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Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

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um
subcentro, de preferência na Islândia. Boa tarde.
Virando-se na cadeira giratória, pegou uma caneta e começou a escrever.
« Isto o ensinará» , pensou. Mas enganava-se, pois Bernard saiu do gabinete de cabeça erguida,
cheio de triunfante orgulho, batendo com a porta atrás de si e pensando que fazia frente, sozinho,
à ordem das coisas, exaltado pela embriagadora consciência do seu valor e da sua importância
pessoais. A própria ideia da perseguição deixava-o impávido, agia mais como um tónico, que
como um motivo de depressão. Sentia-se suficientement forte para fazer frente às calamidades e
delas triunfar, suficientemente forte para enfrentar a própria Islândia. E essa confiança era tanto
mais vigorosa quanto, na verdade, ele não acreditava nem por um momento em ter de enfrentar
fosse o que fosse. Em suma: não se transferem assim as pessoas por motivos de tal ordem. A
Islândia era uma simples ameaça. Uma ameaça muito estímulante e vivificante. Caminhando ao
longo do corredor, entusiasmou-se ao ponto de assobiar.
Foi uma heróica descrição a que ele fez, nessa noite, da sua entrevista com o D. I. C. - E então -
terminou ele - mandei-o muito simplesmente para ... o Passado sem Fundo. E saí de cabeça
erguida. E
pronto.
Dirigiu a Helmholtz Watson um olhar de quem espera qualquer resposta, simpatia,
encorajamento, admiração, como lhe era devido. Mas não teve nenhuma resposta. Helmholtz
ficou sentado e silencioso, os olhos no chão.
Gostava muito de Bernard e estava-lhe reconhecido por ser o único homem do seu conhecimento
com quem podia conversar sobre assuntos que lhe pareciam importantes. No entanto, havia em
Bernard coisas detestáveis. Essa gabarolice, por exemplo, alternada com as explosões de uma
piedade por si próprio que eram uma verdadeira falta de dignidade, assim como esse deplorável
costume que tinha de ser ousado, depois do sarilho passado, e cheio, a distância, da mais
extraordinária presença de espírito.
Detestava todas essas coisas, precisamente porque gostava de Bernard. Os segundos passavam.
Helmholtz continuou de olhos fixos no chão. E subitamente Bernard corou e afastou o olhar.
III
A viagem efectuou-se sem qualquer incidente. O Foguete Azul do Pacífico chegou a Nova
Orleães com dois minutos e meio de atraso, perdeu quatro minutos num tornado sobre o Texas,
mas, encontrando uma corrente aérea favorável a noventa e cinco graus de longitude oeste,
aterrou em Santa Fé com menos de quarenta segundos de atraso sobre o horário.
- Quarenta segundos, num voo de seis horas e meia. Não é mau - concedeu Lenina.
Dormiram essa noite em Santa Fé. O hotel era excelente, infinitamente superior, por exemplo, a
esse ignóbil Aurora Boreal Palace, onde Lenina tanto tinha sofrido no Verão anterior.
O ar líquido, a televisão, a vibromassagem por vácuo, a T. S. F., a cafeína líquida quente, os
preservativos mornos e os perfumes
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de oito espécies diferentes e'stavam instalados em todos os quartos. O aparelho de música
sintética que funcionava no balcão quando entraram, nada deixava a desejar. Um aviso colocado
no elevador anunciava a existência no hotel de sessenta campos de bola escalator e de um parque
onde se podia jogar golf de obstáculos e golf electromagnético.
- Isto parece-me absolutamente delicioso! - disse Lenina. Quase desejo que fiquemos aqui.
Sessenta campos de bola escalator...
- Que não haverá na Reserva - retorquiu Bernard, à maneira de aviso. - Nem tão-pouco
perfumes, nem televisão, nem mesmo água quente. Se pensa que não pode suportar tais faltas,
fique aqui até eu regressar.
Lenina ficou magoada.
- Claro que posso suportar. Se disse que isto aqui é delicioso, foi apenas ... meu Ford, porque o
progresso é, com efeito, uma coisa deliciosa, não é verdade?
- Quinhentas repetições, uma vez por semana, dos treze aos dezassete anos - disse Bernard com
desânimo, como se falasse consigo próprio.
- Que disse?
- Disse que o progresso é uma coisa deliciosa. E por isso, não deve ir à Reserva, a não ser que
tenha realmente Vontade.
- Mas eu tenho realmente vontade.
- Então está bem - disse Bernard em tom quase ameaçador.
A autorização devia ser verificada pelo conservador da Reserva, no gabinete do qual se
apresentaram, como era devido, na manhã seguinte. Um porteiro negro Epsilão-Mais recebeu o
cartão de Bernard e fê-los entrar quase de seguida.
O conservador era um Alfa-Menos braquicéfalo e louro, pequeno, avermelhado, de rosto
redondo, largo de ombros, com uma voz forte e atroadora, muitíssimo bem adaptada à emissão
da sabedoria hipnopédica. Era uma mina das mais variadas informações e de bons conselhos
gratuitos. Uma vez lançado, continuava, continuava sempre, trovejando sem interruPção:
- Quinhentos e sessenta mil quilómetros quadrados, divididos em quatro sub-reservas distintas,
cada uma das quais está
cercada de rede metálica de alta tensão ...
Nesse momento, sem razão aparente, Bernard lembrou-se subitamente de que tinha deixado
aberta e correndo a jorros a torneira de água-de-colónia do seu quarto de banho.
- ... percorrida por uma corrente proveniente da central hidroeléctrica do Grand Canyon...
« Vai custar-me uma fortuna até que volte a casa.» Bernard via em espírito a agulha do contador
de perfume avançar, volta após volta, no quadrante, como uma formiga, infatigavelmente.
« Telefonar urgentemente para Helmholtz Watson.»
- ... mais de cinco mil quilómetros de rede metálica a sessenta mil vóltios.
Sério? - disse polidamente Lenina, que não percebera nada do que o conservador estava a dizer,
mas modulando o tom da sua réplica pela pausa dramática do seu interlocutor.
Quando o conservador começara a dissertar na sua voz atroadora Lenina engolira discretamente
meio grama de soma, o que lhe permitia estar ali sentada com toda a serenidade, não ouvindo
nem pensando absolutamente em nada, mas fixando, cOm uma expressão de profunda atenção,
os seus grandes olhos azuis no conservador.
- Tocar a rede é a morte instantânea - declarou solenemente o conservador. - Não há forma
alguma de evasão de uma Reserva de Selvagens.
A palavra « evasão» era evocadora. -Talvez - disse Bernard, soerguendo-se da cadeira - seja a
altura de partirmos.
A pequena agulha negra caminhava como um insecto, engolindo o tempo, abrindo à dentada
uma estrada através do seu dinheiro.
- Forma alguma de evasão - repetiu o conservador, fazendo-o sentar novamente com um gesto.
Como a autorização ainda não estava visada, Bernard nada mais pôde fazer senão obedecer. -
Aqueles que nascem na Reserva, e não esqueça, minha senhora - acrescentou, dirigindo a Lenina
uma olhadela obscena e falando num murmúrio assaz inconveniente -, não esqueça que na
Reserva as crianças ainda nascem, sim, nascem efectivamente, por muito revoltante que isso
pareça ... (Esperava que esta alusão a um assunto escabroso fizesse corar Lenina. Mas
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ela limitou-se a esboçar um sorriso onde a inteligência era simulada e a exclamar: « Quem
diria!?» ) Desiludido, o conservador continuou:
- Aqueles que nascem na Reserva, repito, estão destinados a lá morrer.
« Destinados a morrer ... Um decilitro de água-de-colónia por minuto. Seis litros por hora.»
- Talvez fosse melhor... - arriscou de novo Bernard. Inclinando-se para a frente, o conservador
bateu na mesa com o dedo indicador.
- Perguntam-me quantas pessoas vivem na Reserva. Respondo - continuou triunfalmente -,
respondo que não sei. Apenas podemos fazer um cálculo.
- Sério?
- Sim, a sério, minha querida senhora. Seis vezes vinte e quatro. Não. Seis vezes trinta e seis, seria
mais verdadeiro. Bernard estava pálido e trémulo de impaciência. Mas a atroadora exposição
continuava. - Perto de sessenta mil índios e mestiços... absolutamente selvagens ... Os nossos
inspectores visitam-nos de vez em quando ... Fora disso, nenhuma comunicação, seja de que
espécie for, com o mundo civilizado ... Conservam