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Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

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uma perda de tempo.
- Mas então, para que serve o tempo? - perguntou Lenina a'dmirada.
Aparentemente, para dar passeios na Região dos Lagos, pois era isso que ele propunha. Aterrar
no cume do Skiddaw e fazer uma caminhada de duas horas entre as urzes.
- Sozinho consigo, Lenina.
- Mas, Bernard, nós ficaremos sós toda a noite. Bernard corou e desviou o olhar.
- Eu queria dizer ... sós para conversar - murmurou.
- Para conversar? Mas a respeito de quê? - Andar e conversar parecia-lhe uma estranha maneira
de passar uma tarde.
Por fim ela persuadiu-o, embora contra vontade, a voarem até Amesterdão para verem os
quartos de final do Campeonato Feminino de Luta (pesos-pesados). - Entre uma multidão-
resmungou-, como de costume. Conservou-se obstinadamente amuado toda a tarde; recusou-se a
falar aos amigos de Lenina (que encontraram às dúzias no bar onde se bebiam gelados de soma
nos intervalos das lutas), e, apesar do seu miserável estado de espírito, recusou-se
terminantemente a tomar a dose de meio grama de sundae de framboesas que ela insistia que
tomasse.
- Prefiro ser eu mesmo - disse -, eu mesmo e desagradável. E não qualquer outro, por mais
alegre que seja.
- Um grama é suficiente para o tornar alegre - disse Lenina, servindo-lhe uma brilhante pérola
da sabedoria ensinada durante o sono.
Bernard repeliu impacientemente o copo que ela lhe oferecia.
- Não se zangue, vamos - disse -, e lembre-se: « Com um centicubo, curados dez sentimentos.»
- Oh, por amor de Ford, cale-se! - gritou ele. Lenina encolheu os ombros.
- Um grama vale mais que o "bolas" que se chama - disse Com dignidade, concluindo. E bebeu o
sundae.
À volta, na travessia da Mancha, Bernard teimou em parar a hélice propulsora e ficar suspenso
no helicóptero a menos de trinta metros das vagas. O tempo piorara, soprava um vento áspero, o
céu estava nublado.
- Olhe - disse ele.
- Mas é detestável - disse Lenina, afastando-se com horror da janela. Estava apavorada com o
vácuo envolvente da noite, com as vagas negras e espumantes que se erguiam sob eles, com o
disco pálido da Lua, assustado e atormentado entre as nuvens que voavam. - Liguemos a T. S. F.
Depressa! - Estendeu a mão para o botão do quadrante no painel de instrumentos de bordo,
ligando-a ao acaso.
O céu é puro, a luz velada - cantavam em trémulo dezasseis vozes de falsete - e o tempo é
doçura e beleza ...
Depois um estalido e o silêncio. Bernard tinha desligado a corrente.
- Quero contemplar o mar em paz - disse. - Não se pode ver nada quando se tem continuamente
esse insuportável ruído nos ouvidos.
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Mas é delicioso. E, além disso, eu não quero olhar.
Mas quero eu - insistiu Bernard. - Isto dá-me a sensação... - Hesitou, procurando as palavras para
se exprimir. -
sensação de ser mais eu, se é que percebe o que quero dizer. De agir por mim mesmo e não
apenas como uma parte de outra coisa. De não ser simplesmente uma célula do corpo social. Isto
não lhe dá essa sensação, Lenina?
Mas Lenina chorava.
- É horrível, é horrível - repetia constantemente. - E como pode falar dessa maneira do seu
desejo de não fazer parte do corpo social? Não podemos prescindir de ninguém. Os próprios
Epsilões ...
Sim, já sei - disse Bernard, trocista. - Os próprios Epsilões são úteis! Eu também. E bem gostaria
de não servir para nada!
Lenina ficou escandalizada com tal blasfémia.
- Bernard! - protestou, com voz espantada e aflita.
Como pode dizer essas coisas?
- Como posso? - respondeu ele, meditativamente, noutro tom. - Não, o verdadeiro problema é
outro: porque não posso eu ou melhor - pois, afinal, sei perfeitamente porque não posso -, que
sentiria se pudesse, se fosse livre, se não estivesse escravizado pelo meu condicionamento.
- Então, Bernard, não diga coisas tão assustadoras!
- Não sente o desejo de ser livre, Lenina?
- Não percebo o que quer dizer. Eu sou livre. Livre para gozar à vontade, para gozar o mais
possível.
