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Admiravel Mundo Novo   Aldous Huxley

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os seus hábitos e os seus costumes
repugnantes: o casamento, se é que sabe o que isso quer dizer, minha querida senhora; a família...
nenhum condicionalismo ... superstições monstruosas ... o cristianismo e o totemismo, o culto dos
antepassados
... línguas extintas, o zuiñi, o espanhol, o athapascan... pumas, porcos-espinhos e outros animais
ferozes... doenças contagiosas... padres ... lagartos venenosos...
- Sério? Finalmente acabaram por se safar. Bernard precipitou-se para o telefone. Depressa,
depressa.
Mas foram precisos mais de três minutos para obter comunicação com Helmholtz Watson.
- Parece que já estamos entre os selvagens - lamentou-se ele. - Que tremenda desordem!
- Tome um grama de soma - aconselhou Lenina. Recusou, preferindo a sua cólera. E, enfim,
Ford seja louvado, obteve a ligação. Era mesmo Helmholtz, a quem explicou o que tinha
acontecido, e que lhe prometeu ir imediatamente fechar a torneira, sim, imediatamente, mas que
aproveitou a ocasião para o informar do que o D. I. C. tinha dito em público na véspera à noite ...
- O quê? Anda à procura de alguém para me substituir? A voz de Bernard traduzia um sofrimento
atroz.
- Então sempre é verdade? E ele precisou que era a Islândia? Você diz que sim? Ford! A Islândia!
...
Desligou o aparelho e virou-se de novo para Lenina. O seu rosto empalidecera, tinha uma
expressão totalmente abatida.
- Que se passa? - perguntou ela.
- Que se passa? - Deixou-se cair pesadamente numa cadeira. - Passa-se que vão despachar-me
para a Islândia.
Frequentemente, no passado, ele tinha perguntado a si próprio o que sentiria se fosse submetido
(sem soma e sem poder contar com outra coisa a não ser a sua própria força interior) a alguma
grande prova, a alguma dor, a alguma perseguição; tinha mesmo desejado ardentemente ser
atingido. Apenas há oito dias vira-se resistindo corajosamente, aceitando estoicamente, sem uma
palavra, o sofrimento. As ameaças do Director tinham-no exaltado verdadeiramente, tinham-lhe
dado a sensação de ser maior que o normal. Mas isso era, via agora, porque não tomara essas
ameaças a sério; não acreditara que, quando chegasse a altura, o D. I. C. fizesse alguma coisa.
Agora, ao ver que as ameaças iam realmente ser postas em execução, Bernard ficou aterrado.
Desse imaginado estoicismo, dessa coragem teórica, nada restava.
Barafustou contra si próprio - que imbecil tinha sido! contra o Director - como era injusto em não
lhe dar uma última oportunidade de se emendar, essa última oportunidade que, não alimentava
presentemente a menor dúvida a tal respeito, ele sempre tivera a intenção de aproveitar. E a
Islândia, a Islândia ...
Lenina meneou a cabeça.
- « Fui» e « serei» não são da lei - citou ela. - Um grama de soma tomado, e só « sou» é
lembrado.
Finalmente, convenceu-o a engolir quatro comprimidos de soma. Ao fim de cinco minutos as
raízes e os frutos tinham desaparecido, a flor do presente desabrochava, toda rosada. Uma
mensagem trazida pelo porteiro informava que, conforme as ordens do conservador, um guarda
da Reserva estava à disposição
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deles com um helicóptero e esperava-os no terraço. Um mestiço de uniforme verde-gama
cumprimentou-os e sentiu-se na obrigação de recitar o programa da manhã.
Uma rápida visita a dez ou doze dos principais pueblos, depois uma aterragem, para o almoço, no
vale de Malpaís. A pousada era confortável e lá em cima, no pueblo, os selvagens estariam
provavelmente celebrando a sua festa de Verão. Seria aí o melhor sítio para passar a noite.
Subiram para o helicóptero e partiram. Dez minutos mais tarde atravessaram a fronteira que
separava a civilização da selvageria. Por montes e vales, através de desertos de sal ou de areiâ,
cortando as florestas, descendo às profundidades violáceas dos cany ons, atravessando
precipícios, picos e planaltos da mesa, a rede metálica corria irresistivelmente, em linha recta,
símbolo geométrico do triunfante desígnio humano. junto dela, aqui e ali, um mosaico de ossos
embranquecidos, uma carcaça ainda não apodrecida, sombria no solo selvagem, marcava o sítio
onde veado ou touro, puma, porco-espinho ou coiote, ou ainda enormes abutres vorazes, atraídos
pelo cheiro da carne putrefacta, tombaram fulminados, dir-se-ia que por uma justiça poética, por
se terem aproximado demasiadamente dos destruidores fios metálicos.
