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Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

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ouviu-o dizer. Essas palavras pareceram soltar uma mola no seu espírito.
- Não deixes para amanhã o prazer que puderes gozar hoje - disse ela gravemente.
- Duzentas repetições, duas vezes por semana, dos catorze aos dezasseis anos e meio - disse
Bernard como único comentário. E continuou a divagar, a falar das suas ideias insensatas e
perniciosas. - Quero saber o que é a paixão - ouviu-o ela dizer. - Quero sentir qualquer coisa com
violência.
- Quando o indivíduo sente, a comunidade ressente-se, declarou Lenina.
- E então! Porque não há-de ela ressentir-se?
- Bernard! Mas Bernard não se desconcertou absolutamente nada.
- Adultos intelectualmente durante as horas de trabalho, continuou. - Bebés no que diz respeito ao
sentimento e ao desejo.
- Nosso Ford gostava de bebés. Sem reparar na interrupção, Bernard prosseguiu:
- A ideia veio-me subitamente, há dias: talvez fosse possível ser-se sempre adulto.
- Não percebo. Lenina falara num tom firme.
- já sei. E eis a razão porque nos fomos deitar juntos ontem, como garotos, em vez de sermos
adultos e esperarmos.
- Mas foi divertido - insistiu Lenina. - Não foi?
- Oh! O mais divertido possível - respondeu, mas com voz desolada, com uma expressão tão
profundamente miserável que Lenina sentiu evaporar-se subitamente todo o seu triunfo. Talvez
ele a tivesse achado demasiado gorda, afinal.
- Eu já te tinha dito - contentou-se em responder Fanny quando Lenina lhe foi fazer confidências.
- É o álcool que lhe puseram no pseudo-sangue.
- Não importa - insistiu Lenina -, ele interessa-me verdadeiramente. Tem umas mãos tão
bonitas! E
aquela maneira de encolher os ombros, como me atrai! - Suspirou. - Mas gostaria que fosse
menos esquisito.
II
Parando um instante diante da porta do gabinete do Director, Bernard respirou profundamente e
endireitou-se, preparando-se para enfrentar a animosidade e a reprovação que estava certo de
encontrar lá dentro. Bateu e entrou.
- Uma autorização que lhe peço para visar, Senhor Director - disse, no tom mais indiferente que
lhe foi possível, colocando o papel sobre a secretária.
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O director lançou-lhe um olhar amargo. Mas o papel traz'ia o timbre do gabinete do
Administrador, e a assinatura de Mustafá Mond, nítida e negra, desenhava-se no fim da página.
Tudo estava perfeitamente em regra. O Director não tinha nada objectar. Escreveu a lápis a sua
rubrica, duas pequeninas letras humildemente deitadas ao lado da assinatura de Mustafá Mond, e
ia devolver o papel sem uma palavra de comentário ou uma despedida benevolente, quando o
seu olhar foi atraído por qualquer coisa escrita no texto da autorização.
- Para a Reserva do Novo México? - perguntou.
O tom da sua voz e o rosto que ergueu para Bernard exprimiam uma espécie de agitada
expectatíva.
Surpreendido, Bernard respondeu afirmativamente com a cabeça. Houve um silêncio.
O Director encostou-se para trás na cadeira, de sobrolho franzido.
- Há quanto tempo foi isto? - disse, falando mais para si que para Bernard. - Vinte anos, calculo.
Talvez vinte e cinco. Devia ter a sua idade... - suspirou, meneando a cabeça.
Bernard sentiu-se extremamente embaraçado. Um homem tão respeitável, tão respeitador das
convenções, tão escrupulosamente correcto como era o Director, cometendo uma tão grosseira
falta de etiqueta! Sentia-se com vontade de tapar a cara e sair da sala a correr. Não que,
pessoalmente, encontrasse qualquer coisa de intrinsecamente reprovável no facto de se falar de
um passado distante; isso era um dos tais preconceitos hipnopédicos de que - imaginava - se tinha
completamente desembaraçado. O que o intimidava era saber que o Director desaprovava isso e
que apesar de o desaprovar, fora levado a fazer essa coisa proibida. Por que força interior?
Bernard ouvIu-o com uma ávida curiosidade, que se notava através do seu embaraço.
- Tive a mesma ideia que o senhor - dizia o Director. Queria ver os selvagens. Obtive uma
autorização para o Novo-México e nas minhas férias de Verão fui lá com a rapariga que tinha na
altura. Era uma Beta-Menos e parece-me (fechou os olhos), parece-me que tinha cabelos loiros.
Em todo o caso, era pneumática, notavelmente pneumática. Disso lembro-Me bem. Fomos,
portanto, lá, observámos os selvagens, passeámos a cavalo e tudo o mais. E depois -era, parece-
me, o último dia de férias -, depois
... bem, ela perdeu-se. Tínhamos escalado a cavalo uma daquelas idiotas montanhas, estava um
calor pesado e, depois do almoço, adormecemos. OU, pelo menos, eu adormeci. Ela deve ter ido
dar uma volta. Fosse como fosse, quando acordei não a vi. E então desencadeou-se a mais
espantosa tempestade que tenho visto. Chovia a potes, trovejava, coriscavam relâmpagos; os
cavalos rebentaram as rédeas e fugiram; caí quando tentava apanhá-los e feri-me num joelho a
ponto de não poder andar senão com grande dificuldade. Apesar disso, procurei-a por todos os
lados, gritei, rebusquei nos arredores. Mas não havia o menor vestígio dela. Então pensei que
talvez tivesse voltado sozinha para a pousada.
Assim, arrastei-me até ao vale, pelo caminho por onde tínhamos vindo. O joelho doía-me
atrozmente e tinha perdido o meu soma. Levei várias horas. Só cheguei à pousada depois da
meia-noite. Ela não estava lá ... ela não estava lá - repetiu o Director. Houve um silêncio. - Bem -
continuou por fim -, no dia seguinte fizeram-se buscas. Mas não conseguimos encontrá-la. Devia
ter caído em qualquer ravina ou sido devorada por um leão da montanha. Só Ford o sabe. Fosse
como fosse, foi horrível! Na altura fiquei desnorteado. Mais do que deveria ter ficado. Porque,
afinal, foi um acidente como poderia ter acontecido a qualquer outra pessoa, e, bem entendido, o
corpo social persiste, ainda que as células componentes possam mudar. Mas esse consolo
proporcionado durante o sono não foi muito eficaz. -
Meneou a cabeça. - Às vezes ainda sonho com isso - continuou o Director com uma voz mais
fraca , sonho que sou acordado pelo barulho do trovão e que me apercebo de que ela não está já
ali, sonho que me ponho à sua procura por entre as árvores, que procuro por toda a parte ...
Mergulhou no silêncio da recordação.
- Deve ter sido um choque terrível para si - disse Bernard, quase com inveja.
Ao som da sua voz, o Director tomou bruscamente consciência do lugar onde se encontrava;
lançou um olhar a Bernard e, desviando os olhos, corou, mal-humorado. Olhou-o de novo,
subitamente suspeitoso, e, irritado, disse do alto da sua dignidade-
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- Não pense que eu mantinha com essa rapariga relações inconfessáveis. Era tudo perfeitamente
são e normal. - Estende a Bernard a autorização. - Não sei por que razão o macei com esta
história banal. -
Cheio de ressentimento contra si próprio i por ter desvendado um segredo desonroso, descarregou
a cólera sobre Bernard. O seu olhar era agora francamente rancoroso. E desejo aproveitar esta
ocasião, senhor Marx - continuou - para lhe dizer que não estou de forma alguma satisfeito com
as informações que recebo acerca da sua conduta fora do trabalho, Vai dizer-me, sem dúvida,
que não tenho nada com isso. Mas facto é que tenho, e muito. Devo preocupar-me com a boa
reputação do centro. É necessário que os meus colaboradores estejam acima de toda a suspeita,
particularmente aqueles das castas superiores. Os Alfas estão condicionados de tal forma que não
são obrigatoriamente infantis na sua conduta emotiva. Mas essa é mais uma razão para que eles
façam todos os esforços necessários para se adaptarem à normalidade. É seu dever serem
infantis, mesmo contra as suas tendências. Portanto, senhor Marx, lealmente o aviso... - A voz do
Director vibrava de uma indignação que se tinha tornado inteiramente virtuosa e impessoal, que
era a expressão da desaprovação da própria sociedade. - Se sei novamente que faltou às regras
normais de conduta no que diz respeito ao decoro infantil, pedirei a sua transferên cia para