« Agora todos são felizes!»
Ele riu-se.
- Sim. "Agora todos são felizes?" Começamos a impingir isso às crianças de cinco anos. Mas não
sente o desejo de ser livre de outra forma, Lenina? De uma maneira pessoal, POr exemplo, e
não à maneira de todos.
- Não percebo o que quer dizer - repetiu ela. E depois, voltando-se para ele: - Oh! Vamos
embora -
suplicou. - Como detesto estar aqui!
Não gosta de estar ao pé de mim? Certamente, Bernard! É este maldito lugar. Parece-me que
estaremos mais... mais juntos aqui, sem
mais nada além do mar e da Lua. Mais juntos que entre a multidão ou mesmo em minha casa.
Não compreende isto?
- Não compreendo nada - respondeu ela com decisão, determinada a conservar intacta a sua
incompreensão. - Nada. E ainda percebo menos - continuou, noutro tom - por que razão não
toma você soma quando lhe aparecem essas tenebrosas ideias. Em vez de se sentir miserável,
sentir-se-ia cheio de alegria. Sim, tão cheio de alegria! ... - repetiu ela. E sorriu, apesar de toda a
intrigada inquietação que lhe brilhava nos olhos, com um ar que procurava ser provocante e
voluptuoso.
Ele contemplou-a em silêncio, a fisionomia muito grave, recusando adaptar-se às suas intenções,
e fixou nela um olhar intenso. Ao fim de alguns momentos, os olhos de Lenina não puderam
sustentar mais aquele olhar. Soltou uma risadinha nervosa, esforçou-se por encontrar qualquer
coisa para dizer, mas não o conseguiu. O silêncio prolongou-se.
Quando Bernard, enfim, falou, foi com um fio de voz cheio de lassidão.
- Está bem, seja - disse. - Vamos embora. Carregando vigorosamente no acelerador, fez o
aparelho dar um pulo para cima. A trezentos metros, pôs a hélice em movimento. Voaram em
silêncio durante um minuto ou dois. Depois, de repente, Bernard começou a rír. De uma maneira
um pouco esquisita, pensou Lenina, mas, enfim, sempre era rir.
- Está melhor? - arriscou-se ela a perguntar. Como única resposta, ele tirou uma das mãos da
alavanca de comando e, passando-lhe um braço à volta do corpo, começou a acariciar-lhe os
seios.
« Ford seja louvado- pensou ela- já está como deve ser.» Meia hora mais tarde estavam de volta
a casa de Bernard. Ele engoliu de uma vez quatro comprimidos de soma, pôs a funcionar a T. S.
F. e a televisão e começou a despir-se.
Então? - perguntou-lhe Lenina, num tom de significativa brejeirice, quando, na tarde seguinte, se
encontraram no terraço. - Não acha que ontem nos divertimos bastante?
Bernard concordou com um aceno de cabeça. Subiram para o helicóptero. Um pequeno
solavanco, e ei-los no ar.
- Todos me dizem que sou extremamente pneumática -
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disse Lenina com ar pensativo, dando palmadas nas coxas.
- Extremamente. Mas havia uma expressão dolorosa nos olhos de Bernard. « Como carne» ,
pensou.
Ela ergueu os olhos com uma certa inquietação.
- Mas, diga lá, não me acha gorda em demasia? Ele abanou a cabeça negativamente. « Tal como
uma quantidade igual de carne.»
- Acha-me bem? - Novo sinal afirmativo de cabeça. - Sob todos os pontos de vista?
- Perfeita - disse ele em voz alta. E interiormente: « É assim que ela se considera a si própria.
Pouco lhe importa ser apenasO carne. »
Lenina sorriu triunfalmente. Mas a sua satisfação era prematura.
- Apesar de tudo - continuou, após uma pequena pausa, teria gostado de que aquilo tivesse
terminado de outra maneira.
- De outra maneira? Então havia outras maneiras de terminar?
- Teria desejado que aquilo não acabasse na cama - esclareceu Bernard.
Lenina ficou espantada.
- Pelo menos, logo no primeiro dia.
- Mas então, como? ... Ele começou a dizer-lhe uma porção de coisas incomprensivelmente
absurdas e perigosas. Lenina fez o melhor que pôde para as não ouvir, espiritualmente falando.
Mas a cada instante um fragmento de frase conseguia, à força de insistência, tornar-se
perceptível: « ... para experimentar o efeito produzido pela repressão das minhas impulsões» ,