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ÉTICA POS MODERNA BAUMAN

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efeitos existe enorme distância—tan-
to no tempo como no espaço — que não podemos sondar usando nos-
sas capacidades inatas e ordinárias de percepção, e sendo assim difi-
cilmente podemos medir a qualidade de nossas ações mediante ple-
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 Nas palavras de Daniel Bell, em nosso mundo (um mundo que Bell prefere descrever
como "pós-industrial") "as pessoas vivem cada vez mais fora da natureza, e cada vez menos
com máquinas e coisas; só vivem e encontram umas com as outras ... Para a maior parte da
história humana, a realidade era a natureza... Nos últimos 150 anos, a realidade tornou-se
a técnica, os instrumentos e as coisas feitas pelo homem, que todavia recebem existência
independente fora do homem num mundo coisificado ... agora a realidade está se tornando
apenas o mundo social" ("Culture and religion in a postindustrial age", em Ethics in an age
ofpervasive technology, org. Melvin Kranzberg, Westview Press, Boulder, 1980, pp. 36-37.
As vastas generalizações de Bell ficariam menos exageradas do que parecem à primeira
vista, se se aceitasse que a idéia de "realidade" significa o aspecto em geral fortemente opaco,
resistente e indócil da experiência viva. E o foco dessa opacidade que variou no decorrer do
tempo.
Hans Jonas, Philosophical essays: From ancient creed to technological man, Prentice Hall,
Englewood Cliffs, 1974, pp. 176, 178.
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no inventário de seus efeitos.3 O que nós e outros fazemos tem "efeitos
colaterais", "conseqüências não-antecipadas", que podem abafar quais-
quer bons propósitos que se fazem e produzir desastres e sofrimento
que nós e ninguém quisemos ou vislumbramos. E podem afetar pes-
soas que se acham muito distantes ou que viverão no futuro e com as
quais jamais vamos nos encontrar e lhes fitar o rosto. Podemos lhes
fazer mal (ou elas nos podem fazer mal) inadvertidamente, por igno-
rância mais do que de propósito, sem querer mal a quem quer que seja
em particular e sem agir com maldade, e sermos, no entando, culpa-
dos moralmente. A escala das conseqüências que nossas ações podem
ter tolhe-nos a imaginação moral que podemos possuir. Também tor-
na impotentes as normas éticas, poucas, mas testadas e confiáveis,
que herdamos do passado ou que se nos ensinam a obedecer. Afinal de
contas, elas nos dizem como nos aproximarmos das pessoas no campo
de nossa visão e alcance, e como decidir quais ações são boas (e, sendo
assim, devem ser feitas) e quais ações são más (e, sendo assim, devem
ser evitadas), dependendo de seus efeitos visíveis e previsíveis sobre
essas pessoas. Mesmo que observemos escrupulosamente essas re-
gras, mesmo que todos ao nosso redor também as observem, estamos
longe da certeza de que se evitarão conseqüências desastrosas. Nos- i
as ferramentas éticas - o código de comportamento moral, o conjunto ^ ^
as normas simples e práticas que seguimos — simplesmente não fo- * "9
am feitos à medida dos poderes que atualmente possuímos.
Outra reflexão prática nasce do fato de que com a minuciosa /\TÍ' \
divisão de trabalho, habilidades e funções, pela qual nossos tempos §/
são notórios~(êrda qual eles se orgulham), qu/ase todo empreendi- ,
3
 Anthony Giddens chega a ponto de descrever a modernidadecomoJhima_cultura_do_ris±.
co]l:J'o conceito de risco torna-se fundamental para a maneira como tanto agentes leigos como
especialistas organizam o mundo moral ... O mundo moderno tardio ... é apocalíptico, não
porque está se dirigindo inevitavelmente rumo à catástrofe, mas porque introduz riscos que
gerações precedentes não tiveram que enfrentar" (Modernity and self-identity: Selfand society
in the late modern age, Polity Press, Cambridge, 1991, pp. 3-4). Mas em seu estudo pioneiro
dos riscos e perigos que a "ação cega" (e nas sociedades contemporâneas ultracomplexas as
ações estão, por assim dizer, institucionalmente de olhos tapados) não pode senão gerar, Ulrich
Beck observou que "o que prejudica a saúde e destrói a natureza não é reconhecível ao sentido
do tato ou da vista". Os efeitos "escapam inteiramente às capacidades humanas de percepção
direta. Focalizam-se cada vez mais perigos que nem são visíveis nem perceptíveis às vítimas;
perigos que em alguns casos sequer podem ter efeitos no período de vida dos que são afetados,
mas só no de seus filhos" (Risk society: Towards a new modernity, Sage, Londres, 1991, p. 27).
