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ÉTICA POS MODERNA BAUMAN

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o início - espada de dois guines. É verdade,
ela cortava fundo na carne dos nomeados adversários do paroquia-
lismo desaprovado pelo estado, mas também feria lá onde não se
tinha a intenção de ferir, prejudicando seriamente a própria sobera-
nia do estado que se esperava que ela defendesse. Com efeito, por
que deveria "o eu não-sobrecarregado" admitir o direito da Lei do
Estado, desse estado aqui e agora, de definir sua essência? Por que
deveria aceitar o convite a se confinar no molde da cidadania mo-
delado pelo estado?
Quando tomado de maneira séria (ou seja, da maneira como é
tomado pelos filósofos, não pelos praticantes dos poderes legislativos),
o postulado da universalidade não só^alui-as prerrogativas morais
das comunidades agora transformadas em unidades administrativas
da nação-estado homogênea, mas também torna inteiramente insus-
tentável a pretensão por parte do estado de ser a suprema autorida-
de moral. A lógica do postulado é dissonante com a prática de qual-
quer comunidade política que se autodetermina; opõe-se não só ao espe-
cífico contrapoder, presentemente no banco dos réus pela acusação
de obstruir o movimento rumo à universalidade, mas também o pró-
prio princípio aristotélico da política como fonte última e guardiã de
humanidade. Milita contra qualquer teoria, como as de Michael Walzer
ou Michael Oakeshott, aritotélicos contemporâneos, que concebem o
"raciocínio moral como apelo a sentidos internos a uma comunidade
política, e não apelo a princípios abstratos",5 sem levar em conta o
nível em que se localiza a comunidade política em questão.
"Uma afirmação, que tem a forma verbal de um juízo moral para o qual se é incapaz de
dar razões, não expressa absolutamente um genuíno juízo moral" - pode-se tomar como ex-
pressão prototípica dessa visão (de Marcus Singer, Generalization in ethics; citado segundo
Neil Cooper, "Two concepts of morality", emPhilosophy [1966] pp. 19-33). Cooper chama esse
conceito de moralidade de "autônomo" e "independente", como distinto de "positivo" ou "social";
essa versão de moralidade apresenta-se, por exemplo, na afirmação de H. L. A. Harts (em
Legal and moral obligations: essays in moral philosophy), de que "só podemos entender a
moralidade do indivíduo como desenvolvimento do fenômeno primário da moralidade de um
grupo social".
Michael J. Sandel, "Introduction", em Liberalism and its crítics, ed. Michael J. Sandel,
Blackwell, Oxford, 1984, p. 10.
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D earva b A
Tódãpo/is separa, coloca à parte, "particulariza" seus membros
com referência aos membros de outras comunidades, de mesma forma
que os une e faz iguais dentro de suas próprias fronteiras. O eu "situa-
do (nos termos de Maclntyre, o oposto do eu "não-sobrecarregado") é sem-
pre posto contra um eu diferentemente situado — enraizado em outra
polis. Por essa razão, a exigência universalista tende a se voltar con-
tra ajTõSiZçp^jte^a^ guerra contra
seus próprios rebeldes; em seu^limites lógic^Sj^ssãJagênciasój3ode_
gé¥tãr~incêssantemente oposição contra todo ditado moral, gerando
assím posiç"ãõ"radicálnièntè~mo^i;i<ÍMaZísío. Promovendo padrões os-
tenüvamenteuniversais, embora por necessidade crescidos em casa e
ligados a ela, a própria política encontra oposição e resistência em
nome do mesmo princípio do universalismo que ilumina e/ou enobre-
ce seu propósito. A promoção de padrões universais parece suspeito-
samente com supressão da natureza humana e tende a se censurar
como intolerância. é&Wvil l! T 4 ft /'•£ WO
Para os defensores do eu "situado" ("comunitários", como vieram
á%er conhecidos), as ambições universalísticas e as práticas uni-
versalizantesjKmstituem certamenle_um:ultrag& - veículos de opres-
são, ato de violência perpetrado contra a liberdade humana. São, po-
rém, também inaceitáveis aos universalistas de j)oa-fé, séria eTcõnsüF
tentemente liberais, que estão atentos ajjuaisflu^LBOderes_mais_estrei-
toslpe o universal que se pj^_amam,ser-os-pj*omQtores^de_padrões
presumídamente universais. Ta^conig liberais consistentes a vêem, a
mdr^Mã^F^^ê^õdênêlffã^mjm^quSEg^es e capacidades possuí-
das pelos indivíduos enquanto pessoas humanas. Códigos éticos promo-
vidos em nome de grupos - seja em vista de "interesses grupais superio-
res", seja em vista de "suprema sabedoria grupai" - eles considerariam,
como o fez Sõren Kierkegaard, como instância de conspiração entre
caciques ávidos de poder, por um lado, e do desagrado sentido por seus
supostos protegidos pela carga da responsabilidade moral, de outro:
Por sua natureza, o homem faz parte da criação animal. Por isso, todo esforço
humano tende para o arrebanhar-se; "unamo-nos", etc. Naturalmente isso
acontece sob todos os tipos de nomes altissonantes, como amor, simpatia e
entusiasmo, ou com o empreendimento de algum grande plano, ou coisas se-
melhantes; é a habitual hipocrisia dos safados que somos. A verdade é que,
dentro de um rebanho, vemo-nos livres do padrão do individual e do ideal.6
6
 Sõren Kierkegaard, The last years: Journals, 1953-55, Collins, Londres, 1968, p. 31.