- Eles não conseguem aprender - disse o piloto de uniforme verde, apontando para os esqueletos
no solo por baixo deles. - Nunca conseguirão. - E riu, como se isso fosse um triunfo pessoal sobre
os animais electrocutados.
Bernard começou igualmente a rir; após dois gramas de soma, a piada parecia-lhe boa, sem que
soubesse porquê. Começou a rir e depois, quase imediatamente, adormeceu, e foi a dormir que
sobrevoou Taos e Tesuque, Nambe, Picuris e Pojoaque, Sia e Cochiti, que sobrevoou Laguna,
Acoma e La Mesa Encantada, Zuñi e Cibola e Ojo Caliente, para só acordar quando o aparelho
pousou em terra.
Lenina, carregada de malas, dirigia-se para uma pequena casa quadrada e um mestiço, verde-
gama conversava incompreensivelmente com um jovem índio.
- Malpaís - elucidou o piloto, enquanto Bernard descia do helicóptero. - Ali é a pousada. E há
danças esta tarde, no pueblo. Ele leva-o. - Apontou para o jovem selvagem de aspecto sombrio. -
Deve ser engraçado - disse a rir e fazendo uma careta. - Tudo o que eles fazem é engraçado. -
Depois subiu para o helicóptero e pôs os motores a trabalhar. - Volto amanhã. E lembrem-se -
acrescentou, tranquilizador, para Lenina - de que eles são completamente inofensivos; os
selvagens não vos farão mal. Têm suficiente experiência das bombas de gás para saberem que
não devem fazer asneiras. - Sempre a rir, embraiou as hélices do helicóptero e partiu.
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CAPÍTULO SÉTIMO
A mesa parecia um barco retido pela calmaria num estreito de poeira amarelada, cor de leão. O
canal serpenteava entre margens a pique. Descendo suavemente de uma a outra das muralhas
através do vale, corria uma fita verde: o rio e os campos que ele regava. À proa desse navio de
pedra, no centro do estreito e parecendo fazer parte dele, semelhante a um afloramento com a
forma definida e geométrica da rocha nua, elevava-se o pueblo de Malpaís. Bloco sobre bloco
cada um dos andares mais pequeno que o inferior, as altas casas subiam, quais pirâmides de
degraus truncadas, para o céu azul.
Em baixo, um aglomerado de casas acachapadas, uma rede de muralhas. Por três lados,
precipícios caindo a pique na planície. Algumas colunas de fumo subiam verticalmente no ar
calmo e nele se diluíam.
- Estranho - disse Lenina -, muito estranho. - Era a sua habitual expressão condenatória. - Não
me agrada. E esse homem ainda me agrada menos. - Apontou o guia índio que fora designado
para os conduzir até ao pueblo. Esse sentimento era manifestamente retribuído; as próprias costas
do homem, enquanto caminhava à frente deles, eram hostis, sombriamente desprezadoras. - E,
depois - baixou a voz , cheira mal.
Bernard não tentou negá-la. Continuaram a caminhar. Subitamente dir-se-ia que todo o ar se
tinha tornado vivo e@ começara a vibrar, a vibrar com a infatigável pulsação do sangue. Lá em
cima, em Malpaís, os tambores soavam. Os seus pés adquiriram o ritmo desse coração
misterioso. Apressaram o passo. O carreiro que seguiam conduziu-os junto do precipício. Os
flancos do enorme navio-mesa dominavam-nos com toda a sua altura, cem metros acima.
- Se tivéssemos podido trazer o helicóptero até aqui! - disse Lenina, erguendo colericamente os
olhos para a superfície nua do rochedo que os dominava. - Detesto andar. E, além disso, sentimo-
nos tão pequenos quando estamos no sopé de uma montanha!
Continuaram a andar, percorrendo uma parte do caminho à sombra da mesa, contornaram uma
ponta, e eis que aparece, num barranco cavado pelas águas, o carreiro que subia até ao planalto.
Galgaram-no.
Era um carreiro muito íngreme, que