Esses perigos não são e não podem ser parte do calculo que precede a ação; estão ausentes dos
motivos e das intenções da ação. Efeitos danosos de ações humanas são não-intencionais. Não
fica claro, portanto, como uma pessoa moral pode evitá-los. Também não fica claro como podem
ser objeto de até mesmo uma avaliação moral expost facto, que se atribui a ações motivadas.
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r
mento envolve muitas pessoas, cada uma das quais realiza apenas
uma pequena parte da tarefa global; com efeito, é tão enorme a quan-
tidade de pessoas envolvidas que ninguém pode razoável e convincen-
temente pretender (ou portar) a "autoria" (ou a responsabilidade) do
resultado final. Pecado sem pecadores, crime sem criminosos, culpa
sem culpados! A responsabilidade pelo resultado é como que flutuante,
não encontrando em nenhum lugar seu porto natural. Ou, então,
acha-se a culpa espalhada tão rarefeitamente, que até uma auto-
analise pessoal ou o arrependimento pessoal mais escrupuloso e sin-
cero de qualquer dos "agentes parciais" pouco mudará, se é que mu-
dará, no estado final das coisas. Para muitos de nós, bastante natu-
ralmente, essa futilidade alimenta a crença na "vaidade dos esforços
humanos", e conseqüentemente parece ser boa coisa que a razão não
se entregue em absoluto a auto-analises e levantamentos de contas.
De mais a mais, nosso trabalho diário está dividido em muitas
tarefas pequenas, cada uma realizada em diversos lugares, entre
diversas pessoas, em diversos tempos. Nossa presença em cada um
i desses ambientes é tão fragmentária como as próprias tarefas. Em
cada ambiente aparecemos apenas em determinado "papel", num
dos muitos papéis que desempenhamos. Parece que nenhum desses
papéis nos abarca "por inteiro"; não se pode pretender que algum de-
les se identifique com "o que somos verdadeiramente" como "totali-
dade" e como indivíduos "únicos". Como indivíduos, somos insubs-
tituíveis. Não somos, porém, insubstituíveis no desempenho de qual-
quer de nossos muitos papéis. Cada papel tem anexo um resumo que
estipula exatamente que tarefa se deve fazer, como e quando. Toda
pessoa que conheça o resumo e tenha dominado as capacidades que
requer a tarefa pode fazê-la. Nada mudaria muito, portanto, se eu,
esse particular desempenhador de papel, optasse sair: outra pessoa
logo preencheria a lacuna deixada por mim. "Alguém o fará de algu-
ma forma" - nós nos consolamos, e não sem razão, quando achamos
a tarefa, que se nos pediu realizar, moralmente suspeita ou intragável
... De novo, a responsabilidade foi "flutuante". Ou então - assim nos
dispomos a dizer - ela permanece com o papel, e não com apessoa que
o desempenha. E o papel não é "o eu"- apenas as roupas de trabalho
que vestimos enquanto dura a tarefa e depois tiramos ao passar nos-
so turno. Uma vez vestidos para a faxina, todos os que usam as ves-
tes parecem esquisitamente iguais. Não há "nada de pessoal" nas
roupas de faxina, nem no trabalho feito pelos que as usam.
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No entanto, nem sempre se sente assim afinal; nem todas as
manchas incorridas na tarefa — "no decorrer da realização do papel"
— estão apenas nas roupas de trabalho. Às vezes temos o sentimento
insípido de algo de lama derramada em nosso corpo, ou das vestes
da faxina pregadas em nossa pele inconfortavelmente apertadas; não
podem ser facilmente tiradas e deixadas atrás na gaveta. É incômo-
do doloroso demais, mas não é o único.
Se conseguirmos manter as gavetas hermeticamente fechadas,
de tal sorte que nossos "eus reais" se mantenham à parte, como se
nos diz que podem e devem se manter, o incômodo não vai embora: