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ÉTICA POS MODERNA BAUMAN

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um ser huma-j
no perfeito, não é perspectiva viável, ao passo que tentativas de pro-
var o contrário acabam sendo mais crueldade que humanidade e cer-j ,
tamente menor moralidade. $f
*—&• 2. Fenômenos morais são intrinsecamente "não-racionais". Vis-
to que só são morais se precedem à consideração de propósitos e
cálculos de ganhos e perdas, não se ajustam ao esquema de fins e
meios. Também escapam de explicações em termos de utilidade ou
serviço que prestam ou são chamados a prestar ao sujeito moral, a
um grupo ou a uma causa. Não são regulares, repetitivos, monóto-
nos ou previsíveis de forma que lhes permitisse ser representados
como guiados por regras. É principalmente por essa razão que não
se podem exaurir por qualquer "código ético". Pensa-se a ética se-
gundo os padrões da Lei. Como faz a Lei, esforça-se ele para definir
as ações "adequadas" e "inadequadas" em situações em que vigora.
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Propõe-se um ideal (raramente atingido na prática) de produzir de-
finições exaustivas e não-ambíguas; tais como prover regras nítidas
para a escolha entre adequado e inadequado e não deixar nenhuma
"área cinzenta" de ambivalência e de múltiplas interpretações. Em
outras palavras, age com o pressuposto de que em cada situação de
vida pode-se e deve-se decretar uma escolha como boa em oposições
a numerosas outras, e assim agir em todas as situações pode ser
racional, visto que os agentes também são racionais como devem
ser. Mas essa pressuposição omite o que é propriamente moral na
moralidade. Muda os problemas morais do campo da autonomia moral
para o campo da heteronomia amparada pelo poder. Substitui o co-
nhecimento, que se pode aprender, das regras, pelo eu moral consti-
tuído pela responsabilidade. Coloca a responsabilidade para com os
legisladores e guardiãos do código no lugar que antes tinha sido da
responsabiliade para com o Outro e para com a própria consciência
moral, o contexto em que se faz a decisão moral.
3. A moralidade é incurayelmente aporética. ^ oucas^escolhas (e
apenas as que são relativamente triviais e de menor importância
existencial) sãg_boas-sem-ambigü-idaderA maior parte das escolhas
morais são feitas entre impulsos contraditórios. O que, porém, é mais
importante é que quase todo impulso moral, se se age sobre ele ple-
namente, leva a conseqüências imorais (da maneira mais caracte-
rística, o impulso de cuidar do Outro, quando levado ao extremo, con-
duz à aniquilação da autonomia do Outro, a dominação e opressão);
todavia, não se pode implementar nenhum impulso moral a não ser
que o agente moral seriamente se esforce para estender o esforço ao
limite. O eu moral move-se, sente e age em contexto de ambivalência
e é acometido pela incerteza. Daí que a situação moral livre de ambi-
güidadetenhaj.penas a existência utópica ~romciTwrizõn|e e estimu1
Io talvez indispensáveis para.um euTmoral, mas não como alvo rea-
lista He prática_-ética. Raramente atos morais podem trazer comple-
satisfação; a responsabilidade que guia a pessoa moral está sem-
pre adiante do que foi e do que pode ser feito. Não obstante todos os
esforços em contrário, a incerteza acompanhará necessariamente
para sempre a condição do eu moral. Pode-se, com certeza, reconhe-
cer o eu moral por sua incerteza se tudo o que devia ser feito foi feito.
4. A moralidade não é universalizável. Essa afirmação não en-
dossa necessariamente o relativismo*mõíãl7expresso~nã proposição,
muitas vezes~pToposta e aparentemente semelhante, de que a
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A^O
moralidade não passa de costume local (e temporário), de que é certo
que o que se crê ser moral em determinado lugar e tempo não se vê
com bons olhos em outro, ocorrendo, portanto, que todas as formas
de conduta moral até então praticadas são relativas a tempo e a
lugar, afetadas por caprichos de histórias tribais e invenções cultu-
rais; essa proposição é feita muitas vezes mais no contexto de uma
V proibição de qualquer comparação entre moralidades e acima de tudo
V de qualquer exploração do outro do que no contexto de afirmação
sobre fontes puramente acidentais e contingentes de moralidade.
