumes locais definidos como
superstições e condenados à mortejpelo
tração centralizada^ O "homem universal", reduzido só aos ossos da
"natureza humana",
- um
 L"ê l^iãõ:sõbrêcarregado"; não necessariamentênão-afet-ado-pelos —
particularismos conumalmente inspirados, mas capaz de escapar das
raíz^s^elêãldãdês coinmL^Idê^elrguer-se, pôr assim_dIzex_a_pJLano---
mais elevado e ter daí visão
1
 V. G. Kiernan, The lords ofhuman kind, Cresset Library, Londres, 1988, p. 311.
2
 Cf. Johannes Fabian, Time and the order: How anthropology makes its object, Columbia
University Press, Nova York, 1983.
3
 Cf. Alasdair Maclntyre, After value, 1981.
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A exigência de só reconhecer como morais as normas que passam
pelo teste de certos princípios universais, extratemporais e extra-
territoriais, significava primeiro e sobretudo a rejeição das pretensões
comunais, ligadas a tempo e território, de fazer julgamentos morais
com autoridade.4 A espada, porém, usada para esse fim, logo se re-
velou ser o que fora desde