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ÉTICA POS MODERNA BAUMAN

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1987, p. 149.
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total responsabilidade, que responde por todos os outros e por tudo nos outros,
mesmo por sua responsabilidade. O eu sempre tem uma responsabilidade a
mais que todos os outros.9
O nó da subjetividade consiste em ir para o outro sem se importar com seu
movimento para mim. Ou, mais precisamente, consiste em se aproximar de
tal sorte que, acima e além de todas as relações recíprocas que não deixam de
se estabelecer entre mim e o próximo, eu tenha sempre dado um passo a mais
rumo a ele ... O próximo atinge-me antes de qualquer conjetura, antes de
qualquer desempenho aceito ou recusado ... Como que ordenado de fora, eu
sou traumaticamente comandado, sem interiorizar, por representações ou con-
ceitos, a autoridade que me comanda. Sem perguntar-me a mim mesmo: O
que então tem a ver comigo? Donde tirou ele o seu direito de comandar? O que
eu fiz para de início me achar em débito?
A face de um próximo para mim significa uma responsabilidade inexplicável,
precedente a qualquer consentimento livre, a qualquer pacto, a qualquer con-
trato.10
Nenhuma liberdade é absoluta, oniabrangente, ilimitada. Não
existe modo de se levantar de qualquer espécie de dependência
senão com a alavanca de outrem. Cada luta de libertação tem por
resultado, se triunfante, na substituição de uma constrição, penosa e
vexante, por outra — ainda não experimentada ou vista como mal me-
nor. Cada liberdade celebrada é uma liberdade da dependência mais
temida, mas não uma dependência como tal. A emancipação mo-
derna tomou como ideal o homem socializado, guiago^por^ normas
racionalmente processadas, claramem^jexpjressas,legjihTient<^ en-
dossadas e rebatizadas assmTcÕmo a Lei do País,jg[ue substituiria^
depenHenciã^íãs forças rebeldes e incontroladas, não-cqdificadas e,
em conseqüência, "cegas^õlTinitTnTiôls e emoções humanos (para
DurKh^im7pòr exemplo, tirar as algemas constrangedoras de nor-
mas societariamente impostas não revelaria um indivíduo livre,
mas um escravo de paixões animais). Dejjutro lado, liberdadejdoeu,
a quem se devolveu o direito de agir por sua própria responsabilida-
de mc«^l7semTíelíh1Im^rvêrgõnEã é sem nenhuma necessidade de
defender-se, só pode significar abandonar-se a um comando moral
que não conhece nenhum alívio e sempre exige majs do que o eu
pode~ou^qilêTentrêgar.
9
 Emmanuel Lévinas, Ethics and infinity: conversations with Philippe Nemo, Duquesne
University Press, Pittsburgh, 1985, pp. 98-99.
10
 Emmanuel Lévinas, Otherwise than being, or Beyond essence, Martinus Nijhoff, Haia,
1981, pp. 84, 87, 88.
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O campo do ser, o campo das normas, é também campo de signifi-
cados. Espera-se das coisas e dos atos que portem significados e pos-
suam sentidos: ser possuidores de significados, e — sendo a proprieda-
de relacionamento de exclusão - ter significados que outras coisas e
atos não têm. A responsabilidade, na medida em que permanece apenas
moral, na medida em que nenhuma tentativa se fez para exauri-la numa
lista de obrigações e direitos concedidos, não tem significado nesse
sentido. A face, com que a responsabilidade se confronta, levanta exigên-
cias por sua insignificância, pela irrealização de seu potencial de assu-
mir e portar significados. Será somente mais tarde, quando eu reconhe-
cer a presença da face como minha responsabilidade, que nós dois, eu
e o próximo, adquirimos significados: Eu_sou eu, quem sou responsa-'
vel, ele é ele, a quen^eu atribuo o direito de fazer-me responsáyjel. E
nessa criação de significado do Outro, e assim também de mim mesmo,
que chega a mim minhaliberdade, minha liberdade ética. E precisa-
meriíè por causada uriilateralidade, por causa da não-simêtria da res-
ponsabilidade, por causa da condensação de poder criativo inteiramente
do meu lado, é que a liberdade do eu ético seja talvez, paradoxalmente,
a única liberdade que se veja livre da sombra ubíqua da dependência.
