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ÉTICA POS MODERNA BAUMAN

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arranjos
estruturais que sustentam em "tempos normais" a vida da societas.
As condições da societas e da communitas são mutuamente opôs-'
tas em quase todos os aspectos. Se a societas sèTcaracteriza por
heterogeneidade, desigualdade,_diferenciaçãode_s.£a£us^sistema de
nomenclatura, a communitas está marcada por homogeneidade,
135
T"
igualdade, ausência de status, anonimia_O-conjunto de diferenças
acima relacionadas reflete-se simbolicamente nas ostentações e nas
oposições notáveis entre, digamos, vestes distintivas referentes ao
status, de um lado, e veste uniforme (ou nudez; despir-se em público
é a mais enfática das afirmações "antiestruturais"), de outro; ou en-
tre simbolização, supersimbolização e subsimbolização de distinções
sexuais; ou entre cuidado e displicência da aparência pessoal. Em
outras palavras, a communitas liqüefaz o que a societas tenta ardua-
mente moldar e forjar. Ou a societas molda, configura e solidifica o
que dentro da communitas é líquido e carece de forma.
Turner explica a co-presença (pública ou oculta) das duas condi-
ções em geral funcionalmente: a breve interrupção de mudadores de
status na communitas entre duas áreas de residência estável na
societas tem
o sentido social de reduzi-los a certa espécie de matéria-prima humana, des-
provida de forma específica e reduzida a uma condição que, embora ainda seja
social, está desprovida ou abaixo de todas as formas aceitas de status. A impli-
cação é que para um indivíduo subir na escala de status, deve descer mais
baixo que a escala de status. 9
Os indivíduos devem ser humilhados para ser elevados; despo-
jados da parafernália ligada ao status anteriormente obtida, para
que possam ser vestidos de outra; essa necessidade, ditada princi-
palmente pelos pré-requisitos da reprodução sistêmica, torna a co-
presença de dois "estados" funcionalmente indispensável. Mesmo que
não esteja implicado nenhum desígnio consciente, são ainda as ne-
cessidades da administração do sistema que se retêm ser a "explica-
ção" da dualidade. Assim, a posição de comando da "estrutura" sobre
a "antiestrutura" é reconfirmada indiretamente na lógica da expli-
cação: na explicação, a "antiestrutura" faz sua aparição como em-
pregada da "estrutura". O que torna as "explicações" funcionais não
muito mais que narrativas de dominação - a dominação contada como
9
 Victor W. Turner, The ritual process: structure and anti-structure, Routledge, Londres,
1969, pp. 96, 170. É verdade que Turner, pelo fim de seu estudo, considera - sem elaborar - a
possibilidade de uma "consciência dupla" que persegue toda sociedade, e expressa-a com refe-
rências implícitas a "dois modelos sociais contrastantes". "No processo da vida social, o com-
portamento de acordo com um modelo tende a se afastar do comportamento em termos do
outro. O desiderato último, porém, é agir em termos de valores da communitas mesmo quando
desempenhando papéis estruturais" (p. 177). Todavia, Turner sustenta, por toda sua discus-
são, que as duas condições são dois "estados" separados e analiticamente auto-suficientes do
arranjo social, ou dois modelos teóricos igualmente separados. _ .^^Ua <QA>—
136 V AÍJ^ ^^ (0>^^^,
uma estória - é "o dar-por-concedido antecipado" de seus pressupos-
tos que tinham distribuído os papéis de senhor e escravo antes de o
esforço de explicar levantar vôo. O tema da funcionalidade precisa
portanto ser removido da análise de Turner, para que o tópico não
seja uma vez mais confundido com um recurso.
Há outro aspecto da análise de Turner que também precisa de
repensamente e revisão: a tendência, em larga medida subconscien-
te, de pensar a "antiestrutura" segundo o padrão da "estrutura", de
tratá-la como outra estrutura, estrutura com um sinal de menos.