Argumentarei contra essa^yisão manifestamente^ relatiyista_e_em
última análise niilista de moralidade^ À afirmação: "Ã moralidade é
riao-umversalizáveTríaTTcomo aparecerá nesteJivrp,.'.temjsentídcT
diferente^ opõe uma versão concreta de universalismo moral, que na
época moderna serviu apenas como declaração maldisfarçada da
intenção de embarcar na Gleichschaltung, numa árdua campanha
para amaciar as diferençasse sobretudo para eliminar todas as fon-
tes "selvagens" — autônomas, desregradas e incontroladas — de juízo
moral. Reconhecendo a presente diversidade de crenças morais e
ações promovidas institucionalmente, bem como a variedade passa-
da e persistente de posturas morais individuais, o pensamento e a
prática modernos consideram-na abominação e desafio fazendo ár-
duos esforços para superá-la. Não o fez, porém, tão abertamente,
não com o pretexto de estender o próprio código pessoal preferido
sobre populações habitadas por diferentes códigos e apertar a garra
com que mantinha populações já sob seu domínio — mas sub-repti-
ciamente sob o pretexto de uma única ética omniumana destinada a
expelir e suplantar todas as distorções locais. Esses esforços, como
vemos agora, não podem tomar outra forma senão a de propor re-
gras éticas heterônomas, forçadas desde fora, no lugar da responsa- /
bilidade autônoma do eu moral (o que significa nada menos que a hL
incapacitação, e mesmo destruição, do eu moral). Assim, seu efeikrf j
global não é tanto a "universalização da moralidade" como o silen-
ciamento do impulso moral e a canalização de capacidades morais
para alvos socialmente planejados que podem incluir e incluem pro-
pósitos imorais.
5. Desde a perspggtiy.a-da "ordem racional", destina-se a mo-
ralidade a permanec^j£mcÍQtta/.-Bornni^7T7l^ se
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inclina à uniformidade e a procurar ação disciplinada e coordenada,
a autonomia teimosa e elástica do eu moral constitui escândalo. Vê-
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se essa autonomia, desde a escrivaninha de controle da sociedade,
como germe de caos e anarquia dentro da ordem; como o limite ex-
terno do que a razão (ou seus porta-vozes e agentes autonomeados)
podem fazer para planejar e implementar o que quer que se tenha
proclamado como o arranjo "perfeito" da convivência humana. Os
impulsos morais, porém, são também um recurso indispensável na
administração de qualquer desses arranjos "realmente existentes":
fornecem a matéria-prima da sociabilidade e do compromisso com
outros com que se modelam todas as ordens sociais. Precisam, pois,
ser domesticados, aproveitados e explorados, de preferência a serem
meramente supressos ou prescritos. Daí a endêmica ambivalência
no tratamento do eu moral por parte da administração societária:
deve-se cultivar o eu moral sem se lhe soltar as rédeas; precisa ser
constantemente desbastado e mantido na forma desejada sem que
se sufoque seu crescimento e se desseque sua vitalidade. A adminis-
tração social da moralidade constitui operação complexa e delicada
que só pode precipitaTTnãis ambivalência do que consegue eliminar.
6. Dado o impacto ambíguo dos esforços societários no campo da
legislação ética, deve-se reter que a responsabilidade moral — sendo
para o Outro antesjle poder ser com o Outro — é a primeira realidade
do eúT^õrrtõ~3é~partida antes que produto da sociedade. Precede a
todo comprometimento com o Outro, seja mediante conhecimento,
avaliação, sofrimento ou ação. Não tem, portanto, nenhuma "funda-
mentação" — nenhuma causa, nenhum fator determinante. Pela
mesma razão pela qual não pode ser desejada ou manobrada para
fora da existência, não pode oferecer argumento convincente da ne-
cessidade de sua presença. Na ausência de uma fundamentação, a
questão: "Como é possível?", não tem nenhum sentido quando dirigida
à moralidade. Essa pergunta apela à moral para justificar-se a si