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Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

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Rothschild levantou-se
de um salto.
- Estou a ouvi-lo, estou a ouv Oi-lo! - exclamou.
- Ele chega! - gritou Saroj ini Engels.
- Sim, ele chega, estou a ouvi-lo! - Fifi Bradlaugh e Tom Kawaguchi ergueram-se
simultaneamente.
- Oh! Oh! Oh! - disse joana, numa inarticulada exclamação.
- Ele chega! - uivou j im Bokanovsky .
O Presidente inclinou-se para a frente e, com um leve movimento da mão, desencadeou um
delírio de címbalos e de metais, um acesso febril de marteladas em tantãs.
- Oh, ele chega! - vociferou Clara Deterding. - Ai! - gritou, como se lhe tivessem cortado a
garganta.
Sentindo que era a altura de fazer qualquer coisa, Bernard pôs-se de pé num salto e, COMo os
outros, berrou:
- Estou a ouvi-lo! Ele chega! Mas não era verdade. Não ouvia nada, e para ele ninguém tinha
chegado.
Ninguém, apesar da música, apesar da crescente superexcitação. Mas agitou os braços, gritou
como os outros. E quando os outros se puseram a bambolear, a bater com os pés e a caminhar
arrastando-os, ele, como os outros, também se bamboleou e arrastou os pés.
Deram a volta à sala, procissão circular de dançarinos, cada um com as mãos nas ancas do que
lhe estava à frente - deram-na e tornaram a dá-la, gritando em conjunto, batendo com os pés ao
ritmo da música, marcando, batendo vigorosamente esse ritmo com as mãos nas nádegas que
estavam à frente; doze pares de mãos batendo como uma só, doze nádegas ressoando
viscosamente. Doze-em-um, doze-em-um. "Estou a ouvi-lo, oiço-o chegar!" A música acelerou-
se; @os pés bateram com mais rapidez; mais rápido, mais rapidamente ainda bateram as mãos
rítmicas. E de repente uma poderosa voz sintética de baixo roncou as palavras que anunciavam a
consumação da fusão e a realização final da solidariedade, a vinda do doze-em-um, a
encarnação do Grande Ser.
"Orgia-folia ", cantou ela, enquanto os tantãs continuavam a martelar o seu rufo febril: Orgia-
folia, Ford e alegria, Beija aqueles que amas e faz deles um só. Rapazes e raparigas em paz se
unirão! Orgia-folia dá-nos a libertação.
"Orgia-folia." Os dançarinos retomaram o estribilho litúrgico: Orgia-folia, Ford e alegria, beija
aqueles que amas ... Enquanto cantavam, as luzes começaram a baixar lentamente e,
simultaneamente, a tornarem-se mais quentes, mais ardentes, mais vermelhas, de tal forma que
depressa eles se encontraram a
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dançar na penumbra carmesim do Depósito de Embriões. « Orgia-folia ... » Depois o círculo
estremeceu, rompeu-se, desagregando-se parcialmente sobre os canapés dispostos em volta da
mesa e das suas cadeiras satélites - um círculo envolvendo outro círculo. « Orgia-folia...»
Ternamente, a voz profunda murmurava e cantarolava; na penumbra vermelha, dir-se-ia que
uma enorme pomba negra planava, benfazeja, sobre os dançarinos, agora deitados de costas ou
de barriga para baixo.
Estavam de pé no terraço. Big Henry acabava de cantar onze horas. A noite estava calma e
suave.
- Estava óptimo, não estava? - disse Fifi Bradlaugh. - Estava simplesmente óptimo, hem? - Olhou
para Bernard com uma expressão de enlevo, mas de enlevo no qual não havia um único traço de
agitação ou de excitação, pois estar excitado é estar insatisfeito. O seu êxtase era aquele calmo
êxtase da perfeição atingida, a paz, não da simples saciedade e do nada, mas da vida,O
equilibrada, das energias em repouso e bem contrabalançadas. Uma paz rica e viva, pois a
Cerimónia da Solidariedade tinha dado tanto quanto tinha tomado, e apenas parcialmente tinha
vazado para tornar a encher. Ela estava cheia, tinha-se tornado perfeita, sentia-se ainda mais que
simplesmente ela mesma.
- Não achou que estava óptimo? - insistiu, dirigindo ao rosto de Bernard um olhar brilhante, de um
fulgor sobrenatural.
- Sim, estava óptimo - respondeu ele, mentindo e desviando os olhos. A vista dessa fisionomia
transfigurada era uma espécie de acusação e uma irónica lembrança daquilo que o separava dos
outros.
Sentia-se agora tão miseravelmente isolado como estivera no início da cerimónia, mais isolado
ainda devido ao vazio que nele não tinha sido cheio, devido à sua saciedade não satisfeita. Isolado,
insatisfeito, enquanto os outros se integravam no Grande Ser; só, até mesmo nos braços de
Morgana, muito mais só, na verdade, mais desesperadamente ele mesmo do que jamais tinha
sido. Saíra dessa penumbra vermelha para voltar ao brilho vulgar da electricidade com um
sentimento do eu intensificado ao ponto de o fazer sofrer um martírio. Sentia-se miserável,
totalmente infeliz e talvez (os olhos de Fifi eram o seu acusador), talvez fosse por sua própria
culpa. - Magnífico repetiu. Mas a única coisa em que pôde pensar foi na sobrancelha de
Morgana.
CAPÍTULO SEXTO
« Estranho, estranho, muito estranho» , tal era a opinião de Lenina acerca de Bernard Marx. De
tal maneira estranho que durante as semanas que se sucederam ela perguntou a si mesma, mais
de uma vez, se não faria melhor em mudar de ideia a respeito das férias no Novo México e ir
antes ao Pólo Norte com Benito Hoover. O que a contrariava era já conhecer o Polo Norte, pois
fora lá no último Verão com George Edzel, e, pior ainda, achara a estada muito desagradável.
Nada para fazer, e o hotel, inconcebível, verdadeiramente fora de moda; sem televisão nos
quartos, sem órgão de perfumes, nada mais que a mais infecta música sintética e apenas vinte e
cinco campos de bola escalator para mais de duzentos hóspedes. Não, era impossível suportar de
novo o Polo Norte. E, por outro lado, apenas fora uma vez à América. E, mesmo isso, muito à
pressa! Um fim-de-semana económico em Nova Iorque -
com jean-jacques Habibullah ou com Bokanovsky Jones? já não se lembrava e, além disso,
também não tinha nenhuma importância. A ideia de voar de novo para o oeste, durante uma
semana inteira, era deveras sedutora. E, depois, passariam pelo menos três dias, dos sete da
viagem, na Reserva de Selvagens. Em todo o centro não havia mais de meia dúzia de pessoas que
já tivessem penetrado no interior de uma Reserva de Selvagens. Na sua qualidade de psicólogo
Alfa-Mais, Bernard era um dos raros homens, ante os seus conhecimentos, que tinham direito a
uma autorização. Para Lenina a ocasião era única. E, no entanto, as bizarrias de Bernard eram
também de tal maneira únicas que hesitava em aproveitá-la e por mais de uma vez tinha pensado
em arriscar uma outra ida ao Polo com esse bravo e divertido Benito. Pelo menos Benito era
normal, ao passo que Bernard ...
« Foi o álcool no seu pseudo-sangue» , tal era a explicação que Fanny dava de cada uma dessas
excentricidades. Mas
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Henry , com quem, numa noite em que estavam deitados juntos, Lenina tinha falado, não sem
uma certa inquietação, do seu novo amante, Henry tinha comparado o pobre Bernard a um
rinoceronte.
- Não se pode ensinar um rinoceronte a fazer habilidades - tinha ele explicado, no seu estilo breve
e vigoroso. - Há indivíduos que são quase rinocerontes; não reagem convenientemente ao
condicionamento. Pobres diabos! Bernard é um deles, Felizmente para ele, é bastante
competente na sua especialidade. Sem isso, o Director já o teria posto na rua. No entanto -
acrescentou num tom consolador -, creio que é completamente ino fensivo.
Completamente inofensivo, talvez. Mas igualmente muito inquietante. Em primeiro lugar, essa
mania de fazer as coisas na intimidade. O que equivalia, na prática, a nada fazer. Que se pode
fazer na intimidade? (à parte, bem entendido, ir para a cama; mas não se pode fazer isso
continuamente.) Sim, que se pode fazer? Muito poucas coisas. Na primeira tarde que saíram
juntos estava um tempo excepcional. Lenina tinha proposto irem nadar ao Torquay Country Club
e depois irem jantar a Oxford Union. Mas Bernard pensava que haveria, com certeza, gente a
mais. Bem, então se fizessem um jogo de golf electromagnético em Saint Andrews? Mas ele
tinha recusado de novo.
Bernard considerava o golf electromagnético