Seja como outra realidade (temporalmente confinada) da sociedade,
seja uma parte da sociedade, ou como um modelo analítico, a
antiestrutura surge como um "estado" da realidade social. Por sua
vez, a estrutura (embora saibamos agora que ela é um processo, uma
atividade contínua, e nunca totalmente repetitiva, de auto-reprodu-
ção) tende a ser pensada em termos de seu "objetivo"; ou seja, de um
estado firme, cuja firmeza ela luta para atingir e perpetuar. Esse
modo de pensar deixou cair a descoberta, aliás revolucionária, de
Turner da antiestrutura, e manifestou-se no descrever essencialmen-
te estático da "estrutura não-estrutural". O precipitado desse pensa-
mento induzido da estrutura também se deve remover da visão teó-
rica de Turner para que ela seja usada na análise dos modos como se
atinge o estar-junto humano quando e onde os impulsos morais pa-
raram de ser suficientes para a ação.
Sugiro que ele ajuda a pensar em termos de dois processos sociais,
antes que de dois estados da sociedade; e que, antes que pensar de.
um como "superelemento funcional" do outro, é melhor pensar de cada
um como fenômeno de direito próprio e significado próprio, autotélico;
e que se podem conceber melhor ambos os processos como "fatos bru-
tos" da condição humana, de forma que as perguntas: "Por quê?" e
"Para quê?" tornam-se redundantes, ao passo que a interpretação
focaliza o modo como cada processo trabalha e as formas que cada
processo gera no decorrer do trabalho realizado.
Os dois processos (sendo ambos processos de estruturação se-1
gundo os critérios de Giddens) são os processos_de_gegiaZí2.^iãQ .e
socialidade. Referindo-se à metáfora do espaço social (cujas imagens
^fíxanTã^vãntagem desde o começo em favor da "estrutura", inclinada
para exclusiva dominação), podemos falar de processos que proce-
dem, respectivamente, "de cima para baixo" e "de baixo para cima".
Ou, então, podemos pensar a diferença entre os dois processos como
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um processo entre "condução" e "espontaneidade". E ainda de outra
maneira, podemos expressar a oposição como a oposição entre subs-
tituir a moralidade por regras discursivas e substituir a moralidade
pela estética. A socialização (pelo menos na so^iedade_mo.derna)jdsa
criar um ambiente o^_asãojeito-de escõlhas-passíveis de serem "de-
sempenhadas discursivamente", que se concentra no cálculo racio.-
nal Hê~gãnEõs e~perdas. A socialidade coloca a unicidade acima da
regurãndãdêTê ó sublime acima do racional, sendo, portanto, em ge-
ral"ãvessa às regras, tornando o désempénKõdàs"rèpas problemáti-
co é" cãncêlãndõTõ "sentido ihstrümentãTdã"ãçãp;
"Osndols^prõcessos não se entendem e acham-se em estado de
constante competição, que às vezes estoura em luta aberta, ainda
que só o primeiro esteja aberta e reconhecidamente em estado de
guerra de atrito contra o segundo. Como observou Sorel, "há uma
tendência de se substituir a velha ferocidade pela esperteza, e mui-
tos sociólogos crêem que isso constitui real progresso".10 De fato,
durante toda a era moderna, muitos (a maioria dos) sociólogos, to-
mando as idéias dos fortes por idéias fortes, e os sedimentos de lon-
ga coerção e doutrinação por leis da história, tenderam a se coloca-
rem do lado dos administradores e ter empatia com seu interesse
guerreiro pelos obstáculos que se levantaram no caminho que leva a
harmonia e a ordem. Por consenso quase unânime, o futuro perten-
cia aos administradores; o futuro devia ser uma sociedade adminis-
trada — e assim anomalias que não cabiam nas imagens do progres-
so lutaram em vão para ter seu lugar legítimo dentro da visão socio-
lógica do mundo. Se fosse admitida, só poderia ser na capacidade a
priori criminalizada.
Ultra-racionalizando o impulso moral
^
A socialização é processo controlável (embora nem sempre con- \
trolado por administradores que se podem indigitar e nomear), vi-
sando à reprodução (perpetuação) de certos arranjos de identidades;
consiste, em seu objetivo ideal, senão na prática, em atribuir identi-
dades a cada um e a todos os membros de uma coletividade. A sócia-
-lizaç.ão_é_o-y-eículo-da classificação e diferenciação: com