Lévinas chama o campo do comando moral a ser responsável (e
assim a ser livre) de "proximidade". O termo - com suas conotações
espaciais - está mais uma vez sous rature: nada há de realmente
espacial na proximidade, certamente não no sentido do espaço físi-
co, nem sequer no sentido do espaço social (o da densidade do mútuo
conhecimento). A contigüidade da proximidade não se refere ao encur-
tamento da distância, aos dois seres vindos a ficar braço a braço ou
face a face (literal ou metaforicamente), à^contigüidade ou à fusão de
identidades. Não se refere a qualquer coisa de relativo que possa ser
mapeado ou medido. A "proximidade" está pela única qualidade da si-
tuação ética - a qual "se esquece da reciprocidade, como no amor que
não espera ser partilhado". A proximidade não é uma distancia muito
pequena, nem sequer é superar, negligenciar ou negar a distância -
é, simplesmente (embora não por inteiro simplesmente), "uma su-
pressão da distância":
Não se pode reduzir o relacionamento de proximidade a qualquer modalidade
de distância ou contigüidade geométrica, nem à mera "representação" de um
próximo; ela já é uma adjudicação, uma adjudicação extremamente urgente —
uma obrigação, que precede no tempo a todo desempenho. Essa anterioridade
é "mais velha" que o o príorí.
O "significado absoluto e próprio" de proximidade, simplesmen-
te (ou néuTpor inteiro jü]^esmén^~"pressupõe 'humãniHadê^^?1 A
proxSãídãde do próximo é "obsessiva" - a espécie de imediatidade
que está "dormindo no palco da consciência, não por falta mas por
excesso, pela 'demasia' da aproximação". A proximidade está "além
da intencionalidade".12 A intenção já pressupõe um espaço medido,
uma distância. Para a intenção ser, deve haver primeinTseparaçããT
teiffpsnpãrãl-ifletir e ponderar, para "elaborar uma decisão", para
proclamar ou anunciar. A proximidade é o terreno de toda intenção,
sem ser ela mesma intencional. Maurice Blanchot sugeriu que o
Outro, no relacionamento ético, é "a atenção":
A atenção é esperar [L'attention est l'attenté]: não um esforço, tensão, nem
mobilização de conhecimento em torno de certa coisa com a qual se está preo-
cupado. A atenção espera. Espera sem pressa, deixando vazio o que está vazio,
e evitando apenas a pressa, o desejo impaciente e, mais ainda, o horror do
vazio que nos incita a preencher o vazio prematuramente.13
Tal atenção, tal esperar, não é possessivo; não visa despossuir o
Outro de sua vontade, de sua distintividade e identidade — através
da coerção física, ou da conquista intelectual chamada de "a defini-
ção". A proximidade nem é distância superada por uma ponte, nem
distância exigindo ser superada por uma ponte; não é um preâmbulo
para identificação e fusão, que pode, na prática, só ser ato de sucção
e absorção. A proximidade está satisfeita com ser o que ela é - proxi-
midade. E está disposta a permanecer tal: estado de permanente
atenção, venha o que vier. Responsabilidade nunca completa, nunca
exaurida, nunca passada. Esperar pelo Outro para que exerça o seu
direito de comandar, direito que nenhum comando já dado e obedeci-,
do pode diminuir. (}
A aporia da proximidade I)o
Prestar atenção, esperar dessa maneira, é tarefa que desanima.
Estira o eu até aos limites de sua capacidade de agüentar; chega
muito perto desses limites em busca da possibilidade de se poder
119.
11
 Lévinas, Otherwise than being, pp. 82, 100-101, 81.
12
 Emmanuel Lévinas, "Language and proximity", em Collected philosophical papers, p.
).
13
 Maurice Blanchot, L'Entretien infini, Gallimard, Paris, 1969, p. 174.
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evitar a transgressão. Por quanto tempo pode alguém esperar, se
nenhum fim se promete, se ao esperar se nega desde o início que virá
o conforto da realização? Não admira que o pensamento comece com
a responsabilidade buscando febrilmente sua própria negação. A ten-
tação de perguntar: "Sou eu o guarda de meu irmão?", inscreve-se no
ser um. A "fuga da liberdade" de Erich Fromm não é