"Ninguém quer ser pessoa singular, todos esquivam-se do esforço" (p. 51); mas "logo que surge
a massa, Deus é invisível... Deus existe só para a pessoa singular" (p. 95).
51
Essa não é, porém, a única razãoj>ela qual a arma do univer-
salismb~pode~virâT~contra^)s que a manuseam^Com as agencias^ro-
motoras do uluvírsaílsmo destituídas de soberania verdadeiramen-
te universal, o horizonte da universalidade "atualmente_existente"
(ou, ajites, realisticamente buscada) tende a parar- nas-fronteirasjdo
estado. As ambições universalistas de cada autoridade soberana le-
vam existência precária no meio da pluralidade de autoridades so-
beranas. Só_pjdjg_§ej[Lc.onsistentemente universalista um poder_guei
Se ínfVlinP £» irJontiíioo-^ n ^™_^_-- t
_A__^^_Í=.OT_,. *~+JLVW.I^IM.IK; uinveiocuiaici um pocier_c[ut3
se incline a identificar a espécie "Humana em seu cpnjimto^cfím ã
população sujeita a seu domínio atual ou em perspectiva. E imprová-
vel que ümjpoderjlesse tipo emerja numjnundo organizadpjiêgUBdo
o í i o nações-estado. e~numjnundo em quejienhuma dasi_ ^_
 ;_==^&=^ -~-—«>,~ Ji^ir^Luunuu BIII gue_nennuma das
nações-estado manteria seriamente por longo tempo o sonho da so-
bêrani^ecumênica. Dado isso, ¥^oexistêliciã^ê^ã1iitõndãdis~s"òbe-
ranas, cada uma com Hõmíriiõ limitádõ~circuTíscfito por suas vizi-
nha^^r^isã~cfiãFã~soridafidade dósi süberanpsjjim-reconhecimgn-
to âçprêssp ÒJU-tãciíõ do^ domíniíunicp de cada sojberáno dentro dos
confins de sua jurisdição regia, aq.estilp do "cuius regio, eius religio".
Voce""diz a seus súditos o que fazer, e eu por minha vez o direfaos
meus. Dajmesmajorma como_S£ modela a imagem^dejiprmas morais
univCTsai^para^uso doméstico^egundo o padrão da lei univérsãT
promulgada pelas autoridades do estado, visualiza-se a univefsali-
dade~moral supr¥-estãtara semelha'nça de "relações internacionais":
como o precipitado de diplomacia, barganhas, busca de "pontos de
consenso", genuínos ou fictícios, o que se combina como "verdadeira-
mente universal" no fim, está mais na linha de "denominador co-
mum" que de "raízes comuns". Atrás do procedimento espreita a su-
posição que o torna praticável: que existe mais de uma concepção de
moralidade universal, e que uma delas prevaleça é relativo à força
dos poderes que pretendem e asseguram o direito de articulá-la.
™ Por poderosas sejam essas compulsões e profundas as contradi-
-eoes inatas do projeto universalista, a modernidade tratava todaj^e-
latividade como estorvo e desafio - sobl^fuíõn5üm:o"temporaiíamen-
te irritamX^sercuràda em breve. Ppr difícil que se tenha-compro-
vadcTser a pj^ti^c^dajiniyer_salidaole_m^ral,^ãp^se permitiu_ajie-
nhuma_dificuldade .prátiea-lançar dúvidas sobre a universalidade
como ideal e horizonte da história. Ó relativismo foi sempre apenas
"corréüte"; tendeu a considerar-se sua persistência, apesar dos es-
forços presentes,